domingo, 10 de março de 2019

um conto de férias


UM CONTO DE FÉRIAS
Ronald Mendonça

A carona de um colega de faculdade fez André antecipar em algumas horas seu retorno, a contrariar a ideia inicial de voltar de avião. O velho casarão estava quase às escuras, o silêncio apenas rompido   pelo som da televisão, cuja  luminosidade o atraiu até o quarto do seu pai, que cochilava numa preguiçosa. Aproximou-se com cuidado e alisou sua cabeleira branca e farta fazendo-o despertar meio assustado. O abraço comovido selou aquele reencontro, depois de quase um ano em que não se viam. O velho pai estava saudoso  do filho único. Mal começaram a conversar e a voz da mãe se fez ouvir, determinando ao motorista onde deveria guardar as compras.
Foi uma surpresa muito agradável. Gentil  e bonita, elegante, mais magra,  a mãe pareceu-lhe muito jovem, sobretudo quando comparada ao pai que, a seus olhos, muito envelhecera.   A postura materna contrastava com o despojamento  do velho pai que, além de tudo,  tinha um ar melancólico.
Achou legal rever o seu amigo de infância, Zé Luiz, hoje motorista da família. Filho da falecida lavadeira da casa, praticamente cresceram juntos.  André, três anos mais moço, filho único, nutria fraterna afeição  e lamentava sinceramente o fato de o amigo  haver desprezado as oportunidades em relação aos estudos. Chegaram a frequentar o mesmo colégio particular, mas Zé Luiz gostava mesmo era de jogar bola e pegar passarinho na pequena mata próxima à casa.
Logo cedo do dia seguinte, André acordou com disposição de dar uma volta no sítio. Queria rever tudo. Eram saudades imensas. Tudo o emocionava. Os exatos cem coqueiros que cinco anos antes o pai havia plantado, ali estavam. Os patos, as galinhas, os porcos... Até festa fizeram ao vê-lo. O cheiro da marisia da lagoa penetrava nas suas narinas e o inebriavam de satisfação. Enquanto se detinha em cada pezinho de mato, lembrou-se do pai. Que estaria acontecendo para ele andar tão triste? Iria tentar descobrir...
A lâmpada da suspeita acendeu ao voltar do sítio.  Presenciou, de longe, sem ser notado, o seu amigo de infância Zé Luiz dirigir-se a sua mãe sem o respeito esperado. Parecia que o motorista falava com inusual insolência. Que diabo estava acontecendo? As pessoas daquela casa enlouqueceram? Para completar, o cara entrou no carro e sair arrastando os  pneus.
André não ficou feliz com o que viu. Sob tensão, voltou aos aposentos dos pais para sondar alguma coisa. Remexendo o guarda-roupa  encontrou, surpreso,  o velho punhal enferrujado de cabo de madre pérola que pertencera ao avô. Supunha-o perdido. Instintivamente o escondeu dentro da camisa e o guardou no seu quarto, sob o travesseiro.
O ambiente da casa não era o mesmo. Sim, com a sua chegada, a inteligência, o raciocínio rápido de Anízio aparentemente voltavam ao seu estado de normalidade. Trabalhava menos, construíra um verdadeiro império do Direito e comandava com mãos firmes um poderoso escritório com capilaridade que captava os casos complicados de bancas menores. Era um timoneiro experiente, culto, dava aulas na Universidade, era convidado para fazer palestras, conferências em vários pontos do continente. Grandes bancas jurídicas o consultavam sub-rosa e ele cobrava caro pela consultoria. Tinha uma belíssima biblioteca, tudo catalogado por profissionais da área. Era, de fato, um advogado brilhante e muito influente. Sabia a hora de atuar. Como todo advogado, tinha clientes de todas as matizes morais. Mas, nos últimos anos dava-se ao desfrute de recusar até causas milionárias. Não se permitia defender assassinos de aluguel, gente do sindicato do crime, pedófilos e outros patifes. Ladrões que saqueavam os cofres públicos não encontravam guarida no Dr. Anízio. Acumulara uma boa reserva financeira decorrente de causas de funcionários públicos sufocados por planos cafajestes. Poder-se-ia dizer que Dr. Anízio conhecia as vísceras mais recônditas, mais infectadas da Sociedade. Estava naquela situação em que não se confia mais nos homens e não acreditava em milagres.
Por outro lado, para André,  os empregados mais antigos davam a impressão de estarem a evitá-lo. Decidido a tirar tudo a limpo, passaria a desconfiar de todos. Na adolescência adorava contos policiais e era leitor recorrente de X-9 e Sherlock Holmes. Sim, era verdade: às vezes sentia-se perseguido, observado... Dizia que convivia bem com a sua paranoia. Procurava livrar-se desses excessos, mas agora as impressões eram mais fortes que ele. Imaginou até seus pais sendo chantageados pelo motorista, por algum motivo que precisava descobrir. Para aumentar o clima de suspense, o velho punhal de madre pérola sumira de sua cama.
Não se consentia pensar  em qualquer atitude que denegrisse a imagem da mãe. Era uma santa. Além da sólida formação moral, era de uma religiosidade a toda prova. Faziam refeições nos horários habituais. Era interrogado pelos pais sobre sua vida distante do lar. Eles testavam a resiliência do filho, a capacidade de resolver suas coisas de forma independente, sem as peias e o abrigo dos genitores. O pai interessava-se particularmente sobre os conhecimentos adquiridos depois do ingresso na faculdade. Eram conversas amenas, mas pressentia-se, para André, que algo não ia bem no relacionamento dos pais.
A despeito de, rigorosamente, nada ter visto de concreto, a última semana das férias foi  de expectativas e de puro sofrimento. O pai registrou essa ansiedade. Estaria apaixonado? Ou continuava com a sua política de não envolvimento mais profundo?
André planejou  uma estratégia. Faltando apenas um dia para voltar para a faculdade, fanático  pelo CSA,   no domingo, fez chegar a todos da casa  que iria ao Trapichão, assistir ao jogo final do campeonato. Na última hora, conseguiu o carro de um colega emprestado e fingiu dirigir-se  ao estádio. Ficou na espreita, perto de casa. Intuía que alguma coisa importante iria acontecer.
Às cinco da tarde, cautelosamente, acompanhou o automóvel da família que ganhara a rua, Zé Luiz no volante. Foi com extremo alívio que, de longe,  avistou a mãe descer na porta da Igreja. André não arredaria  de onde estava. Quinze minutos se passaram até ver  o carro do pai novamente em movimento. Com o coração aos pulos,   segui-o em direção à periferia da cidade.
Não havia certeza de que a mãe entrara naquele carro. Indeciso, esperou intermináveis minutos próximo à entrada de um motel, onde o automóvel da mãe se escafedera. Deus! o que era isso... Pensou em desistir. Decididamente, não tinha condições emocionais de presenciar o que estava a antever. O que  imaginava estava muito além do que poderia suportar.
Como se assistisse a um velho filme congelado na sua mente, cenas de sua vida foram exibidas numa tela imaginária. Era como se o velho Clóvis, centroavante do CSA e funcionário do SESI, as comandasse. Estaria alucinando? Chegou a voltar a cabeça para, na escuridão do seu cérebro conturbado, tentar enxergar o velho atleta, ídolo da sua infância. Cenas indeléveis da sua casa na Chã de Bebedouro, na Osvaldo Cruz Nº 500. O pai, jovem advogado impetuoso, antevia uma grande causa que o livrasse da mediocridade e das dificuldades financeiras. No início, suas atividades resumiam-se a pequenas causas, brigas de vizinhos, entreveros de parentes, quase biscates. Decerta forma assimilara a arrogância de certos advogados, famosos pela perspicácia, mas sobretudo pelas vultosos honorários. Reatou amizades com notários, antigos colegas de colégio que o recomendavam. Sempre foi sério, estudioso, avesso a farras. Mal e porcamente frequentava o Bar Colombo, aos sábados, apenas para marcar presença, mas lá não se demorava.
Formara-se em Olinda em difíceis tempos. Esteva com um pé na Segunda Guerra quando ela acabou. Para concluir o curso de Direito humilhara-se em sub-empregos. De certa forma, o pequeno soldo do Exército reanimara-lhe os brios. Iria vencer, sim. Sua “grande causa” chegaria aos quarenta anos. Outas causas foram se sucedendo. Não queria tanto. Tinha apenas um filho, o André.
Educou-o com moderada disciplina, seguindo os costumes da época. Nunca admitiu que seu filho único chegasse em casa com nota que não beirasse o dez. Erguia as temidas sobrancelhas e dizia: ”eu não avisei que você estava inseguro naquelas datas? A sua nota baixa (9,7) deve ter sido por isso”. E completava: “vamos fazer um serão e repassar essas lições”. Aos sábados à tarde André faxinava os sapatos próprios e os dos pais. Deixava de molho e no domingo engraxava e dava o polimento. Como prêmio, recebia autorização para ir ao cinema, com direito a verba extra para adquirir alguns gibis em barganhas na porta do cinema.
O imaginário filme da sua vida não poupou as pequenas alegrias domésticas, as comemorações dos aniversários, o de Anísio, o pai, coincidia com a véspera de São João e o de Guiomar a antevéspera do Natal. Havia sempre uma buchada, no São João, e um peru, no Natal. Naquela casa, comemorava-se o Natal no dia 23 de dezembro. Foi nessas brincadeiras que André, ainda adolescente, arriscava-se na sangria do vinho. Para horror de Guiomar, Anísio fazia vistas grossas à traquinagem do unigênito filho. Passados os festejos a ordem voltava a imperar na casa de André. O pai, ao silêncio das noites tentava justificar: “mulher, nós temos um menino exemplar, que nos dá imensas  alegrias. Nesse ano foram  seis medalhas de ouro, no Colégio; bem, teve uma de prata, é verdade...”
O filme revia cenas que André já não mais se lembrava: as mornas tardes, na pequena varanda, com a cara enfiada nos livros e também a observar a mãe catita cuidando das roseiras, maldizendo as temíveis saúvas. De vez em quando, o olhar materno em sua direção a lembra-lo que iria tomar as lições. Mas era à noite a prova final, quando Dr. Anízio, ar carrancudo, iria dar o veredictum sobre a qualidade do aprendizado do garoto. Não admitia gaguejos ou vacilações. Quase um acidente de percurso, chegou a passar um mês num seminário. Ouvia-se dizer, entre risos, que Deus (na sua infinita misericórdia) lhe aparecera em sonho a perguntar-lhe o que ele, André, estaria fazendo naquele local, a ocupar lugar de outros, certamente, mais vocacionados ao celibato e às adorações.
Dona Guiomar, a mãe, que não fizera festas quando o filho comunicara suas  pias intenções, também tivera seus maus bocados. Passara a infância e adolescência entre freiras. Menina pobre do interior, perdera o pai aos quatro anos. Daí em diante seus pais foram as irmãs claretianas. Esteve à beira de confirmar os votos, até que, numa missa dominical, avistou aquele seria seu príncipe encantado, alto, vasta cabeleira, rosto bem conformado, enfeitado com charmosos bigodes, não obstante quase imberbe. Durante a celebração, foi fulminada pelos olhos negros do futuro e promissor causídico. Um discreto e acanhado sorriso era a confirmação do flerte.
Assim, nasceria uma linda história de amor entre a tímida órfã e o destemido soldado do Exército brasileiro, estudante da tradicional Faculdade de Direito de Olinda. Romântica, a bela Guiomar predestinou o futuro marido ao encalço do Hitler, como o lendário sãomiguelense Zé da Júlia, nas distantes montanhas do conflagrado Velho Mundo.
André reviu seus desencantamentos por ser filho único. Aparecia a cobrar  da mãe essa condição, para ele, de inferioridade, posto que seus amigos de colégio surgiam na fita a falar  dos irmãos, narrando incidentes, convivências, brigas e outros que tais das grandes famílias Somente ele e mais um ou dois colegas não tinham irmãos. Nessa fita retrospectiva, a mãe aparecia a dizer-lhe, melancolicamente, furtivas lágrimas a perolar a face, que durante o parto de André tivera um forte sangramento. Estivera às portas da morte, fora operada na “bacia das almas”, contudo a sobrevivência teve um preço: a “condenação” a não ter outros filhos. Talvez por isso, essa necessidade em André de superar essa espécie de “peça” preparada pelo destino. Um misto de decepção e até de culpa por ter sido, involuntariamente, é claro, causador da infertilidade materna.
Num relance de flash back  surgiram o velocípede e a bicicleta. O futebol, as peladas no bairro e na praia, os bailinhos, as festas carnavalescas, os porres de lança-perfurme em plena Rua do Comércio, os corsos, os grandes passistas, os festejos natalinos, os amassos nas festas de rua em Fernão Velho e Rio Largo, os entreveros físicos, trocas de socos e pontapés em ônibus, a ida à Delegacia de Polícia onde foi, por conta disso, certa feita, parar...
Passagens de sua presença no colégio dos beneditinos foram recorrentes. Numa delas estava a fazer prova de Português, matéria em que se destacava. Por sinal, cada novo professor, ao iniciar o ano letivo, pedia para os alunos fazerem uma dissertação, “tema livre”. Já no curso primário suas “composições” destacavam-se e eram expostas no quadro de avisos da sala de aula. As dissertações de André, segundo o filme de sua vida, eram lidas em voz alta pelos professores, comentadas, elogiadas pela boa qualidade dos textos. Mas um certo professor resolveu encrencar com o adolescente André. Uma cena, até certo ponto, revoltante. O aluno, sentado na fila da frente, concentrado na prova, escrevia com a mão direita e, sem perceber, mantinha a mão esquerda fechada. O tal professor cismado que havia uma “cola” no punho cerrado, exigiu a abertura da mão. André, de forma desafiadora, só concordou em estender os dedos em respeito aos apelos dos colegas. A mágoa ficou. Ao ter sua aprovação no vestibular confirmada, o professor teria comentado: “o André foi um dos meus melhores alunos nos beneditinos”. Era tarde o pedido de desculpas.
André não estranhou  uma cena particularmente marcante. Ganhara uma couraça, presente do pai. Tinha um ciúme doentio desse brinquedo. Porém, cometeu uma imprudência ao bater um “picadinho” na praça em frente ao Palácio dos Martírios. A bola seria capturada por um guarda-civil. O sujeito, de nome Vítor, torturou a criança com frases em que dizia claramente que a couraça de estimação estava no lixo, rasgada com fúria por malvados policiais, “seguindo orientações advindas do Palácio”. “Do Palácio!?” exclamou o garoto, e completaria, “moço, esse governo não tem o que fazer de mais importante?” Por fim, já anoitecendo, depois de lamuriosos apelos, o tal de Victor devolveu o brinquedo. O problema agora seria explicar ao pai o atraso do regresso ao lar...
Nunca foi um namorador contumaz. Na realidade, sempre foi muito tímido e algo desajeitado. Seu rosto era pequeno em relação aos largos ombros, o que lhe conferia uma certa desproporção corporal. Vestia-se com simplicidade roupas alinhavadas pela mãe, numa velha Singer. Seus sapatos eram reforçados por biqueiras e saltos em metal para durarem mais. Várias vezes, aparecia jogando, usando aqueles instrumentos belicosos, de reforçados bicos, temidos pelos estragos potenciais que poderiam produzir, à sombra dos oitizeiros do colégio dos beneditinos. Pelo conjunto da obra, até aquele momento, não se auto-classificava como um “macho alfa”, posto não provocar, aparentemente, nenhum frisson no público feminino.
Intrigado, descobriu-se a perguntar-se o que  namorados faziam ou falavam-se de tão interessante, em prolongados encontros quase diários. Na verdade, sempre preferira prostitutas a namoros mais sérios, daí as visualizações femininas sem nitidez, como a denunciar os passageiros “casos”.  André era mesmo focado em leituras. Queria passar num vestibular de uma grande instituição de ensino, como o seu pai, e, seguindo o raciocínio, ser um profissional respeitado.
De súbito, o filme do seu passado deu um branco e retornou a sua dramática encruzilhada. Procurava uma justificativa razoável que pudesse explicar o comportamento de Guiomar. Transtornado, incapaz de raciocinar com clareza, nada lhe ocorria a não ser a crueldade do destino, que, tragicamente, o marcou desde a concepção.
Veio-lhe então à mente a grave fisionomia paterna séria e tristonha. Vacilou. Mas alguma coisa haveria de fazer. Cresceu em ódios contra o seu amigo de infância. Não tinha dúvidas, fora ele quem botara sua mãe no caminho do mal. Sim, fora aquele canalha que de forma sub-reptícia fez sua mãe, uma santa mulher, corromper a sua alma bondosa, renunciando aos seus princípios morais e religiosos. Pensou em estrangular o amigo. “Um filho-da-puta!” Era terrível e desconcertante. André deixara de acreditar em alma, em outras vidas, em “planos superiores”, em “outra dimensão”...  Por fim, encheu-se de coragem. Daí em diante,  André não saberia mais narrar o ocorrido, se assim possível fosse. Suas últimas impressões, após arrombar a porta do quarto do rendez-vous,  teriam sido a dolorosa visão da sua mãe assustada, supostamente em felações, tentando esconder a nudez. Ele ainda ensaiaria  dizer-lhe que a perdoava,  mas apenas gemeu alto pela lancinante dor de um punhal a rasgar-lhe  o peito e  faze-lo suspirar, penosamente, pela última vez.
Maceió, 1997.
Enviado do Email para Windows 10


quarta-feira, 6 de março de 2019

De fato, há um ambiente propício, facilitador no que tange ao encontro de duas pessoas do mesmo sexo. Há um clima nesse sentido, parece que Apolo cavalo perdeu as rédeas da censura e que seu pai Zeus decidiu ocupar-se de coisas mais importantes. O fato é que o Carnaval terminou de acabar. E o país passa por hábitos tão estranhos que certamente não são as coisas mais apresentáveis para a população. Sim o país é de velhos (e daí)?, mas ainda temos muitos crianças. E Creiam, inocentes!
Quantos aos septuagenários, classe etária a qual pertenço, pessoalmente, pouco coisa me choca, mas eu penso nos circunstantes e me reporto ao que o advogado José Alexandrino me disse:"não há balança para medir uma ofensa moral, assim como não há fita métrica para saber a extensão da ofensa.
Vivemos o tempo da mais alta divulgação. Ninguém faz nada sem testemunhas, Até o cara malandro que maliciosamente quer ter filmar, na sua própria casa, de forma marota, que está cometendo um crime de invasão de sua vida íntima, praticando o que se denomina conspurcação, está sendo marcado num vídeo de outrem. Essa coisa assume contornos jurídicos quando se sabe que o cara que lhe gravou é um dos seus advogados, e que não foi autorizado para tal.

domingo, 9 de dezembro de 2018

TARRAFA E A COOPERATIVA BOA PESCA


TARRAFA E A COOPERATIVA BOA PESCA
RONALD MENDONÇA

No Bebedouro da minha infância, situado na Rua Cônego Costa, perto da emblemática ponte e da estação ferroviária, havia um terreno baldio com cerca de vinte metros de frente e não sei quantos de profundidade. Os fundos desse terreno davam para o mangue e consequentemente para o braço da lagoa Mundaú, cuja aparente mansidão lambe o lado austral do bairro. Aquele pedaço de terra que nos meus tempos de menino frondeava uma formidável castanheira, fora sede de dois empreendimentos que movimentavam a saúde financeira do arrabalde. Durante algum tempo um posto de gasolina ali pontificava, tendo como proprietário o dinâmico Genésio Carnaúba, sisudão, no seu medonho bigode, não obstante um grande empreendedor. Algum tempo depois, uma outra atividade ali florescera: um entreposto de caranguejos e sururus.
O entreposto de crustáceos, segundo relatos orais e apócrifos de antigos bebedourenses, tentava modelar-se nas cooperativas. Havia um líder quase lendário, um velho pescador mal-criado que tivera um dos membros inferiores amputados. Cordial, quase humilde, de quando em vez agitava-se, sobretudo depois que ingeria algumas lapadas da “aguardente de cabeça” do alambique de seu Cabral, meu padrinho de vela. Cabral era um senhor de uma distinção de lorde. Morava na mesma calçada alta onde habitávamos. Até hoje, tento encontrar uma justificativa plausível, patrocinada pela direção do Colégio Bom Conselho, para a demolição desse acidente geográfico (a calçada alta), um dos cartões postais do bairro.
Como estava a relatar, o pescador “Tarrafa”, cujo nome era Antonio, ao embriagar-se causava vexames na família e nos moradores. Vernizes de política faziam-no um caricatural Lênin de bengala e muletas. Era nessas horas que a molecoreba o provocava:”Tarrafa, eu vou?” O deficiente altercava – “Pra minha muleta pequena, venha!” As provocações continuavam: “Tarrafa, eu vou?” O pobre homem apelava –“Para o C de sua mãe, pelanco de corno, vá!” E a procissão seguia, o velho à frente bêbedo, como um Cristo desfigurado carregando e sendo carregado pelas suas toscas órteses de madeira lavrada, seguido por impiedosos garotos, tais quais as turbas enfurecidas que xingavam o crucificado do Monte Calvário.
Poucos sabiam que aquele velho cambaleante e decadente, desmoralizado na sua embriaguez, um dia já havia liderado um movimento societário, cooperativista que durara cerca de sessenta anos. Nos seus eitos solitários, montando uma canoa à vela, singrando com ímpar elegância e lepidez a lagoa Mundaú (muitas vezes, adentrando-se em mar aberto), ao ver o desperdício dos frutos enterrados nas lamas da laguna, idealizou e fez nascer um dos maiores e mais duradouros empreendimentos do bairro de Bebedouro.
Fácil não teria sido. Pescadores, sururuzeiras e outros que tais escutavam suas preleções com desconfiança. Como humildes pescadores enfrentariam os grandes conglomerados pesqueiros, que àquela altura já abarrotavam mercados e feiras com seus produtos congelados, vindos dos mares de Santa Catarina e até das frias águas do Mar do Norte e dos mares Barent. O audacioso e sonhador Tarrafa, ainda com o cabedal físico intacto, mostrava-lhes mapas. Certo dia chegou a levar um globo geográfico iluminado por dentro. Os candeeiros teriam se apagado e a voz tonitroante cuja imagem iluminada pelo globo metamorfoseara o agigantado pescador, assemelhando-o a um Moisés planificando a fuga do Egito.
O terreno existia. Genésio abrira mão, depois de desistir do posto de combustível. Como paga, semanalmente, algum fruto da lagoa era entregue em sua residência, à leste da Matriz de Santo Antonio.
O velho Tarrafa era um intuitivo. Pouca leitura, muitas vezes lia só os comentários iniciais e já desvendava mistérios que grandes inteligências levavam décadas para compreender. Num passe de mágica, a fome acabara entre os pobres da orla lacunar. Na época do defeso, o respeito pelo ambiente, que lhes dava sustento e educação aos filhos, era minuciosamente respeitado. Frigoríficos acumulavam víveres para os tempos de recesso na pesca. Como chefe desse clã, Tarrafa também prosperava. Família de muitos filhos, aos poucos, o velho líder foi cedendo às demandas familiares. Chegaria a dar o seu próprio posto de comando a uma das filhas, acreditando num potencial que se derretia em contato com ar.
 A irresponsabilidade da filha iniciou o processo de autodestruição. Os cooperados já não recebiam pelo que produziam. Os contratos de abastecimento das redes hoteleiras e hospitalares foram suspensos pela falta de compromisso da irresponsável e incompetente dirigente. O velho Antonio Tarrafa mantinha contratos pétreos com os barzinhos da orla, em franca expansão turística. Até Marechal Deodoro, nossa antiga Madalena do Sul, desistiu de participar da Cooperativa Boa Pesca, denominação aprovada pelo Conselho Diretor da empresa. Os gordos goiamuns e as patas de uçá perderam a qualidade, exalavam odor amoniacal, muitas vezes eram entregues congelados, mas deteriorados. Os pescados passariam a ser devolvidos com admoestações. Magros e desenxabidos, os comerciantes buscaram os velhos fornecedores da Bahia e de Sergipe. Outros empreendedores, de olho no sucesso da Boa Pesca, invejavam e torciam pelo fracasso.
Tarrafa, ainda com as duas pernas voltaria ao mar aberto. Resolvera salvar a empresa com algo espetacular. Já havia decidido: a filha irresponsável e truculenta, que havia posto no seu lugar, seria defenestrada. Munido de uma dúzia de garrafas da Azuladinha de Coruripe atravessou cautelosamente a Barra Nova.
Já saíra de casa meio chapado. Era uma noite tenebrosa que meteria medo em qualquer um, menos no velho Tarrafa. Uma meiota da Azuladinha já havia sido devorada quando algo monstruosamente grande e escuro, celeremente, aproximou-se de sua frágil embarcação. Num último lampejo, pensou estar diante daqueles monstros marinhos cujas histórias ouvira na infância mas que nunca dera fé.
Tarrafa daria por sí muitos dias depois. Estava no Pronto Socorro Municipal, na Rua Dias Cabral. Ninguém, nem o próprio, sabia dizer como chegara vivo e sangrando na Praia do Sobral. Uma das pernas estava esfacelada, faltavam-lhe partes, talvez mordidas de peixes. A lenda quis dizer que Tarrafa fora salvo montando algum velho peixe marinho amigo e solidário, que o pusera no dorso e o jogara no Sobral. O poderoso peixe teria afastado os predadores do mar.
Endividada, desmoralizada, o epílogo da Cooperativa Boa Pesca era inescapável. Tarrafa arrastou a sua dor enquanto pôde. Num dia de maré alta, humilhado, desprender-se-ia das muletas e saltou para a morte nas turvas e turbulentas águas sob a sua querida ponte, onde milhares de vezes ali quedava-se para assistir a morte temporária e crepuscular do avermelhado sol poente.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

neurocirurgia

domingo, 25 de novembro de 2018




SONHOS E DORES
 RONALD MENDONÇA – médico e membro da AAL.
                                                                      

SONHOS E DORES

A eleição (e a posse) do poeta Jucá Santos para uma cadeira na Academia Alagoana de Letras resgata uma dívida moral. Com efeito, o eterno presidente da Academia Maceioense de Letras era uma ausência doída na vetusta AAL, uma lacuna que precisava ser preenchida urgentemente. Repito o que alguém disse aos pares, em informal cabala de adesões: “Os velhos têm pressa”. De fato, chega-se a determinados estágios em que praticamente nada pode ser adiado para o dia seguinte. Aos oitenta anos, não há pospores...

Não fora a liturgia do cerimonial, não obstante o inflamado discurso de Ricardo Nogueira, que, em nome da Academia, deu as boas-vindas ao empossado, Jucá Santos tem tanta e tamanha visibilidade no meio cultural da Província que dispensaria a formalidade da apresentação.

Dispenso-me gastar o meu enferrujado latim para dizer que Jucá tem uma respeitável obra literária. “Produto” resultante da mistura de um poeta com uma pianista, trazendo no genoma a imorredoura marca do consagrado avô Cipriano. Está assim explicada a força criativa dessa conspícua figura que há tantos anos passeia entre as musas e as encanta  e seduz.

Quis o destino que no exato dia em que Jucá Santos concretizava o sonho de adentrar-se triunfalmente no oratório literário da Praça Deodoro, uma outra figura despedia-se da vida deixando um legado de coragem e determinação. Falo de Nelson Mandela. 

Em rápidas pinceladas foi traçado o perfil do grande líder, um exemplo para os que se arvoram de líderes e não passam de incorrigíveis picaretas. Presidente do seu país com quase 80 anos de idade, após vinte e sete anos confinado num cubículo de cinco metros quadrados, apesar de comunista, Mandela recusou-se sentar na cadeira presidencial eternamente. O recado foi claro: há prisões em que o sujeito sai maior. A segunda mensagem  é que, mesmo comunista, o cara pode não sonhar com partido único, jornal único e pensamento único. Lições que poderiam inspirar Genoino, Zé Dirceu e companheirada.

Condenado à prisão perpétua, era um comuna que respeitava os antagônicos; que costurou o fim do apartheid com um adversário ferrenho, branco e rancoroso, cinco anos antes de livrar-se das algemas. Feridas da alma (e na augusta fronte) certamente o grande líder as sepultou. Sua digna esposa, recalcitrante, ao chifrar o nosso herói, não tenham dúvidas, magoou o mundo. Sobretudo o masculino.

Não há sonhos sem dores.

sábado, 13 de outubro de 2018

LUTAS ARMADAS


LUTAS ARMADAS
RONALD MENDONÇA
Quando A Luta é armada faz vítimas de ambos os lados. A desvantagem dos que tentaram trocar a ditadura militar de 1964 por uma comunista era grande. Foi mais um equívoco de avaliação do comunismo na gana pela instalação de uma ditadura. Prestes, em 1935, cometeria o mesmo erro. Mas, a partir de 67-68, garotos da classe média identificaram-se com o charme revolucionário de Che Guevara. Virou o sonho de consumo da meninada, estranhamente  fascinada por um repugnante criminoso sanguinário, mas que divulgava frases de efeito. Um detalhe: o comunismo na Europa já dava sinais de esgotamento. O mundo queria dançar e cantar com liberdade e os países comunistas amputavam esse direito das pessoas.
 O fato é que, aqui no Brasil, tudo concorria para a Luta Armada não dar certo. Alguns garotos da minha adolescência embarcaram nessa fria. Inicialmente, mera curiosidade, reuniões secretas, de repente estavam de armas na mão fazendo sequestros, roubando bancos, invadindo residências, planejando envenenar a caixa d´água do quartel... Dias atrás conversei justamente  com o Beltrão e o Verçosa. Eu falei exatamente isso. Foi um mergulho fundo demais para quem queria tão somente discordar, desafiar e nadar. Penso que muitos arrependeram-se. Até porque o paraíso socialista não existe.
Antes dessa decisão ensandecida, houve uma dissidência nas hostes  comunistas. O próprio Prestes desaconselhara a luta armada, mas havia um Marighella, destemido, diria até irresponsável na sua coragem.... Do nada, despontaria um incendiário Lamarca, capitão desertor, apaixonando-se por Iara Iavelberg, uma psicóloga paulista...
Quando um cara pega em armas, vai para a clandestinidade e participa de guerrilhas, de confrontos com forças numérica e estrategicamente superiores já sabe o que o espera. Certamente não é a glória. Brincar de comunista com um livro de Marx debaixo do braço, no Bar do Chopp, é uma coisa , fazer parte de um bando armado comandado por um desertor surtado é outra. Lamarca levaria a sonhadora burguesinha judia ao trucidamento. A eclipse da guerriha do Araguaia ocorreria com a delação de Genoíno.
Desculpe, Prof. Marcelo Bastos. Os que pegaram em armas sabiam de tudo isso. Havia, além do mais, uma população que apoiava o regime militar. O julgamento sumário de um tenente, capturado como refém  do grupo de Lamarca, morto cruelmente a coronhadas, deu o tom de violência de ambas as partes. Nesses embates não havia orquídeas. Herzog e Fiel foram mortes terríveis...
Li um livro que os amigos de Manoel Lisboa (estudante de medicina da Ufal) escreveram. O Lisboa descrito (que eu não conheci) era ódio da cabeça aos pés. E avisava aos companheiros: "se eu for preso vou ser morto. Não delatarei".
 Estendi-me muito, amigo. Perguntei por vc., na  Pata. Ah, quanto a Bolsonaro, não há clima para intervenção militar. Ou ganha no voto ou bota o rabo entre as pernas e volta pra casa. O povo já o escolheu. Na linguagem chavão comunista, o povo é "reacionário". Quanto a Haddad, o mínimo que se pode dizer: um grande pulha! Abraços