terça-feira, 27 de novembro de 2018
domingo, 25 de novembro de 2018
SONHOS E DORES
RONALD MENDONÇA – médico e membro da AAL.
Não fora a liturgia do cerimonial, não obstante o inflamado discurso de Ricardo Nogueira, que, em nome da Academia, deu as boas-vindas ao empossado, Jucá Santos tem tanta e tamanha visibilidade no meio cultural da Província que dispensaria a formalidade da apresentação.
Condenado à prisão perpétua, era um comuna que respeitava os antagônicos; que costurou o fim do apartheid com um adversário ferrenho, branco e rancoroso, cinco anos antes de livrar-se das algemas. Feridas da alma (e na augusta fronte) certamente o grande líder as sepultou. Sua digna esposa, recalcitrante, ao chifrar o nosso herói, não tenham dúvidas, magoou o mundo. Sobretudo o masculino.
Não há sonhos sem dores.
sábado, 13 de outubro de 2018
LUTAS ARMADAS
LUTAS ARMADAS
RONALD MENDONÇA
Quando A Luta é armada faz
vítimas de ambos os lados. A desvantagem dos que tentaram trocar a ditadura
militar de 1964 por uma comunista era grande. Foi mais um equívoco de avaliação
do comunismo na gana pela instalação de uma ditadura. Prestes, em 1935, cometeria
o mesmo erro. Mas, a partir de 67-68, garotos da classe média identificaram-se
com o charme revolucionário de Che Guevara. Virou o sonho de consumo da meninada,
estranhamente fascinada por um repugnante
criminoso sanguinário, mas que divulgava frases de efeito. Um detalhe: o
comunismo na Europa já dava sinais de esgotamento. O mundo queria dançar e
cantar com liberdade e os países comunistas amputavam esse direito das pessoas.
O fato é que, aqui no Brasil, tudo concorria
para a Luta Armada não dar certo. Alguns garotos da minha adolescência
embarcaram nessa fria. Inicialmente, mera curiosidade, reuniões secretas, de
repente estavam de armas na mão fazendo sequestros, roubando bancos, invadindo
residências, planejando envenenar a caixa d´água do quartel... Dias atrás conversei
justamente com o Beltrão e o Verçosa. Eu
falei exatamente isso. Foi um mergulho fundo demais para quem queria tão
somente discordar, desafiar e nadar. Penso que muitos arrependeram-se. Até
porque o paraíso socialista não existe.
Antes dessa decisão ensandecida, houve
uma dissidência nas hostes comunistas. O
próprio Prestes desaconselhara a luta armada, mas havia um Marighella,
destemido, diria até irresponsável na sua coragem.... Do nada, despontaria um incendiário
Lamarca, capitão desertor, apaixonando-se por Iara Iavelberg, uma psicóloga
paulista...
Quando um cara pega em armas, vai
para a clandestinidade e participa de guerrilhas, de confrontos com forças
numérica e estrategicamente superiores já sabe o que o espera. Certamente não é
a glória. Brincar de comunista com um livro de Marx debaixo do braço, no Bar do
Chopp, é uma coisa , fazer parte de um bando armado comandado por um desertor
surtado é outra. Lamarca levaria a sonhadora burguesinha judia ao trucidamento.
A eclipse da guerriha do Araguaia ocorreria com a delação de Genoíno.
Desculpe, Prof. Marcelo Bastos.
Os que pegaram em armas sabiam de tudo isso. Havia, além do mais, uma população
que apoiava o regime militar. O julgamento sumário de um tenente, capturado
como refém do grupo de Lamarca, morto cruelmente
a coronhadas, deu o tom de violência de ambas as partes. Nesses embates não
havia orquídeas. Herzog e Fiel foram mortes terríveis...
Li um livro que os amigos de
Manoel Lisboa (estudante de medicina da Ufal) escreveram. O Lisboa descrito
(que eu não conheci) era ódio da cabeça aos pés. E avisava aos companheiros:
"se eu for preso vou ser morto. Não delatarei".
Estendi-me muito, amigo. Perguntei por vc.,
na Pata. Ah, quanto a Bolsonaro, não há
clima para intervenção militar. Ou ganha no voto ou bota o rabo entre as pernas
e volta pra casa. O povo já o escolheu. Na linguagem chavão comunista, o povo é
"reacionário". Quanto a Haddad, o mínimo que se pode dizer: um grande
pulha! Abraços
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
ASCENSÃO
E QUEDA DA CATEDRAL DA BELEZA
Ronald Mendonça
Quase
em frente à casa onde morei durante a infância, havia uma construção
mal-assombrada, resquícios do que fora um dia uma monumental barbearia. Os
antigos donos, filhos do barbeiro, seu Manoel, conhecido como Mané Barbeiro,
jogaram no lixo o que o pai, paciente e obstinadamente, construíra anos a fio.
O que se dizia era que seu Mané, depois de anos sem conseguir gerar filhos, e
até de adotar uma criança, desatara o nó-cego da infertilidade.Com efeito,
sua esposa engravidara pelo menos doze vezes. No barato, dez crianças chegaram
à idade adulta.
Numa época de famílias numerosas, o casal Mané
Barbeiro e D. Maria do Barbeiro, magrelosa e desgrenhada, era destaque
justamente pelos dez anos de abstinência, antes do desembesto reprodutivo.
Dizia-se que toda aquela fecundidade teria sido obra de milagre atribuído a
Santo Antonio. Mas o santo padroeiro foi além: transformaria a modestíssima
barbearia num dos salões de beleza mais requisitados da Província. Vivia-se, no
bairro de Bebedouro, aquela fase áurea em que a figura lendária do Major
Bonifácio Silveira resplandecia como uma das maiores lideranças, notadamente no
quesito "agitador cultural". Mané Barbeiro ficava todo cheio quando o
renomado festeiro marcava um corte. Chegava na hora aprazada, cumprimentava a
todos e ao seu Mané dedicava-lhe uma saudação especial: “Ó grande fígaro!”
Tudo
leva a crer que seu Mané era um bicho, não só nos sagrados deveres maritais,
como na capacidade de empresário da tesoura e da navalha. Liderança nata, apesar
dos poucos anos de estudo regular, conhecia um pouco de latim, mas o seu forte
era a prodigiosa memória para fatos históricos, sem falar na natural intuição
para cálculos. Sua fama era de leitor tão voraz quanto impetuoso reprodutor.
Contudo,
carregava inconfessável dor íntima: era convencido de que nascera para ser
cirurgião. Como não pode materializar o seu sonho, fez-se mestre imbatível da
arte da tricotomia. Próspero, salão apinhado de gente de todas as classes
sociais, não descuidou da educação dos filhos. Enquanto teve autoridade, todos
davam uma mãozinha na sua "catedral da beleza" como orgulhosamente
apelidara seu salão.
O tempo
passara rápido, Enviuvara. Os filhos crescidos, alguns vivendo às custas da
barbearia, eis que o destino o apanhou desprevenido, ao herdar da avó materna
tremores nas mãos que lhe subtraíram a inimitável destreza. No início dos
tremores, dava para dissimular, mas não suportou a intolerável humilhação de
furar a orelha de um cliente, enquanto dava o toque de gênio numa das
costeletas do Major Bonifácio Silveira.
Afastou-se do métier, não sem antes distribuir
funções aos filhos, Havia cabeleireiras e barbeiros contratados. Construíra,
enfim, uma respeitável empresa. Era uma referência no bairro. Dos dez filhos,
apenas quatro trabalhavam no salão. Uma quinta filha especializara-se em fazer
unhas. Trabalhava no centro da cidade, na barbearia do Pai João, no Livramento,
e aparecia na "catedral" apenas às segundas, quando quase ninguém
costumava frequentar salões de beleza. Preferira ser subalterna ao Pai João,
mas atrás desse "complexo de vira-lata" estava a certeza do ganho
garantido na empresa familiar, mesmo sem produzir. Uma outra ficara no caixa e
na parte administrativa. Incompetente, relapsa, faltosa, mal-educada,
pornográfica, tratava os clientes nos cascos.
Fora essa herdeira que pusera tudo por água
abaixo. Rapidamente, a antiga "catedral" foi diminuindo de tamanho,
chegou a "capela" e logo virou um "oratório". As
confortáveis cadeiras estofadas ficaram cheias de furos. Já não dobravam. As
preciosas tesouras inglesas foram sumindo, os jogos de navalhas chinesas
perderam o fio e foram substituídas pelas prosaicas lâminas de gilete. Os
alvíssimos lençois de linho escocês cheirando a lavanda, que recobriam os
fregueses, adquiriram um tom encardido, mal-lavados e mal-cheirosos. Ratos e
baratas desfilavam irreverentes entre os pés e pernas dos ralos clientes.
Pingueiras escorriam pelos espelhos enferrujados. O cheiro de mofo misturado
aos fétidos excrementos de morcegos era nauseabundo. Dívidas acumulavam-se.
Envelopes de cobranças de impostos já não eram sequer abertos. O malfadado
costume de não repassar regularmente o percentual devido aos profissionais, que
ainda tocavam o barco da "ex-catedral", viraria regra. O curioso era,
segundo narram as histórias, é que a maioria dos herdeiros a tudo assistiam e
nada faziam para tentar moralizar a empresa. Um antigo sociólogo, certa feita ,
formulou uma hipótese sobre as causas do desastre da barbearia. Segundo ele, o
fato de alguns dos filhos do Seu Mané terem botado anel de doutor no dedo fizeram-lhes
envergonhar-se da barbearia. Quer-se crer que se envergonhavam do pai barbeiro.
Por outro lado, esses próprios doutores pretendiam manter uma retirada mensal,
mesmo sem trabalharem, E o mais estranho, invejavam os irmãos que davam duro na
barbearia e ganhavam algum trocado, garantindo ainda uma parca clientela.
O
último e melancólico réquiem na profanada "Catedral da Beleza" foi o
velório do corpo do velho Mané Barbeiro, que não suportando conviver com a
falência, matara-se com Nitrosin.
Maceió, 2018
sexta-feira, 18 de maio de 2018
ANJO ALADO DAS BALIZAS
Anjo Alado
(De Ronald para o neto Caio)
Ah! meu querido Cainho
Que insana pressa em crescer
Apesar desse tamanhão que está a completar-se
Você nunca mudou.
Trocava as plumas a cada ano
Mas ficava igual
Bonito e generoso
O seu avô o reconheceria entre milhões.
Contrariando o meu desejo
A numeração do seu tênis o denunciava...
Assim como a das camisas
Sua coragem no retângulo enredado
O arrojo nas bolas rasteiras...
Nada o assustava
"Chute mais forte, vô, eu não sou mais criança...
O estilo elegante logo compôs o perfil alongado
Pernas compridas num corpo esbelto
Mãos avantajadas.
Os braços são como asas
Agora, distante do saudoso velho avô
Voa e encanta o Velho Mundo
Como um anjo alado das balizas.
(De Ronald para o neto Caio)
Ah! meu querido Cainho
Que insana pressa em crescer
Apesar desse tamanhão que está a completar-se
Você nunca mudou.
Trocava as plumas a cada ano
Mas ficava igual
Bonito e generoso
O seu avô o reconheceria entre milhões.
Contrariando o meu desejo
A numeração do seu tênis o denunciava...
Assim como a das camisas
Sua coragem no retângulo enredado
O arrojo nas bolas rasteiras...
Nada o assustava
"Chute mais forte, vô, eu não sou mais criança...
O estilo elegante logo compôs o perfil alongado
Pernas compridas num corpo esbelto
Mãos avantajadas.
Os braços são como asas
Agora, distante do saudoso velho avô
Voa e encanta o Velho Mundo
Como um anjo alado das balizas.
ASCENSÃO E QUEDA DA CATEDRAL DA BELEZA
Quase em frente à casa onde morei durante a infância, havia uma construção "mal-assombrada", resquícios do que fora um dia uma monumental barbearia. Altas horas, noctívagos e outros seres noturnos relatavam costumar ouvir estranhos ruídos, talvez soluços, gemidos e até, quem sabe, sorumbáticas gargalhadas. Os antigos donos, filhos do barbeiro, seu Manoel, conhecido como Mané Barbeiro, jogaram no lixo o que o pai, paciente e obstinadamente, construíra anos a fio. O que se dizia era que seu Mané, depois de anos sem conseguir gerar filhos, e depois de adotar uma criança, desatara o nó-cego da infertilidade.Com efeito, sua esposa engravidara pelo menos doze vezes. No barato, dez crianças chegaram à idade adulta. Numa época de famílias numerosas, o casal Mané Barbeiro e D. Maria do Barbeiro, magrelosa e desgrenhada, era destaque justamente pelos dez anos de abstinência, antes do desembesto reprodutivo. Dizia-se que toda aquela fecundidade teria sido obra de milagre atribuído a Santo Antonio. Mas o santo padroeiro foi além: transformaria a modestíssima barbearia num dos salões de beleza mais requisitados da Província. Vivia-se, no bairro de Bebedouro, aquela fase áurea em que a figura lendária do Major Bonifácio Silveira resplandecia como uma das maiores lideranças, notadamente no quesito "agitador cultural". Tudo leva a crer que seu Mané era um bicho, não só nos sagrados deveres maritais, como na capacidade de empresário da tesoura e da navalha. Liderança nata, apesar dos poucos anos de estudo regular, conhecia um pouco de latim, mas o seu forte era a prodigiosa memória para fatos históricos, sem falar na natural intuição para cálculos. Sua fama era de leitor tão voraz quanto impetuoso reprodutor. Contudo, carregava inconfessável dor íntima: era convencido de que nascera para ser cirurgião. Como não pode materializar o seu sonho, fez-se mestre imbatível da arte da tricoplastia. Próspero, salão apinhado de gente de todas as classes sociais, não descuidou da educação dos filhos. Enquanto teve autoridade, todos davam uma mãozinha na sua "catedral da beleza" como orgulhosamente apelidara seu salão. O tempo passara rápido, as crianças cresceram com um ritmo que desagradou ao fígaro bebedourense.Queria-os sempre crianças... Enviuvara. Os filhos crescidos, alguns vivendo às custas da barbearia, eis que o destino o apanhou desprevenido, ao herdar da avó materna tremores nas mãos que lhe subtraíram a inimitável destreza. No início dos tremores, dava para dissimular, mas não suportou a intolerável humilhação de furar a orelha de um cliente, enquanto dava o toque de gênio numa das costeletas. Afastou-se do métier, não sem antes distribuir funções aos filhos, Havia cabeleireiras e barbeiros contratados. Construíra, enfim, uma respeitável empresa. Era uma referência no bairro. Dos dez filhos, apenas quatro trabalhavam no salão. Uma quinta filha especializara-se em fazer unhas. Trabalhava no centro da cidade, na barbearia do Pai João, no Livramento, ouvindo lorotas de senis. Aparecia na "catedral" apenas às segundas, quando quase ninguém costumava frequentar salões de beleza. Preferira ser subalterna ao Pai João, mas atrás desse "complexo de vira-lata" estava a certeza do ganho garantido na empresa familiar, mesmo sem produzir. Uma outra ficara no caixa e na parte administrativa. Incompetente, relapsa, faltosa, mal-educada, pornográfica e alcoólatra tratava os clientes nos cascos. Fora a incúria dessa herdeira que pusera tudo por água abaixo. Rapidamente, a antiga "catedral" foi diminuindo de tamanho, chegou a "capela" e logo virou um "oratório". As confortáveis cadeiras estofadas ficaram cheias de furos. Já não dobravam. As preciosas tesouras inglesas foram sumindo, os jogos de navalhas chinesas perderam o fio e foram substituídas pelas prosaicas lâminas de gilete. Os alvíssimos lençois de linho escocês cheirando a lavanda, que recobriam os fregueses, adquiriram um tom encardido, mal-lavados e mal-cheirosos. Ratos e baratas desfilavam irreverentes entre os pés e pernas dos ralos clientes. Pingueiras escorriam pelos espelhos enferrujados. O cheiro de mofo misturado aos fétidos excrementos de morcegos era nauseabundo. Dívidas acumulavam-se. Envelopes de cobranças de impostos já não eram sequer abertos. O malfadado costume de não repassar regularmente o percentual devido aos profissionais, que ainda tocavam o barco da "ex-catedral", viraria regra. O curioso era, segundo narram as histórias, é que a maioria dos herdeiros a tudo assistiam e nada faziam para tentar moralizar a empresa. Um antigo sociólogo, certa feita , formulou uma hipótese sobre as causas do desastre da barbearia. Segundo ele, o fato de alguns dos filhos do Seu Mané terem botado anel de doutor no dedo fizeram-lhes envergonhar-se da barbearia. Quer-se crer que se envergonhavam do pai barbeiro. Por outro lado, esses próprios doutores pretendiam manter uma retirada mensal, mesmo sem trabalharem, E o mais estranho, invejavam os irmãos que davam duro na barbearia e ganhavam algum trocado, garantindo ainda uma parca clientela. O último e melancólico réquiem na profanada "Catedral da Beleza" foi o velório do corpo do velho Mané Barbeiro, que não suportando conviver com a falência, matara-se com Nitrosin.
Quase em frente à casa onde morei durante a infância, havia uma construção "mal-assombrada", resquícios do que fora um dia uma monumental barbearia. Altas horas, noctívagos e outros seres noturnos relatavam costumar ouvir estranhos ruídos, talvez soluços, gemidos e até, quem sabe, sorumbáticas gargalhadas. Os antigos donos, filhos do barbeiro, seu Manoel, conhecido como Mané Barbeiro, jogaram no lixo o que o pai, paciente e obstinadamente, construíra anos a fio. O que se dizia era que seu Mané, depois de anos sem conseguir gerar filhos, e depois de adotar uma criança, desatara o nó-cego da infertilidade.Com efeito, sua esposa engravidara pelo menos doze vezes. No barato, dez crianças chegaram à idade adulta. Numa época de famílias numerosas, o casal Mané Barbeiro e D. Maria do Barbeiro, magrelosa e desgrenhada, era destaque justamente pelos dez anos de abstinência, antes do desembesto reprodutivo. Dizia-se que toda aquela fecundidade teria sido obra de milagre atribuído a Santo Antonio. Mas o santo padroeiro foi além: transformaria a modestíssima barbearia num dos salões de beleza mais requisitados da Província. Vivia-se, no bairro de Bebedouro, aquela fase áurea em que a figura lendária do Major Bonifácio Silveira resplandecia como uma das maiores lideranças, notadamente no quesito "agitador cultural". Tudo leva a crer que seu Mané era um bicho, não só nos sagrados deveres maritais, como na capacidade de empresário da tesoura e da navalha. Liderança nata, apesar dos poucos anos de estudo regular, conhecia um pouco de latim, mas o seu forte era a prodigiosa memória para fatos históricos, sem falar na natural intuição para cálculos. Sua fama era de leitor tão voraz quanto impetuoso reprodutor. Contudo, carregava inconfessável dor íntima: era convencido de que nascera para ser cirurgião. Como não pode materializar o seu sonho, fez-se mestre imbatível da arte da tricoplastia. Próspero, salão apinhado de gente de todas as classes sociais, não descuidou da educação dos filhos. Enquanto teve autoridade, todos davam uma mãozinha na sua "catedral da beleza" como orgulhosamente apelidara seu salão. O tempo passara rápido, as crianças cresceram com um ritmo que desagradou ao fígaro bebedourense.Queria-os sempre crianças... Enviuvara. Os filhos crescidos, alguns vivendo às custas da barbearia, eis que o destino o apanhou desprevenido, ao herdar da avó materna tremores nas mãos que lhe subtraíram a inimitável destreza. No início dos tremores, dava para dissimular, mas não suportou a intolerável humilhação de furar a orelha de um cliente, enquanto dava o toque de gênio numa das costeletas. Afastou-se do métier, não sem antes distribuir funções aos filhos, Havia cabeleireiras e barbeiros contratados. Construíra, enfim, uma respeitável empresa. Era uma referência no bairro. Dos dez filhos, apenas quatro trabalhavam no salão. Uma quinta filha especializara-se em fazer unhas. Trabalhava no centro da cidade, na barbearia do Pai João, no Livramento, ouvindo lorotas de senis. Aparecia na "catedral" apenas às segundas, quando quase ninguém costumava frequentar salões de beleza. Preferira ser subalterna ao Pai João, mas atrás desse "complexo de vira-lata" estava a certeza do ganho garantido na empresa familiar, mesmo sem produzir. Uma outra ficara no caixa e na parte administrativa. Incompetente, relapsa, faltosa, mal-educada, pornográfica e alcoólatra tratava os clientes nos cascos. Fora a incúria dessa herdeira que pusera tudo por água abaixo. Rapidamente, a antiga "catedral" foi diminuindo de tamanho, chegou a "capela" e logo virou um "oratório". As confortáveis cadeiras estofadas ficaram cheias de furos. Já não dobravam. As preciosas tesouras inglesas foram sumindo, os jogos de navalhas chinesas perderam o fio e foram substituídas pelas prosaicas lâminas de gilete. Os alvíssimos lençois de linho escocês cheirando a lavanda, que recobriam os fregueses, adquiriram um tom encardido, mal-lavados e mal-cheirosos. Ratos e baratas desfilavam irreverentes entre os pés e pernas dos ralos clientes. Pingueiras escorriam pelos espelhos enferrujados. O cheiro de mofo misturado aos fétidos excrementos de morcegos era nauseabundo. Dívidas acumulavam-se. Envelopes de cobranças de impostos já não eram sequer abertos. O malfadado costume de não repassar regularmente o percentual devido aos profissionais, que ainda tocavam o barco da "ex-catedral", viraria regra. O curioso era, segundo narram as histórias, é que a maioria dos herdeiros a tudo assistiam e nada faziam para tentar moralizar a empresa. Um antigo sociólogo, certa feita , formulou uma hipótese sobre as causas do desastre da barbearia. Segundo ele, o fato de alguns dos filhos do Seu Mané terem botado anel de doutor no dedo fizeram-lhes envergonhar-se da barbearia. Quer-se crer que se envergonhavam do pai barbeiro. Por outro lado, esses próprios doutores pretendiam manter uma retirada mensal, mesmo sem trabalharem, E o mais estranho, invejavam os irmãos que davam duro na barbearia e ganhavam algum trocado, garantindo ainda uma parca clientela. O último e melancólico réquiem na profanada "Catedral da Beleza" foi o velório do corpo do velho Mané Barbeiro, que não suportando conviver com a falência, matara-se com Nitrosin.
Assinar:
Postagens (Atom)

