terça-feira, 27 de novembro de 2018

neurocirurgia

domingo, 25 de novembro de 2018




SONHOS E DORES
 RONALD MENDONÇA – médico e membro da AAL.
                                                                      

SONHOS E DORES

A eleição (e a posse) do poeta Jucá Santos para uma cadeira na Academia Alagoana de Letras resgata uma dívida moral. Com efeito, o eterno presidente da Academia Maceioense de Letras era uma ausência doída na vetusta AAL, uma lacuna que precisava ser preenchida urgentemente. Repito o que alguém disse aos pares, em informal cabala de adesões: “Os velhos têm pressa”. De fato, chega-se a determinados estágios em que praticamente nada pode ser adiado para o dia seguinte. Aos oitenta anos, não há pospores...

Não fora a liturgia do cerimonial, não obstante o inflamado discurso de Ricardo Nogueira, que, em nome da Academia, deu as boas-vindas ao empossado, Jucá Santos tem tanta e tamanha visibilidade no meio cultural da Província que dispensaria a formalidade da apresentação.

Dispenso-me gastar o meu enferrujado latim para dizer que Jucá tem uma respeitável obra literária. “Produto” resultante da mistura de um poeta com uma pianista, trazendo no genoma a imorredoura marca do consagrado avô Cipriano. Está assim explicada a força criativa dessa conspícua figura que há tantos anos passeia entre as musas e as encanta  e seduz.

Quis o destino que no exato dia em que Jucá Santos concretizava o sonho de adentrar-se triunfalmente no oratório literário da Praça Deodoro, uma outra figura despedia-se da vida deixando um legado de coragem e determinação. Falo de Nelson Mandela. 

Em rápidas pinceladas foi traçado o perfil do grande líder, um exemplo para os que se arvoram de líderes e não passam de incorrigíveis picaretas. Presidente do seu país com quase 80 anos de idade, após vinte e sete anos confinado num cubículo de cinco metros quadrados, apesar de comunista, Mandela recusou-se sentar na cadeira presidencial eternamente. O recado foi claro: há prisões em que o sujeito sai maior. A segunda mensagem  é que, mesmo comunista, o cara pode não sonhar com partido único, jornal único e pensamento único. Lições que poderiam inspirar Genoino, Zé Dirceu e companheirada.

Condenado à prisão perpétua, era um comuna que respeitava os antagônicos; que costurou o fim do apartheid com um adversário ferrenho, branco e rancoroso, cinco anos antes de livrar-se das algemas. Feridas da alma (e na augusta fronte) certamente o grande líder as sepultou. Sua digna esposa, recalcitrante, ao chifrar o nosso herói, não tenham dúvidas, magoou o mundo. Sobretudo o masculino.

Não há sonhos sem dores.

sábado, 13 de outubro de 2018

LUTAS ARMADAS


LUTAS ARMADAS
RONALD MENDONÇA
Quando A Luta é armada faz vítimas de ambos os lados. A desvantagem dos que tentaram trocar a ditadura militar de 1964 por uma comunista era grande. Foi mais um equívoco de avaliação do comunismo na gana pela instalação de uma ditadura. Prestes, em 1935, cometeria o mesmo erro. Mas, a partir de 67-68, garotos da classe média identificaram-se com o charme revolucionário de Che Guevara. Virou o sonho de consumo da meninada, estranhamente  fascinada por um repugnante criminoso sanguinário, mas que divulgava frases de efeito. Um detalhe: o comunismo na Europa já dava sinais de esgotamento. O mundo queria dançar e cantar com liberdade e os países comunistas amputavam esse direito das pessoas.
 O fato é que, aqui no Brasil, tudo concorria para a Luta Armada não dar certo. Alguns garotos da minha adolescência embarcaram nessa fria. Inicialmente, mera curiosidade, reuniões secretas, de repente estavam de armas na mão fazendo sequestros, roubando bancos, invadindo residências, planejando envenenar a caixa d´água do quartel... Dias atrás conversei justamente  com o Beltrão e o Verçosa. Eu falei exatamente isso. Foi um mergulho fundo demais para quem queria tão somente discordar, desafiar e nadar. Penso que muitos arrependeram-se. Até porque o paraíso socialista não existe.
Antes dessa decisão ensandecida, houve uma dissidência nas hostes  comunistas. O próprio Prestes desaconselhara a luta armada, mas havia um Marighella, destemido, diria até irresponsável na sua coragem.... Do nada, despontaria um incendiário Lamarca, capitão desertor, apaixonando-se por Iara Iavelberg, uma psicóloga paulista...
Quando um cara pega em armas, vai para a clandestinidade e participa de guerrilhas, de confrontos com forças numérica e estrategicamente superiores já sabe o que o espera. Certamente não é a glória. Brincar de comunista com um livro de Marx debaixo do braço, no Bar do Chopp, é uma coisa , fazer parte de um bando armado comandado por um desertor surtado é outra. Lamarca levaria a sonhadora burguesinha judia ao trucidamento. A eclipse da guerriha do Araguaia ocorreria com a delação de Genoíno.
Desculpe, Prof. Marcelo Bastos. Os que pegaram em armas sabiam de tudo isso. Havia, além do mais, uma população que apoiava o regime militar. O julgamento sumário de um tenente, capturado como refém  do grupo de Lamarca, morto cruelmente a coronhadas, deu o tom de violência de ambas as partes. Nesses embates não havia orquídeas. Herzog e Fiel foram mortes terríveis...
Li um livro que os amigos de Manoel Lisboa (estudante de medicina da Ufal) escreveram. O Lisboa descrito (que eu não conheci) era ódio da cabeça aos pés. E avisava aos companheiros: "se eu for preso vou ser morto. Não delatarei".
 Estendi-me muito, amigo. Perguntei por vc., na  Pata. Ah, quanto a Bolsonaro, não há clima para intervenção militar. Ou ganha no voto ou bota o rabo entre as pernas e volta pra casa. O povo já o escolheu. Na linguagem chavão comunista, o povo é "reacionário". Quanto a Haddad, o mínimo que se pode dizer: um grande pulha! Abraços

quinta-feira, 11 de outubro de 2018


ASCENSÃO E QUEDA DA CATEDRAL DA BELEZA
Ronald Mendonça

Quase em frente à casa onde morei durante a infância, havia uma construção mal-assombrada, resquícios do que fora um dia uma monumental barbearia. Os antigos donos, filhos do barbeiro, seu Manoel, conhecido como Mané Barbeiro, jogaram no lixo o que o pai, paciente e obstinadamente, construíra anos a fio. O que se dizia era que seu Mané, depois de anos sem conseguir gerar filhos, e até de adotar uma criança, desatara o nó-cego da infertilidade.Com efeito, sua esposa engravidara pelo menos doze vezes. No barato, dez crianças chegaram à idade adulta.
 Numa época de famílias numerosas, o casal Mané Barbeiro e D. Maria do Barbeiro, magrelosa e desgrenhada, era destaque justamente pelos dez anos de abstinência, antes do desembesto reprodutivo. Dizia-se que toda aquela fecundidade teria sido obra de milagre atribuído a Santo Antonio. Mas o santo padroeiro foi além: transformaria a modestíssima barbearia num dos salões de beleza mais requisitados da Província. Vivia-se, no bairro de Bebedouro, aquela fase áurea em que a figura lendária do Major Bonifácio Silveira resplandecia como uma das maiores lideranças, notadamente no quesito "agitador cultural". Mané Barbeiro ficava todo cheio quando o renomado festeiro marcava um corte. Chegava na hora aprazada, cumprimentava a todos e ao seu Mané dedicava-lhe uma saudação especial: “Ó grande fígaro!”
Tudo leva a crer que seu Mané era um bicho, não só nos sagrados deveres maritais, como na capacidade de empresário da tesoura e da navalha. Liderança nata, apesar dos poucos anos de estudo regular, conhecia um pouco de latim, mas o seu forte era a prodigiosa memória para fatos históricos, sem falar na natural intuição para cálculos. Sua fama era de leitor tão voraz quanto impetuoso reprodutor.
Contudo, carregava inconfessável dor íntima: era convencido de que nascera para ser cirurgião. Como não pode materializar o seu sonho, fez-se mestre imbatível da arte da tricotomia. Próspero, salão apinhado de gente de todas as classes sociais, não descuidou da educação dos filhos. Enquanto teve autoridade, todos davam uma mãozinha na sua "catedral da beleza" como orgulhosamente apelidara seu salão.
O tempo passara rápido, Enviuvara. Os filhos crescidos, alguns vivendo às custas da barbearia, eis que o destino o apanhou desprevenido, ao herdar da avó materna tremores nas mãos que lhe subtraíram a inimitável destreza. No início dos tremores, dava para dissimular, mas não suportou a intolerável humilhação de furar a orelha de um cliente, enquanto dava o toque de gênio numa das costeletas do Major Bonifácio Silveira.
 Afastou-se do métier, não sem antes distribuir funções aos filhos, Havia cabeleireiras e barbeiros contratados. Construíra, enfim, uma respeitável empresa. Era uma referência no bairro. Dos dez filhos, apenas quatro trabalhavam no salão. Uma quinta filha especializara-se em fazer unhas. Trabalhava no centro da cidade, na barbearia do Pai João, no Livramento, e aparecia na "catedral" apenas às segundas, quando quase ninguém costumava frequentar salões de beleza. Preferira ser subalterna ao Pai João, mas atrás desse "complexo de vira-lata" estava a certeza do ganho garantido na empresa familiar, mesmo sem produzir. Uma outra ficara no caixa e na parte administrativa. Incompetente, relapsa, faltosa, mal-educada, pornográfica, tratava os clientes nos cascos.
 Fora essa herdeira que pusera tudo por água abaixo. Rapidamente, a antiga "catedral" foi diminuindo de tamanho, chegou a "capela" e logo virou um "oratório". As confortáveis cadeiras estofadas ficaram cheias de furos. Já não dobravam. As preciosas tesouras inglesas foram sumindo, os jogos de navalhas chinesas perderam o fio e foram substituídas pelas prosaicas lâminas de gilete. Os alvíssimos lençois de linho escocês cheirando a lavanda, que recobriam os fregueses, adquiriram um tom encardido, mal-lavados e mal-cheirosos. Ratos e baratas desfilavam irreverentes entre os pés e pernas dos ralos clientes. Pingueiras escorriam pelos espelhos enferrujados. O cheiro de mofo misturado aos fétidos excrementos de morcegos era nauseabundo. Dívidas acumulavam-se. Envelopes de cobranças de impostos já não eram sequer abertos. O malfadado costume de não repassar regularmente o percentual devido aos profissionais, que ainda tocavam o barco da "ex-catedral", viraria regra. O curioso era, segundo narram as histórias, é que a maioria dos herdeiros a tudo assistiam e nada faziam para tentar moralizar a empresa. Um antigo sociólogo, certa feita , formulou uma hipótese sobre as causas do desastre da barbearia. Segundo ele, o fato de alguns dos filhos do Seu Mané terem botado anel de doutor no dedo fizeram-lhes envergonhar-se da barbearia. Quer-se crer que se envergonhavam do pai barbeiro. Por outro lado, esses próprios doutores pretendiam manter uma retirada mensal, mesmo sem trabalharem, E o mais estranho, invejavam os irmãos que davam duro na barbearia e ganhavam algum trocado, garantindo ainda uma parca clientela.
O último e melancólico réquiem na profanada "Catedral da Beleza" foi o velório do corpo do velho Mané Barbeiro, que não suportando conviver com a falência, matara-se com Nitrosin.

Maceió, 2018



sexta-feira, 18 de maio de 2018

ANJO ALADO DAS BALIZAS

Anjo Alado
(De Ronald para o neto Caio)

Ah! meu querido Cainho
Que insana pressa em crescer
Apesar desse tamanhão que está a completar-se
Você nunca mudou.
Trocava as plumas a cada ano
Mas ficava igual
Bonito e generoso
O seu avô o reconheceria entre milhões.
Contrariando o meu desejo
A numeração do seu tênis o denunciava...
Assim como a das camisas
Sua coragem no retângulo enredado
O arrojo nas bolas rasteiras...
Nada o assustava
"Chute mais forte, vô, eu não sou mais criança...
O estilo elegante logo compôs o perfil alongado
Pernas compridas num corpo esbelto
Mãos avantajadas.
Os braços são como asas
Agora, distante do saudoso velho avô
Voa e encanta o Velho Mundo
Como um anjo alado das balizas.
ASCENSÃO E QUEDA DA CATEDRAL DA BELEZA
Quase em frente à casa onde morei durante a infância, havia uma construção "mal-assombrada", resquícios do que fora um dia uma monumental  barbearia. Altas horas, noctívagos e outros seres noturnos relatavam costumar ouvir estranhos ruídos, talvez soluços, gemidos e até, quem sabe, sorumbáticas gargalhadas. Os antigos donos, filhos do barbeiro, seu Manoel, conhecido como Mané Barbeiro, jogaram no lixo o que o pai, paciente e obstinadamente, construíra anos a fio. O que se dizia era que seu Mané, depois de anos sem conseguir gerar filhos, e depois de adotar uma criança, desatara o nó-cego da infertilidade.Com efeito, sua esposa engravidara pelo menos doze vezes. No barato, dez crianças chegaram à idade adulta. Numa época de famílias numerosas, o casal Mané Barbeiro e  D. Maria do Barbeiro, magrelosa e desgrenhada, era destaque justamente pelos dez anos de abstinência, antes do desembesto reprodutivo. Dizia-se que toda aquela fecundidade teria sido obra de milagre atribuído a Santo Antonio. Mas o santo padroeiro foi além: transformaria a modestíssima barbearia num dos salões de beleza mais requisitados da Província. Vivia-se, no bairro de Bebedouro, aquela fase áurea em que a figura lendária do Major Bonifácio Silveira resplandecia como uma das maiores lideranças, notadamente no quesito "agitador cultural". Tudo leva a crer que seu Mané era um bicho, não só nos sagrados deveres maritais, como na capacidade de empresário da tesoura e da navalha. Liderança nata, apesar dos poucos anos de estudo regular, conhecia um pouco de latim, mas o seu forte era a prodigiosa memória para fatos históricos, sem falar na natural intuição para cálculos. Sua fama era de leitor tão voraz quanto impetuoso reprodutor. Contudo, carregava inconfessável dor íntima: era convencido de que nascera para ser cirurgião. Como não pode materializar o seu sonho, fez-se mestre imbatível da arte da tricoplastia. Próspero, salão apinhado de gente de todas as classes sociais, não descuidou da educação dos filhos. Enquanto teve autoridade, todos davam uma mãozinha na sua "catedral da beleza" como orgulhosamente apelidara seu salão. O tempo passara rápido, as crianças cresceram com um ritmo que desagradou ao fígaro bebedourense.Queria-os sempre crianças... Enviuvara. Os filhos crescidos, alguns vivendo às custas da barbearia, eis que o destino o apanhou desprevenido, ao herdar da avó materna tremores nas mãos que lhe subtraíram a inimitável destreza. No início dos tremores, dava para dissimular, mas não suportou a intolerável humilhação de furar a orelha de um cliente, enquanto dava o toque de gênio numa das costeletas. Afastou-se do métier, não sem antes distribuir funções aos filhos, Havia cabeleireiras e barbeiros contratados. Construíra, enfim, uma respeitável empresa. Era uma referência no bairro. Dos dez filhos, apenas quatro trabalhavam no salão. Uma quinta filha especializara-se em fazer unhas.  Trabalhava no centro da cidade, na barbearia do Pai João, no Livramento, ouvindo lorotas de senis. Aparecia na "catedral" apenas às segundas, quando quase ninguém costumava frequentar salões de beleza. Preferira ser subalterna ao Pai João,  mas atrás desse "complexo de vira-lata" estava a certeza do ganho garantido na empresa familiar, mesmo sem produzir. Uma outra ficara no caixa e na parte administrativa. Incompetente, relapsa, faltosa, mal-educada, pornográfica e alcoólatra tratava os clientes nos cascos. Fora a incúria dessa herdeira que pusera tudo por água abaixo. Rapidamente, a antiga "catedral" foi diminuindo de tamanho, chegou a "capela" e logo virou um "oratório". As confortáveis cadeiras estofadas ficaram cheias de furos. Já não dobravam. As preciosas tesouras inglesas foram sumindo, os jogos de navalhas chinesas perderam o fio e foram substituídas pelas prosaicas lâminas de gilete. Os  alvíssimos lençois de linho escocês cheirando a lavanda, que recobriam os fregueses, adquiriram um tom encardido, mal-lavados e mal-cheirosos. Ratos e baratas desfilavam irreverentes entre os pés e pernas dos ralos clientes. Pingueiras escorriam pelos espelhos enferrujados. O cheiro de mofo  misturado aos fétidos excrementos de morcegos era nauseabundo. Dívidas acumulavam-se. Envelopes de cobranças de impostos já não eram sequer abertos. O malfadado costume de não repassar regularmente o percentual devido aos profissionais, que ainda tocavam o barco da "ex-catedral", viraria regra. O curioso era, segundo narram as histórias, é que a maioria dos herdeiros a tudo assistiam e nada faziam para tentar moralizar a empresa. Um antigo sociólogo, certa feita , formulou uma hipótese sobre as causas do desastre da barbearia. Segundo ele, o fato de alguns dos filhos do Seu Mané terem botado anel de doutor no dedo fizeram-lhes  envergonhar-se da barbearia. Quer-se crer que se envergonhavam do pai barbeiro. Por outro lado, esses próprios doutores pretendiam manter uma retirada mensal, mesmo sem trabalharem, E o mais estranho,  invejavam os irmãos que davam duro na barbearia e ganhavam algum trocado, garantindo ainda uma parca clientela. O último e melancólico réquiem na profanada "Catedral da Beleza" foi o velório do corpo do velho Mané Barbeiro, que não suportando conviver com a falência, matara-se com Nitrosin.