sábado, 31 de dezembro de 2011

CORRIDA DE JEGUES
RONALD MENDONÇA
MÉDICO E MEMBRO DA AAL

Nos últimos anos da década de 70 do passado século, Bebedouro reviveria uma das suas tradições: a corrida de jegues. Tendo como organizador um entusiasta dos folguedos populares – o bebedourense Mauro Guedes Farias (ex-pastor dos pastoris do Padre Fernando Iório), o evento despertaria a curiosidade de parte da imprensa.
Na realidade, a idéia não era original. O lendário Bonifácio Silveira, festeiro incorrigível, já no início do século 20 introduzira esse certame, como integrante dos festejos natalinos. A grande virtude de Guedes foi a de retirá-la do fundo do baú, conseguindo, durante algum tempo, revigorar essa singular recreação.
Coetâneo, amigo de infância, depois meu aluno na Escola de Ciências Médicas, não sei se exclusivamente às custas dos jegues, o fato é que Mauro elegeu-se vereador por duas ou três vezes. Período de certa prodigalidade para o bairro, que ainda contava com João Freitas Neto, outro amigo de infância, e Braga Neto. Não posso deixar de registrar: mesmo com essa bancada “da pesada”, nosso querido berço não conseguiu sair do atraso em que ainda hoje se encontra mergulhado.
Nascido para as durezas do trabalho, animal desprovido do physique du rôle para atingir grande velocidade, atarracado –quando comparado ao porte dos eqüinos, pernas curtas, a fama de aliado do homem compete com proverbial atributo anatômico. É claro que, não obstante a capacidade laborativa, é covardia alinhar o jegue para uma corrida com o cavalo. A não ser com os mancos, os capengas.
Mas esse papo de jegues campeões tem um motivo. Essa semana, noticiou-se o salto sensacional que o Brasil deu sobre ninguém menos que a Inglaterra. Coisa extraordinária! Nessa corrida, é o sexto colocado! Graças a esses oito anos de governo, nosso PIB finalmente superou um país que um dia dele fomos reféns econômicos. Já deixamos no chinelo a Itália e a Espanha; Portugal nem se fala... Em breve daremos uma goleada na França. É mero detalhe o fato dessa gente estar vivendo um período complicado. São os cavalos mancos levando poeira do jegue.
Mas, se o bom Deus quiser, o nosso socialismo petista/comunista/peemedebista vai dar na cara dos insuportáveis americanos, abomináveis capitalistas, que desaprenderam a construir uma nação. IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é papo burguês.
Sim. Porque uma grande nação é feita de grandes líderes: Lula, Dilma, Orlando, Lupi Dirceu, Erenice, dentre outros de igual tutano. E de jegues.

domingo, 18 de dezembro de 2011

MOMENTOS DE MUITA EMOÇÃO (JOSÉ MEDEIROS)

Momentos de muita emoção
» JOSÉ MEDEIROS - médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.Dirigi algumas palavras ao cronista e escritor Ronald Mendonça, por ocasião de sua posse na Academia Alagoana de Letras. Assim falei: este momento simbólico e emocional lembra um fato passado, ocorrido no ano de 2000. O dr. Milton Hênio, incumbiu-me de reorganizar a Sobrames (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Regional Alagoas), entidade que esteve desativada durante alguns anos. Coordenei reuniões preparatórias, pois, naquele momento, estavam reunidos fundadores, oriundos do início de suas atividades, em 1977. E ao lado desses, uma nova geração de médicos, que amam as letras, as artes e a literatura. Convidei o dr. Ronald Mendonça, um dos ícones contemporâneos no trato de textos literários, para participar da Sobrames. Relutou em aceitar o convite. Os colegas me pediram para insistir, e assim o fiz. Na última reunião antes da posse, para surpresa geral, adentra na sala, onde estávamos reunidos, o dr. Ronald, ainda de jaleco do consultório. Sem prévia combinação os companheiros aplaudiram o recém-chegado de pé. Ronald tornou-se cronista festejado. Gosto da expressão: “A crônica é antes de tudo, literatura, que analisa e reflete fatos do cotidiano, como gotas de chuva num dia quente. Reflexão e crítica que fazem pensar”. Perguntaram a Rubem Braga, um dos mais famosos cronistas brasileiros, o que era a crônica. Ele riu e respondeu: Olha, se não é aguda, é crônica.Suas crônicas Ronald agradam pela abordagem dos temas, originalidade de criação literária e ajustamento dos escritos ao chão diário das pessoas que diariamente o pisam. No relevo do que escreve busca uma fácil comunicação com o público sem deixar de lado a preocupação com as águas profundas das realidades humanas. Um mestre de literatura repetia que “a palavra escrita é o corpo e a palavra falada é a alma”; ambas absolutamente necessárias à comunicação e à vida. Reflito o poema: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã. / No entanto lutamos/ Mal rompe a manhã”. A Academia Alagoana de Letras, cenáculo iluminado, onde se abrigam a inteligência e a criatividade dos alagoanos, o espírito e a sensibilidade refletida de nossa gente, recebeu naquela noite memorável, o escritor Ronald Cabral de Mendonça.

SUPERANDO OS LIMITES

Vítimas do próprio desenvolvimento, cilada que a ontogênese e sobretudo a filogênese nos armou, não temos o olfato felino que permite identificar alimentos e fêmeas no cio a quilômetros. Não voamos por moto próprio. Ao perdermos as brânquias, tornamo-nos incapazes de respirar submersos. Nossas visão e audição, Deus do céu!, são um nada se comparadas às dos grandes caçadores que dão conta de suas presas a incríveis distâncias.
Nem tudo está perdido. A inteligência humana superou vários obstáculos. No sonho, flutuamos. Nossa inviabilidade aquática foi contornada com as máscaras, os torpedos e os submarinos. A magnificação através de potentes lentes, permitiu-nos distinguir partículas de dimensões impensáveis e enxergar a milhares de quilômetros de distância. Até mesmo o que já não existe é reconhecido nas profundezas do firmamento. Hoje, “partículas de Deus”, em algum lugar do horizonte, surgem como uma real possibilidade de identificação.
Voamos ao infinito. Nunca as asas de Dédalo e Ícaro nos pareceram tão mitológicas. Mais que isso. Pacientemente ou sofregamente, mistérios e leis da natureza foram se desnudando. Criamos estações espaciais. Em tempos de crise do decadente capitalismo, passeios promocionais às fímbrias das galáxias estão disponibilizadas pela merreca de cem mil dólares.
Trocamos os grunhidos pela linguagem oral. A escrita evoluiu das garatujas rupestres à manual e eletrônica. Nas primitivas fantasias, ao “primeiro medo, Deus se fez”. Imaginamos um Paraíso Terrestre e uma Torre de Babel. Fomos reconstruindo nossa identidade, parte dela fruto de nossas elucubrações. Estabelecemos códigos e regras.
Expandimo-nos espiritualmente nas poesias e prosas, inventando instrumentos musicais, cantando, compondo, primeiro reproduzindo os sons naturais, depois, a natureza passaria a nos imitar. Dançamos de olho nos trigais batidos pelo vento, inspirados nas coreografias das aves e peixes, sob impacto de suaves ou estridentes sons emanados de canoras aves. As telas e as esculturas são testemunhas da nossa obsessão pela forma perfeita.
Exemplo de contribuições à humanidade (desde os bons temos do Mensalão), o governo brasileiro supera-se e dá mais um show de criatividade. Alvo da arrogante mídia hegemônica, o ministro Fernando Pimentel, de codinome Oscar, reserva moral do partido, busca no Além explicar um milhão de reais recebidos por conta de imperdíveis conferências espíritas, pagas pelo patronato de Minas.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Mais uma página sangrenta macula nossa história: o assassinato, há uma semana, do médico e professor da Ufal Luiz Ferreira. Figura muito estimada, quer me parecer oportuno que os órgãos aos quais Ferreira era ligado (CRM, Sindicato dos Médicos, Ufal) bem que poderiam sair do habitual monocordismo retórico para cobrar uma resposta mais rápida das autoridades.
Não há perplexidades. Os crimes passaram à condição de banalidades desde que a generalizada sensação de impunidade nos foi conferida pela classe política. A última lição nos foi dada pela Câmara dos Deputados, com a absolvição da deputada Jaqueline Roriz. Flagrada recebendo propina, os nobres colegas a inocentaram, sob a argumentação de que na oportunidade ela não era deputada. Com o mandato vigorando, a parlamentar nunca será julgada pela justiça comum. Por tudo isso, o cidadão comum se julga credor de alguma patifaria. Se os senhores deputados (e ex), ministros, presidentes & filhos, governadores, senadores, prefeitos, secretários de Estado, diretores de órgãos e até contínuos de repartições públicas têm o direito de meter a mão no bolo, por que não o degas?
Nem tudo é desgraça. Aqui mesmo nas Alagoas, o escritor Carlito Lima prova que se pode sonhar. Com efeito, na 2ª Flimar (Festa Literária de Marechal Deodoro), que ora acontece, nosso Velho Capita pôs em ebulição nosso mundo cultural. Na histórica Marechal, Carlito teve a feliz iniciativa de homenagear pessoalmente o grande Ledo Ivo, sem qualquer dúvida o literato alagoano mais ilustre. Membro da Academia Brasileira e da Academia Alagoana de Letras (AAL), dotado de febril e plural criatividade intelectual, nosso egrégio conterrâneo está sendo alvo de carinhosas manifestações. Arnon de Mello também é outro alagoano que tem sido objeto de estudo e conferências. Na homenagem, um aspecto singular: Carlos Mendonça e Milton Ênio, incumbidos da missão, conviveram com o eminente político e empresário. Admiradores do homenageado, seus depoimentos são carregados de particular emotividade.
Dois Jorges alagoanos mereceram a atenção do organizador da 2ª Flimar: Jorge de Lima e Jorge Cooper. Lima tem sido mais constantemente visitado. Por sinal, parte do seu acervo está em exposição na Casa Jorge de Lima, na Praça Sinimbu, atual sede da AAL. Ao mirar em Jorge Cooper, convocando seu filho, médico e poeta Charles Cooper, Carlito Lima resgata uma personalidade meio esquecida, não obstante importante da nossa poesia.

RIEN DE RIEN

Instantes é um dos textos mais conhecidos de Jorge Luís Borges, o pranteado escritor argentino. É uma reflexão poética sobre o passado de um cidadão que lutara a vida toda contra o fantasma de conviver nas trevas da cegueira, tragédia pessoal que marcou sua existência. Aos 85 anos, revelando algum arrependimento, Borges observa que poderia ter tomado mais sorvetes, que não devia ter levado a vida tão a sério e lamenta não ter sido mais tolo do que foi. Se lhe fosse permitido retornar, trataria de cometer mais erros, de ser menos certinho e mais feliz... Naquele instante, reconhecia, era um pouco tarde para pôr em prática as coisas que deixara de fazer.João Cabral de Melo Neto, também teve seu momento de Madalena ao pressentir o “bafo da magra” a rondá-lo. Com efeito, o autor de Morte e Vida Severina, faria comovente desabafo lamentando o distanciamento de sua religião, das suas ave-marias, orações ensinadas pela mãe e que, por insegurança, modismo ou mero desafio, as renegara. Conta-se que, nos estertores, teria pedido para ouvir uma salve-rainha. Antes de partir, queria ficar de bem com a mãe do Céu.Diferentemente de Sinatra, que em My Way proclama, do seu jeito, seu mea culpa, ao interpretar Je ne regrette rien, a outonal Edith Piaff, apesar de todas as agruras pessoais, concupiscências e revertérios, não obstante fases de glória e glamour, solta a potente voz de contralto e em altos brados desautoriza qualquer arrependimento.Desfrutando as delícias de doce refúgio em um balneário paulista, quem também não quer ouvir falar em penitência é o terrorista italiano Cesare Battisti, hoje um imaculado cidadão brasileiro. Capa da IstoÉ dessa semana, é o tal cara que na Itália integrava facção criminosa. Trânsfuga internacional, seu país o aguarda para cumprir prisão perpétua por assassinatos. Para boa parte dos italianos, CB não passa de um bandido comum.Todos sabem que os grandes psicopatas não têm arrependimentos. Fascinados pela autoria de crimes com requintes perversos, muitas vezes, em juízo, são compelidos a exprimir essa “fraqueza”, apenas para driblar condenações menos suaves. Remorsos uma ova! Battisti dispensa-se dessa farsa pequeno-burguesa. Por cima da carne seca, ídolo gauchiste, tem em Lula e Tarso Genro fiéis escudeiros. Aliás, Genro, ao hostilizar o governo italiano tachando-o de decadente, sofre de amnésia seletiva, que o impede de lembrar que ordenha um governo em incontrolável declínio moral.

UMA ARMADILHA PARA OS ALAGOANOS

Pensei que jamais veria a extinção do tradicional vestibular como preferencial porta de entrada aos cursos superiores. Eis que, de súbito, despretensioso plano de avaliação das escolas de nível médio, o Enem, passa a servir como único parâmetro para o acesso à tão sonhada faculdade.
Aposentado da Ufal, com a autopercepção de um barionix num tabuleiro de xadrez, com netos de 8 e 10 anos, a essa altura deveria apenas cuidar dos meus pacientes e comprar figurinhas para os netinhos.
Calejado pelo acompanhamento de vestibulares de amigos e parentes ao longo de anos, o tema me é caro. Vivenciei aprovações dos meus filhos, daquela que seria minha esposa, dos meus irmãos e até da minha mãe, para só falar das glórias.
Esta semana, a Academia Alagoana de Medicina promoveu uma sessão sobre o assunto, tendo como explanadores a reitora Ana Dayse e o diretor da Copeve, Almeida Lima, ambos da Ufal. Os velhos questionamentos retornaram.
A propósito, em 1977, comentei em artigo mudanças nas datas do vestibular da Escola de Ciências Médicas, que, a bem da verdade, atravessava calamitosa crise financeira. A divergência de datas teria como finalidade atrair inscrições pagas e com isso engrossar o raquítico orçamento. Com tais facilidades e com o nosso capenga ensino médio sem tutano para competir até com o de Sergipe, a ECMAL transformar-se-ia no paraíso dos “estrangeiros”.
Algo mudou deste então. O segundo grau procurou se adaptar às exigências dos vestibulares e o índice de aprovação bombou. Na contramão, tradicionais colégios de Maceió sentiram na carne o obsoletismo pedagógico. Certamente levará algum tempo para uma readequação aos preceitos do Enem. Nesse aspecto, soa precipitada a sofreguidão da Ufal em aceitar o Enem “pleno”.
Com a decadência do ensino público, a impor cartilhas partidarizadas e a estimular a cultura do “nóis se ferra”, além da criação do imoral e anticonstitucional sistema de cotas, são levianas certas críticas ao sistema privado de educação, como a propaganda, na busca de alunos. Pior é o governo: na insaciável caça de votos, com verbas públicas alardeia o que não faz.
O fato é que, hoje, quem se debruçar sobre o enigmático e volátil sistema de inscrição (Sisu), após receber a confirmação dos pontos do Enem, vai constatar a enrascada em que se meteu. Com a universalidade da concorrência, dificilmente teremos alagoanos incluídos nos cursos de maior apelo: medicina, odonto, direito, engenharia, dentre outros.

DESTINO

Era o feriado de Todos os Santos de 1919 quando um grupo de intelectuais alagoanos reuniu-se em torno da ideia de criar uma agremiação destinada ao cultivo das letras. Trinta e cinco amantes da literatura deram o ar da graça naquela tarde, tendo como palco o recém-construído Teatro Deodoro, joia do arquiteto Lucarini e orgulho da administração dos Malta, oligarquia que deu as cartas no amanhecer do passado século vinte.
Falava dos presentes e dos representados: dentre tantos, cito Moreira e Silva que respondia por ele e pelo próprio governador-intelectual Fernandes Lima. Jaime de Altavilla, Lima Júnior, Cipriano Jucá, Guedes de Miranda, o primo Fernando Mendonça, Demócrito Gracindo, Jorge de Lima, Joaquim Diégues, Diégues Júnior, Arthur Acioly, Barreto Cardoso, tudo isso sob as bênçãos do clero: Cônego Machado e Pe. Júlio, todos imortais fundadores.
Orador de grandes recursos, o advogado Guedes de Miranda selaria o encontro com frase lapidar: “A força de uma Nação reside mais no fulgor de suas letras que na possança de seus exércitos”. Curiosamente, embora não tenha sido seu primeiro presidente, nem estivesse presente na reunião de fundação, a AAL ficaria conhecida como a “Casa de Gracindo”.
Nos anos setenta, o sodalício receberia um presente de Lamenha Filho, “o governador que amava as letras”, segundo a poética definição do lendário Ib Gatto Falcão. Com efeito, o antigo Grupo Pedro II passaria a ser sua sede. Belo destino para um lugar que já servira de hospital e notabilizara-se pela excelência do ensino público, em saudosas épocas.
E, no entanto, tudo se move, seguindo a erudição do médico Luiz Nogueira, no seu discurso de posse na AAL, citando Galileu Galilei. Hoje, a Casa de Gracindo ocupa a antiga residência do poeta Jorge de Lima. Desfigurado escombro, somente a obstinação de um dr. Ib conseguiria resgatá-la do obscurantismo do anonimato e de impiedosa demolição a que estava predestinada.
Quis o destino que um despretensioso cronista semanal, médico por profissão e tímido diletante das letras, fosse o escolhido para ocupar a vaga do iluminado d. Fernando Iório, seu ex-confessor. Nesse santuário de cultura e saber, o velho bebedourense, filho do doutor José e de dona Rosinha, já se sentiria recompensado em apenas concorrer.
Nos sonhos mais insanos, jamais ousou inserir ombrear-se a um ícone como Aloysio Galvão, mestre querido, em nome do qual homenageia os amigos que juntos sofreram e vibraram.