quarta-feira, 8 de maio de 2019

UM CONTO DE FÉRIAS



UM CONTO DE FÉRIAS 
RONALD MENDONÇA

A carona de um colega de faculdade fez André antecipar em algumas horas seu retorno, a contrariar a ideia inicial de voltar de avião. O velho casarão estava quase às escuras, o silêncio apenas rompido   pelo som da televisão, cuja  luminosidade o atraiu até o quarto do seu pai, que cochilava numa preguiçosa. Aproximou-se com cuidado e alisou sua cabeleira branca e farta fazendo-o despertar meio assustado. O abraço comovido selou aquele reencontro, depois de quase um ano em que não se viam. O velho pai estava saudoso  do filho único. Mal começaram a conversar e a voz da mãe se fez ouvir, determinando ao motorista onde deveria guardar as compras.

Foi uma surpresa muito agradável. Ao enxergar o filho, Guiomar largou tudo no chão e acorreu, lágrimas a escorrer, a abraçar, alisar, palpar e mil beijos foram dados no rosto, nos olhos e na cabeça do recém-chegado, enquanto dizia baixinho: meu filhinho está cansadinho, quer comida? Fêz boa-viagem?... e dezenas de outras preocupações e pequenos elogios que somente mães conseguem dosar a tonalidade exata.. Espontânea,   bonita, elegante, mais magra,  a mãe pareceu-lhe muito jovem, sobretudo quando comparada ao pai que, a seus olhos, muito envelhecera.   A postura materna contrastava com o despojamento  do velho pai que, além de tudo,  tinha um ar melancólico.
Achou legal rever o  amigo de infância, Zé Luiz, hoje motorista da família. Filho da falecida lavadeira da casa, praticamente cresceram juntos.  André, três anos mais moço, filho único, nutria fraterna afeição  e lamentava sinceramente o fato de o amigo  haver desprezado as oportunidades em relação aos estudos. Chegaram a frequentar o mesmo colégio particular, mas Zé Luiz gostava mesmo era de jogar bola e pegar passarinho na pequena mata próxima à casa.

Logo cedo do dia seguinte, André acordou com disposição de dar uma volta no sítio. Queria rever tudo. Eram saudades imensas. Tudo o emocionava. Os exatos cem coqueiros que cinco anos antes o pai havia plantado, ali estavam. Os patos, as galinhas, os porcos... Até festa fizeram ao vê-lo. O cheiro da marisia da lagoa penetrava nas suas narinas e o inebriavam de satisfação. Enquanto se detinha em cada pezinho de mato, lembrou-se do pai. Que estaria acontecendo para ele andar tão triste? Iria tentar descobrir...

A lâmpada da suspeita acendeu ao voltar do sítio.  Presenciou, de longe, sem ser notado, o amigo Zé Luiz dirigir-se a sua mãe sem o respeito esperado. Parecia que o motorista falava com ousada insolência. Que diabo estava acontecendo? As pessoas daquela casa enlouqueceram? Para completar, o cara entrou no carro e acelerou arrastando os  pneus.

André não ficou feliz com o que viu. Preocupado, voltou aos aposentos dos pais para sondar. Remexendo aqui e acolá, encontrou numa gaveta, surpreso,  o velho punhal enferrujado de cabo de madre pérola que pertencera ao avô. Supunha-o perdido. Instintivamente o escondeu dentro da camisa e o guardou no seu quarto, sob a fronha..

O ambiente da casa não era o mesmo. Sim, com a sua chegada, a inteligência, a sagacidade, o raciocínio rápido de Anízio, o pai, aparentemente voltavam ao seu estado de normalidade. Trabalhava menos, construíra um verdadeiro império do Direito e comandava, com mãos firmes, um poderoso escritório com capilaridade que captava os casos complicados de bancas menores. Era um timoneiro experiente, culto, dava aulas na Universidade, era convidado para fazer palestras, conferências em vários pontos do continente. Grandes bancas jurídicas o consultavam, sub-rosa, e ele cobrava caro pela consultoria. Tinha uma belíssima biblioteca, tudo catalogado por profissionais da área. Era  um advogado brilhante e muito influente. Sabia a hora de atuar. Como todo advogado, tinha clientes de todos os matizes morais. Mas, nos últimos anos, dava-se ao desfrute de recusar até causas milionárias. Não se permitia defender assassinos de aluguel, gente do sindicato do crime, pedófilos e outros patifes. Ladrões que saqueavam os cofres públicos não encontravam guarida no Dr. Anízio. Sistematicamente declinou de convites  para ocupar cargos públicos. Tinha náuseas de “procuradores-gerais”, os chamava de “capachos”, sobretudo aqueles dos órgãos políticos. As exceções, ele sabia distinguir.

Acumulara uma boa reserva financeira decorrente de causas vitoriosas de funcionários públicos sufocados por planos cafajestes. Poder-se-ia dizer que Dr. Anízio conhecia as vísceras mais infectadas da Sociedade. Estava naquela patamar da vida onde não se confia nos homens e desacreditava-se dos milagre.

Por outro lado,   os empregados mais antigos davam a impressão de estarem a evitá-lo. Decidido a tirar tudo a limpo, passaria a desconfiar de todos. Na adolescência adorava contos policiais e era leitor recorrente de X-9 e Sherlock Holmes. Sim, era verdade: às vezes sentia-se perseguido, observado... Dizia que convivia bem com a sua paranoia. Procurava livrar-se desses excessos, mas agora as impressões eram mais fortes que ele. Imaginou até seus pais sendo chantageados pelo motorista, por algum motivo que precisava descobrir. Para aumentar o clima de suspense, o velho punhal de madre pérola sumira de sua cama.Não se consentia pensar  em qualquer atitude que denegrisse a imagem da mãe. Era uma santa. Além da sólida formação moral, era de uma religiosidade a toda prova. Faziam refeições nos horários habituais. Era interrogado pelos pais sobre sua vida distante do lar. Eles testavam a resiliência do filho, a capacidade de resolver  coisas de forma independente, sem as peias e o abrigo dos genitores. O pai interessava-se particularmente sobre os conhecimentos adquiridos depois do ingresso na faculdade. Eram conversas amenas, mas pressentia-se que algo não ia bem no relacionamento dos pais.
A despeito de, rigorosamente, nada ter visto de concreto, a última semana das férias foi  de expectativas e de puro sofrimento. O pai registrou essa ansiedade. Estaria apaixonado? Ou continuava com a  política de não envolvimento mais profundo?

André planejou  uma estratégia. Faltando apenas um dia para voltar para a faculdade, fanático  pelo CSA,   no domingo, aludiu que iria ao Trapichão, assistir ao jogo final do campeonato. Na última hora, conseguiu o carro de um colega e fingiu dirigir-se  ao estádio. Ficou à espreita, perto de casa. Intuía que alguma coisa importante iria acontecer.
Às cinco da tarde, cautelosamente, acompanhou o automóvel da família que ganhara a rua, Zé Luiz no volante. Foi com extremo alívio que, de longe,  avistou a mãe descer na porta da Igreja. André não arredaria  de onde estava. Quinze minutos se passaram até ver  o carro do pai novamente em movimento. Com o coração aos pulos,   segui-o em direção à periferia da cidade.
Não havia certeza de que a mãe entrara naquele carro. Indeciso, esperou intermináveis minutos próximo à entrada de um sórdido rendez-vous, onde o automóvel com a mãe escafedera-se. Deus! o que era isso...? Pensou em desistir. Decididamente, não tinha condições emocionais de presenciar o que estava a antever. O que  imaginava estava muito além do que poderia suportar.

Como se assistisse a um velho filme congelado na  mente, cenas de sua vida foram exibidas numa tela imaginária. Era como se o velho Clóvis, centroavante do CSA e funcionário do SESI, as comandasse. Estaria alucinando? Chegou a voltar a cabeça para, na escuridão do seu cérebro conturbado, tentar enxergar o velho atleta, ídolo da  infância. Cenas indeléveis da sua casa na Chã de Bebedouro, na Osvaldo Cruz Nº 500. O pai, jovem advogado impetuoso, antevia uma grande causa que o livrasse da mediocridade e das dificuldades financeiras. No início, suas atividades resumiam-se a pequenas causas, brigas de vizinhos, entreveros de parentes, quase biscates. De certa forma assimilara a arrogância de certos advogados, famosos pela perspicácia, mas sobretudo pelos vultosos honorários. Reatou amizades com notários, antigos colegas de colégio que o recomendavam. Sempre foi sério, estudioso, avesso a farras. Mal e porcamente frequentava o Bar Colombo, aos sábados, apenas para marcar presença, mas lá não se demorava.

Formara-se em Olinda em difíceis tempos. Esteva com um pé na Segunda Guerra quando ela acabou. Para concluir o curso de Direito humilhara-se em sub-empregos. De certa forma, o pequeno soldo do Exército reanimara-lhe os brios. Iria vencer, sim. Sua “grande causa” chegaria aos quarenta anos. Outas causas foram se sucedendo. Não queria tanto. Tinha apenas um filho, o André.

Educou-o com moderada disciplina, seguindo os costumes da época. Nunca admitiu que o filho único chegasse em casa com nota que não beirasse o dez. Erguia as temidas sobrancelhas e dizia: ”eu não avisei que você estava inseguro naquelas datas? A sua nota baixa (9,7) deve ter sido por isso”. E completava: “vamos fazer um serão e repassar essas lições”. Aos sábados à tarde André faxinava os sapatos próprios e os dos pais. Deixava-os de molho e no domingo engraxava e dava o polimento. Como prêmio, recebia autorização para assistir filme, com direito a verba extra para adquirir alguns gibis em barganhas na porta do estabelecimento.

O imaginário filme da sua vida não poupou as pequenas alegrias domésticas, as comemorações dos aniversários, o de Anísio, o pai, coincidia com a véspera de São João e o de Guiomar, a antevéspera do Natal. Havia sempre uma buchada, no São João, e um peru, no Natal. Naquela casa, comemorava-se o Natal no dia 23 de dezembro. Foi nessas brincadeiras que André, ainda adolescente, arriscava-se na sangria do vinho. Para horror de Guiomar, Anísio fazia vistas grossas à traquinagem do unigênito filho. Passados os festejos a ordem voltava a imperar na casa de André. O pai, ao silêncio das noites tentava justificar: “mulher, nós temos um menino exemplar, que nos dá imensas  alegrias. Nesse ano foram  seis medalhas de ouro, no Colégio; bem, teve uma de prata, é verdade...”

O “filme” revia cenas que André já não mais  lembrava: as mornas tardes, na pequena varanda, com a cara enfiada nos livros e também a observar a mãe, catita, cuidando das roseiras, maldizendo as temíveis saúvas. De vez em quandoO “filme” revia cenas que André já não mais  lembrava: as mornas tardes, na pequena varanda, com a cara enfiada nos livros e também a observar a mãe catita cuidando das roseiras, maldizendo as temíveis saúvas. De vez em quando, o olhar materno em sua direção a lembra-lo que iria tomar as lições. Mas era à noite a prova final, quando Dr. Anízio, ar carrancudo, iria dar o veredictum sobre a qualidade do aprendizado do garoto. Não admitia gaguejos ou vacilações.

Quase por um acidente de percurso, André chegou a passar um mês num seminário. Numa das cenas, ouviu-se dizer, entre risos, que Deus (na sua infinita misericórdia!) lhe aparecera em sonho a perguntar-lhe o que ele  estaria fazendo naquele local, a ocupar lugar de outros, certamente, mais vocacionados ao celibato e às adorações.

Dona Guiomar, a mãe, que não fizera festas quando o filho comunicara suas  pias intenções, também tivera seus maus bocados. Passara a infância e adolescência entre freiras. Menina pobre do interior, perdera o pai aos quatro anos. Daí em diante seus pais foram as irmãs claretianas. Esteve à beira de confirmar os votos, até que, numa missa dominical, avistou aquele seria seu príncipe encantado, alto, vasta cabeleira, rosto bem conformado, enfeitado com charmosos bigodes, não obstante quase imberbe. Durante a celebração, foi fulminada pelos olhos negros do futuro e promissor causídico. Um discreto e acanhado sorriso era a confirmação do flerte.

Assim, nasceria uma linda história de amor entre a tímida órfã e o destemido recruta do Exército brasileiro e estudante da tradicional Faculdade de Direito de Olinda. Romântica, a bela Guiomar predestinou o futuro marido ao encalço do Hitler, como o lendário sãomiguelense Zé da Júlia, nas distantes montanhas do conflagrado Velho Mundo.

André reviu seus desencantamentos por ser filho único. Aparecia a cobrar  da mãe essa condição, para ele, de inferioridade, posto que seus amigos de colégio surgiam na fita a falar  dos irmãos, narrando incidentes, convivências, brigas e outros que tais das grandes famílias Somente ele e mais um ou dois colegas não tinham irmãos. Nessa fita retrospectiva, a mãe aparecia a dizer-lhe, melancolicamente, furtivas lágrimas a perolar a face, que durante o parto de André tivera um forte sangramento. Estivera às portas da morte, fora operada na “bacia das almas”, contudo a sobrevivência teve um preço: a “condenação” a não ter outros filhos. Talvez por isso, a necessidade em André de superar essa espécie de “peça” preparada pelo destino. Um misto de decepção e até de culpa por ter sido, involuntariamente, é claro, causador da infertilidade materna.

Num relance de flash back  surgiram o velocípede e a bicicleta; o futebol, as peladas no bairro e na praia, os bailinhos, as festas carnavalescas, os porres de lança-perfurme em plena Rua do Comércio, os corsos, os grandes passistas, os festejos natalinos, os amassos nas festas de rua em Fernão Velho e Rio Largo, os entreveros físicos, trocas de socos e pontapés em ônibus, a ida à Delegacia de Polícia onde foi, por conta disso, certa feita, parar...

Passagens de sua presença no colégio dos beneditinos foram recorrentes. Numa delas estava a fazer prova de Português, matéria em que se destacava. Por sinal, cada novo professor, ao iniciar o ano letivo, pedia para os alunos fazerem uma dissertação, “tema livre”. Já no curso primário suas “composições” destacavam-se e eram expostas no quadro de avisos da sala de aula. As dissertações de André, segundo o filme de sua vida, eram lidas em voz alta pelos professores, comentadas, elogiadas pela boa qualidade dos textos. Mas um certo professor resolveu encrencar com o adolescente André. Uma cena, até certo ponto, revoltante. O aluno, sentado na fila da frente, concentrado na prova, escrevia com a mão direita e, sem perceber, mantinha a mão esquerda fechada. O tal professor cismado que havia uma “cola” no punho cerrado, exigiu a abertura da mão. André, de forma desafiadora, só concordou em estender os dedos em respeito aos apelos dos colegas. A mágoa ficou. Ao ter sua aprovação no vestibular confirmada, o professor teria comentado: “o André foi um dos meus melhores alunos nos beneditinos”. Era tarde o mea culpa.

André não estranhou  uma cena particularmente marcante. Ganhara uma couraça, presente do pai. Tinha um ciúme doentio desse brinquedo. Porém, cometeu uma imprudência ao bater um “picadinho” na praça em frente ao Palácio dos Martírios. A bola seria capturada por um guarda-civil. O sujeito, de nome Vítor, torturou a criança com frases em que dizia claramente que a couraça de estimação estava no lixo, rasgada com fúria por malvados policiais, “seguindo orientações advindas do Palácio”. “Do Palácio!?” exclamou o garoto, e completaria, “moço, esse governo não tem o que fazer de mais importante?” Por fim, já anoitecendo, depois de lamuriosos apelos, o tal de Victor devolveu o brinquedo. O problema agora seria explicar ao pai o atraso do regresso ao lar...UM CONTO DE FÉRIAS  (FINAL)

Nunca foi um namorador contumaz. Na realidade, sempre foi muito tímido e algo desajeitado. Seu rosto era pequeno em relação aos largos ombros, o que lhe conferia uma certa desproporção corporal. Vestia-se com simplicidade, roupas alinhavadas pela mãe, numa velha Singer. Seus sapatos eram reforçados por biqueiras e saltos em metal, para durarem mais. Várias vezes, aparecia jogando, usando aqueles instrumentos belicosos, de reforçados bicos, temidos pelos estragos potenciais que poderiam produzir, à sombra dos oitizeiros do colégio dos beneditinos. Pelo conjunto da obra, até aquele momento, não se auto-classificava como um “macho alfa”, posto não provocar, aparentemente, nenhum frisson no público feminino.

Intrigado, descobriu-se a perguntar-se o que  namorados faziam ou falavam-se de tão interessante, em prolongados encontros quase diários. Na verdade, sempre preferira prostitutas a namoros mais sérios, daí as visualizações femininas sem nitidez, como a denunciar os passageiros “casos”.  André era mesmo focado em leituras. Queria passar num vestibular de uma grande instituição de ensino, como o seu pai, e, seguindo o raciocínio, ter uma ampla cultura e ser um profissional respeitado.

De súbito, o filme do seu passado deu um branco e retornou a sua dramática encruzilhada. Procurava uma justificativa razoável que pudesse explicar o comportamento de Guiomar. Transtornado, incapaz de raciocinar com clareza, nada lhe ocorria a não ser a crueldade do destino, que, tragicamente, o marcou desde a concepção.

Veio-lhe então à mente a grave fisionomia paterna séria e tristonha. Vacilou. Mas alguma coisa haveria de fazer. Cresceu em ódios contra o seu amigo de infância. Não tinha dúvidas, fora ele quem botara sua mãe no caminho do mal. Sim, fora aquele canalha que de forma sub-reptícia fez sua mãe, uma santa mulher, corromper a sua alma bondosa, renunciando aos seus princípios morais e religiosos. Pensou em estrangular o amigo. “Um sacana,  filho-da-puta!” Era terrível e desconcertante. André deixara de acreditar em alma, em outras vidas, em “planos superiores”, em “outra dimensão”...

Por fim, encheu-se de coragem. Daí em diante,  André não saberia mais narrar o ocorrido, se assim possível fosse. Suas últimas impressões, após arrombar a porta do quarto do rendez-vous,  teriam sido a dolorosa visão da sua mãe assustada, supostamente em felações, tentando esconder a nudez. Ele ainda ensaiaria  dizer-lhe que a perdoava,  mas apenas gemeu alto pela lancinante dor de um punhal a rasgar-lhe  o peito e  faze-lo suspirar, penosamente, pela última vez.
Maceió, 1997

Destino

DESTINO

Era o feriado de Todos os Santos de 1919, quando um grupo de intelectuais alagoanos reuniu-se em torno da ideia de criar uma agremiação destinada ao cultivo das letras. Trinta e cinco amantes da literatura deram o ar da graça naquela tarde, tendo como palco o recém-construído Teatro Deodoro, joia do arquiteto Lucarini e orgulho da administração dos Malta, oligarquia que deu as cartas no amanhecer do passado século vinte.
Falava dos presentes e dos representados: dentre tantos, cito Moreira e Silva que respondia por ele e pelo próprio governador-intelectual Fernandes Lima. Jaime de Altavilla, Lima Júnior, Cipriano Jucá, Guedes de Miranda, o primo Fernando Mendonça, Demócrito Gracindo, Jorge de Lima, Joaquim Diégues, Diégues Júnior, Arthur Acioly, Barreto Cardoso, tudo isso sob as bênçãos do clero: Cônego Machado e Pe. Júlio, todos imortais fundadores.
Orador de grandes recursos, o advogado Guedes de Miranda selaria o encontro com frase lapidar: “A força de uma Nação reside mais no fulgor de suas letras que na possança de seus exércitos”. Curiosamente, embora não tenha sido seu primeiro presidente, nem estivesse presente na reunião de fundação, a AAL ficaria conhecida como a “Casa de Gracindo”.
Nos anos setenta, o sodalício receberia um presente de Lamenha Filho, “o governador que amava as letras”, segundo a poética definição do lendário Ib Gatto Falcão. Com efeito, o antigo Grupo Pedro II passaria a ser sua sede. Belo destino para um lugar que já servira de hospital e notabilizara-se pela excelência do ensino público, em saudosas épocas.
E, no entanto, tudo se move, seguindo a erudição do médico Luiz Nogueira, no seu discurso de posse na AAL, citando Galileu Galilei. Hoje, a Casa de Gracindo ocupa a antiga residência do poeta Jorge de Lima. Desfigurado escombro, somente a obstinação de um dr. Ib conseguiria resgatá-la do obscurantismo do anonimato e de impiedosa demolição a que estava predestinada.
Quis o destino que um despretensioso cronista semanal, médico por profissão e tímido diletante das letras, fosse o escolhido para ocupar a vaga do iluminado d. Fernando Iório, seu ex-confessor. Nesse santuário de cultura e saber, o velho bebedourense, filho do doutor José e de dona Rosinha, já se sentiria recompensado em apenas concorrer.
Nos sonhos mais insanos, jamais ousou inserir ombrear-se a um ícone como Aloysio Galvão, mestre querido, em nome do qual homenageia os amigos que juntos sofreram e vibraram.

O Envelhecer da Crônica

O ENVELHECER DA CRÔNICA

 Ilustres intelectuais, permitam-me dizer, alguns colegas de Academias Literárias e outros que não a buscam por a considerarem um ranço “de gosto pequeno-burguês”, ali e acolá, repito, há os que definam a crônica como um estilo híbrido, não vindo a ser um “puro-sangue” literário. Seguindo a cartilha, a crônica será “híbrida”(como o burro), ou seja, uma mistura de jornalismo com pitadas de literatura. Por esse viés, um  tisna o outro. Dessa forma, nem é jornalismo, muito menos literatura.
 Alguém já me disse, não sem acrimônia, que eu não seria, conceitualmente, um intelectual. Imaginem a minha  decepção, pois até aquele exato instante, considerava-me, pretensiosamente, é claro, um “intelectual”. A Ficha caiu-me. Embora, como consolo, desde que colei grau em Medicina, em 1971, nunca tenha  sido-me negada a condição de “médico”.
Conquanto  aniódonos comentários, por mera teimosia, continuei a escrever textos para jornais, até o dia em que o próprio jornal, para o qual enviava, há duas décadas, semanalmente, minhas alinhavadas crônicas, cassou-me a palavra. Meus textos teriam sido considerados “malditos” pela mais importante mídia de Alagoas. Fazer o quê? A coluna vertebral anquilosou e impede-me de salamaleques.
Ainda assim, não obstante a negação frontal do talento de “intelectual de verdade” e de ter minhas palavras silenciadas pela mídia alagoana, continuei a produzir. Passei a publicar unicamente pela mídia social, denominada “Facebook”. Ignoro se sou bem ou mal lido. Acho que a segunda hipótese é a mais viável.
Nas horas em que me proponho a colecionar os tricentenários textos e publicá-los em forma de livros, deparo-me com uma irrefutável verdade: a crônica adquire tinturas senis. Ainda assim, mais uma vez, audaciosamente, sigo em frente. O máximo que me ocorre é datá-las. Talvez, para algum leitor mais curioso dar-se ao trabalho de confrontá-las com o momento histórico em que foram escritas.
Admito, e por isso peço desculpas, dar publicidade a textos sem a devida datação. É que, o que me sobra em ousadia,  careço daquela diligente persistência  dos colecionadores. Condescendentes leitores haverão de perdoar-me a indigência intelectual.
Maceió (Alagoas), maio de 2019
Ronald Cabral de Mendonça

Cartas aos garotos: A Ditadura Militar 64-85

CARTA AOS GAROTOS
VCS  QUE SÃO MENINOS DE ONTEM MERECEM INFORMAÇÕES. INFELIZMENTE, NÃO SABEM DA MISSA UM TERÇO. O QUE FAZIA PAULO COELHO NOS TEMPOS DA DITADURA MILITAR? VIVI ESSA ÉPOCA, TIVE  CARRO, UM FUSCA 65, ESTUDAVA, NAMORAVA, FAZIA FARRAS ATÉ TARDE DA NOITE, FREQUENTAVA BORDEIS, IA AO BAR DO CHOPP COMEMORAR COM MEUS AMIGOS DE COLÉGIO... BRINCAVA CARNAVAL, COMEMORAVA O SÃO JOÃO E O NATAL, MAS LIA E ESTUDAVA MUITO. PASSEI NUM VESTIBULAR DE UMA FACULDADE FEDERAL, PARTICIPEI DO DIRETÓRIO SEBATIÃO DA HORA. MARQUEI  PRESENÇA EM REUNIÕES DE PROTESTO, NA ESCOLA DE ENGENHARIA (UMA ESTUDANTE DE MEDICINA, QUE NÃO LEMBRO O NOME, TINHA SIDO PRESA EM IBIÚNA, SP, DURANTE UM CONGRESSO DE ESTUDANTES). COMO DIZIA, NOS INTERVALOS DOS COMÍCIOS, LIA-SE E "INTERPRETAVA-SE" MARX. ERA EVIDENTE QUE MUITOS DALI NÃO QUERIAM UM REGIME DEMOCRÁTICO. HAVIA UM, OU MAIS ESTUDANTES DE ENGENHARIA QUE PARECIAM TENTAR EXPLICAR OS DEVANEIOS MARXISTAS.
NAQUELA ÉPOCA JÁ EXISTIAM OS "ESQUERDISTAS REVOLUCIONÁRIOS" DE BARES TEMÁTICOS, QUE DISCUTIAM O COMUNISMO COMO ALGO IMINENTE, CABEÇAS CAMBALEANTES DO MALTE ESCOCÊS.
EU TINHA DEZESSEIS ANOS QUANDO JANGO BATEU O PÉ NA BUNDA E ESCAFEDEU-SE NAS SUAS  TERRAS URUGUAIAS. O PAÍS FICOU ACÉFALO.
 POR QUEM OS SINOS DOBRAM? POR "GUERRILHEIROS" QUE AQUI PRETENDIAM INSTALAR UMA NOVA CUBA? COELHO FAZIA PARTE DESSES GUEVARAS TUPINIQUINS, ELE, RAUL SEIXAS E TANTOS OUTROS. ERAM JOVENS DA CLASSE MÉDIA QUE CAIRAM NO CONTO DE VIGÁRIO QUE VISLUMBRAVA COMO FACTÍVEL UMA REVOLUÇÃO COMUNISTA. TINHAM COMO MODELO CHE GUEVARA.
VCS ESTAVAM NA BARRIGA DAS SUAS MÃES QUANDO COMEÇOU A LUTA ARMADA. NÃO FOI EM 1964. "GUERRILHEIROS" DERAM O PRIMEIRO PASSO. SEGUIAM UM DEMOLIDOR CATECISMO,  DE UM BAIANO TINHOSO, EX-DEPUTADO, O CARLOS MARIGHELA,  DE GUERRILHA URBANA, EMBORA HOUVESSE DISSIDENTES QUE PRECONIZAVAM A GUERRILHA NO INTERIOR, NO CAMPO). O FATO É QUE, SE NA CIDADE OU NO CAMPO, COMEÇARAM A ATERRORIZAR, ORGANIZARAM-SE EM "PONTOS", CRIARAM-SE SIGLAS, "PALMARES" E OUTRAS.
 VALOROSOS E ATÉ DOCES CAMARADAS SABIAM QUE A LUTA ERA DESIGUAL, AINDA ASSIM PEGARAM EM ARMAS, HAVIA LISTAS DE CANDIDATOS AO PAREDÓN (EM CASO DE VITÓRIA DO COMUNISMO), NOS MOLDES GUEVARISTAS, EXECUÇÃO SUMÁRIA.
 NA PEQUENA ILHA DO CARIBE, MILHARES FUGIRAM PARA MIAMI. AINDA ASSIM, FORAM ENTRE 15 E 20 MIL ASSASSINATOS SUMÁRIOS EM CORTE PRESIDIDA PELO PRÓPRIO CHE, AQUELE DO BONEZINHO, QUE DIZIA: " HAY QUE ENDURECER, MAS SIN PERDER LA TERNURA".
VIERAM OS SEQUESTROS DE EMBAIXADORES (SEQUESTRAR ALGUÉM, É OU NÃO É UMA FORMA DE TORTURA?), OS ASSALTOS A BANCOS EM PLENA LUZ DO DIA COM ARMAS SOFISTICADAS É OU NÃO É TORTURAR?  ATÉ RESIDÊNCIAS PARTICULARES SERIAM ALVOS DE ROUBOS. SE VC IMAGINA O TAMANHO DO BRASIL, HÁ DE PENSAR-SE QUE EM CADA CANTO, EM CADA ESQUINA, EM CADA ÁRVORE EXISTIA UM PELOTÃO DE MILITARES. CRUEL ENGANO. A VIDA TRANSCORRIA DENTRO DE UMA NORMALIDADE ABSOLUTA. MAS, PARA AQUELES QUE SE ARMARAM, AOS QUE PRETENDIAM TRANSFORMAR O PAÍS NUM SATÉLITE SOVIETO-CUBANISTA, A VIDA DEVE TER SIDO BEM DIFÍCIL. ESSE PESSOAL ERA COOPTADO EM COLÉGIOS E UNIVERSIDADES PARA FAZER PEQUENOS TRABALHOS, COMO LEVAR RECADOS, ABRIGAR ALGUM FORAGIDO NA CASA DOS PAIS, DIRIGIR CARRO ROUBADO, NUM CRESCENDO DE ENVOLVIMENTO. DAÍ, AS PARTICIPAÇÕES AUMENTAVAM  E SE TORNAVAM FORAGIDOS, ABANDONANDO A FACULDADE, A CONVIVÊNCIA FAMILIAR... OS ANTIGOS AMIGOS DE INFÂNCIA FICARIAM PARA TRÁS. VIRAVAM FANÁTICOS!
 CONVENTOS SE TORNARIAM  APRISCOS DE TERRORISTAS E RELIGIOSOS ERAM USADOS COMO POMBOS-CORREIO. FOI ATRAVÉS DESSES CARAS QUE A POLÍCIA CHEGOU AO MARIGHELA.
 O LAMARCA E SUA NAMORADA SERIAM LOCALIZADOS POR MEIO DE UMA CARTA DE AMOR DE LAMARCA ENDEREÇADA A IARA IAVELBERG. PARA VC TER UMA IDEIA, NEM CARLOS PRESTES (O MENTOR DA INTENTONA COMUNISTA EM 1935) CONCORDAVA COM A LUTA ARMADA.
 ONDE ESTARÍAMOS NÓS, EU, VOCÊ, SEUS PAIS, SEUS AVÓS, SEUS AMIGOS SE POR ACASO OS TERRORISTAS TIPO MARIGHELA, DILMA, ZÉDIRCEU, GENOÍNO, LAMARCA E OUTROS CHEGASSEM AO PODER ATRAVÉS DAS ARMAS?
O GABEIRA E TANTOS QUANTOS ESTÃO AÍ CONTANDO O QUE VIRAM, COMO ATIVISTAS, NOS BASTIDORES DOS SEQUESTROS. VÁRIOS EX-COMUNISTAS JÁ DERAM SEUS DEPOIMENTOS.
 O EX-CAPITÃO, DESERTOR DO EXÉRCITO, CARLOS LAMARCA FAZIA JULGAMENTOS SUMÁRIOS, MATAVA A CORONHADAS. "GUERRILHEIROS ARREPENDIDOS" ERAM MORTOS PELOS PRÓPRIOS CAMARADAS.
 NO RECIFE QUE AMAMOS TANTO, TERRORISTAS SOLTARAM UMA BOMBA DENTRO DO AEROPORTO. MAS ISSO PARECE QUE NÃO EXISTIU. A GENTE LÊ UM TEXTO COMO AQUELE ATRIBUÍDO AO PAULO COELHO  E DAÍ  CRIA-SE UM CLIMA DE QUE A POLÍCIA PEGAVA ALGUÉM ALEATORIAMENTE, DO NADA, DO NADA, LEVAVA PARA UM LUGAR DESERTO E LÁ DELICIAVA-SE COM TORTURAS GRATUITAS, UMA ESPÉCIE DE SADISMO.
 DIA DESSES, PUBLIQUEI AQUI NO FACE ALGO QUE FEZ REFERÊNCIA A ELEIÇÕES. IMAGINEM O NÍVEL DE DESCONHECIMENTO, A JOVEM INDAGOU ESTUPEFATA: "ELEIÇÕES?! DURANTE O REGIME MILITAR!? ELA IGNORAVA QUE HAVIA ELEIÇÕES, CAMPANHAS, DESCONHECIA QUE HAVIA BIPARTIDARISMO, IGNORAVA QUE ERAM OS SULISTAS QUEM OFERECIAM A MAIOR RESISTÊNCIA AO REGIME, ELEGENDO PESSOAS DA OPOSIÇÃO.
 NAQUELES TEMPOS, O NORDESTE ERA QUEM DAVA SUSTENTAÇÃO AOS MILICOS. SEMPRE POBRE E NECESSITADO, O NOSSO NORDESTE AJOELHAVA-SE DIANTE DO PODER DA ARENA, DO MESMO MODO QUE FAZ HOJE MOTIVADO PELO BOLSA FAMÍLIA. VEJAM FILHOS COMO AS COISAS SÃO. O NORDESTE NÃO MUDOU. CONTINUA A ACOCORAR-SE PARA ESMOLAR CARROS PIPAS, SACOLÕES E A ESMOLA DO BOLSA-FAMÍLIA.
OLHEM PARA  AS FOTOS DAS SUAS INFÂNCIAS. VCS FORAM ADOLESCENTES NA DITADURA. VIRAM ALGO PARECIDO COM O QUE OCORREU COM A CABEÇA CHEIA DE ERVAS DO PAULO COELHO? UM ABRAÇO CARINHOSO DO VELHO TIO

TEXTO MEMORIAL DE MEU PAI, JOSÉ LOPES DE MENDONÇA, DE 1991

TEXTO MEMORIALISTA DE JOSÉ LOPES DE MENDONÇA.
SERÁ ESCRITO EM 1991, LOGO APÓS O CONFISCO PROMOVIDO PELO ENTÃO PRESIDENTE, FERNANDO COLLOR DE MELLO.
TRANSCREVO:
“No limiar dos meus 70 (setenta) anos de idade e aos 45 anos de profissão médica, tive meus bens em espécie monetária congelados, por isso convém esclarecer as suas origens. As minhas economias, que foram congeladas de acordo com o plano econômico do  modelo “Brasil Novo”, não representam um montante de especulação, mas um pequeno patrimônio construído através de lutas e trabalho incessantes iniciados no ano de 1946.
 Formado em Medicina pela Universidade de Medicina do Recife (porque no estado de Alagoas, na época, não havia nem o curso complementar pré-médico, que equivale ao 2º grau atual, calculem pensar em curso universitário!). Assim, fiquei no Recife, de 1938 a 1945, primeiro cursando o pré-médico (1938-1939 e o curso médico de 1940-1945). Nesse período, tornei-me reservista de 2ª categoria, servindo no Tiro de Guerra, 333, sediado em Olinda.
Durante o curso médico, fui convocado para serviço ativo e com vistas a ser enviado à FEB, para os campos de batalha na Itália. Nesse ano, sofri a maior perda da minha vida, a morte de meu pai, aos 50 anos de idade que, profundamente emocionado com a minha convocação para o serviço ativo do Exército e prevendo a interrupção dos meus estudos médicos, foi acometido de crise hipertensiva com edema agudo do pulmão, falecendo em poucos instantes, na presença de equipe médica do Pronto Socorro de Maceió. Ainda permaneci na 7ª Formação Sanitária Nacional, acantonada em Monteiro, bairro do Recife, durante 07 (sete) meses, quando fui desincorporado por requerimento de minha mãe, justificando a qualidade do filho mais velho e,  consequentemente, arrimo de família.
Muita luta, muito sacrifício para concluir os três últimos anos do curso médico - 4°,5º e 6° anos. Só a determinação de obter a formação de médico fez superar a indiscutível crise. Amigos e parentes aconselhavam-me a suspender o curso e candidatar-me em concursos de bancos. Evidentemente fui obrigado a trabalhar concomitantemente com os estudos de medicina. Trabalhei em laboratórios farmacêuticos, como propagandista e vendedor, para obter o necessário à subsistência e ajuda à minha mãe e os três irmãos menores. Fiz cursos e estágios que me garantiram a formação de generalista: fui acadêmico-interno de hospitais e por fim, realizei cursos de especialização em Psiquiatria e Medicina e também, em época distinta, em Higiene do Trabalho.
Ainda com 12 (doze) anos de formado não possuía casa própria nem carro. Mas, acima de tudo, estava na minha determinação a lembrança da figura do meu pai, que perdeu todos os bens, na crise do açúcar bruto, de 1930 em diante. Portanto, não gastava tudo o que ganhava e sempre fazia pequenas economias do que restava dos empregos e do exercício liberal da profissão.
Dessa forma, pude, em 1960, alugar uma casa nova de dois pavimentos e instalar uma pequena cínica psiquiátrica, com consultório. Dois anos depois, em 1962, com o mesmo sistema de economias, adquiri uma casa maior que me foi oferecida pelos tradicionais  industriais do
Estado, Leão Irmãos, que me cederam um belo imóvel provido de um pomar, com prestações mensais, em 5 (cinco) anos. Assim, ampliei a minha Clínica. O processo inflacionário, já em curso, favoreceu, ilusoriamente, o pagamento da minha dívida, conseguindo saldá-la no tempo acertado.
Passei a ampliar a Clínica, atendendo os pacientes da Capital e do Interior, e a minha família constituída de 10 (dez) filhos, com a minha esposa, compunham a equipe que proporcionou o nosso crescimento. As nossas economias  foram utilizadas na ampliação da Clínica, na compra de materiais, eletrodomésticos, técnicos etc. Também permitiram que se fizesse aplicação em Over e em Poupança, sistemas financeiros criados pelo governo e estimulados pelo próprio governo. Mas, apesar das aplicações, nunca ficamos em berço esplêndido, aguardando somente o recebimento dos enganosos lucros do sistema financeiro da época.
Continuamos trabalhando na Medicina e proporcionando o bem-estar de inúmeros alagoanos e de outros pacientes de longínquas plagas; porque a nossa Clínica, ao visar o bem-estar dos pacientes, tem obtido a preferência da clientela e o nosso nome tem se projetado em todo o País.”

domingo, 10 de março de 2019

um conto de férias


UM CONTO DE FÉRIAS
Ronald Mendonça

A carona de um colega de faculdade fez André antecipar em algumas horas seu retorno, a contrariar a ideia inicial de voltar de avião. O velho casarão estava quase às escuras, o silêncio apenas rompido   pelo som da televisão, cuja  luminosidade o atraiu até o quarto do seu pai, que cochilava numa preguiçosa. Aproximou-se com cuidado e alisou sua cabeleira branca e farta fazendo-o despertar meio assustado. O abraço comovido selou aquele reencontro, depois de quase um ano em que não se viam. O velho pai estava saudoso  do filho único. Mal começaram a conversar e a voz da mãe se fez ouvir, determinando ao motorista onde deveria guardar as compras.
Foi uma surpresa muito agradável. Gentil  e bonita, elegante, mais magra,  a mãe pareceu-lhe muito jovem, sobretudo quando comparada ao pai que, a seus olhos, muito envelhecera.   A postura materna contrastava com o despojamento  do velho pai que, além de tudo,  tinha um ar melancólico.
Achou legal rever o seu amigo de infância, Zé Luiz, hoje motorista da família. Filho da falecida lavadeira da casa, praticamente cresceram juntos.  André, três anos mais moço, filho único, nutria fraterna afeição  e lamentava sinceramente o fato de o amigo  haver desprezado as oportunidades em relação aos estudos. Chegaram a frequentar o mesmo colégio particular, mas Zé Luiz gostava mesmo era de jogar bola e pegar passarinho na pequena mata próxima à casa.
Logo cedo do dia seguinte, André acordou com disposição de dar uma volta no sítio. Queria rever tudo. Eram saudades imensas. Tudo o emocionava. Os exatos cem coqueiros que cinco anos antes o pai havia plantado, ali estavam. Os patos, as galinhas, os porcos... Até festa fizeram ao vê-lo. O cheiro da marisia da lagoa penetrava nas suas narinas e o inebriavam de satisfação. Enquanto se detinha em cada pezinho de mato, lembrou-se do pai. Que estaria acontecendo para ele andar tão triste? Iria tentar descobrir...
A lâmpada da suspeita acendeu ao voltar do sítio.  Presenciou, de longe, sem ser notado, o seu amigo de infância Zé Luiz dirigir-se a sua mãe sem o respeito esperado. Parecia que o motorista falava com inusual insolência. Que diabo estava acontecendo? As pessoas daquela casa enlouqueceram? Para completar, o cara entrou no carro e sair arrastando os  pneus.
André não ficou feliz com o que viu. Sob tensão, voltou aos aposentos dos pais para sondar alguma coisa. Remexendo o guarda-roupa  encontrou, surpreso,  o velho punhal enferrujado de cabo de madre pérola que pertencera ao avô. Supunha-o perdido. Instintivamente o escondeu dentro da camisa e o guardou no seu quarto, sob o travesseiro.
O ambiente da casa não era o mesmo. Sim, com a sua chegada, a inteligência, o raciocínio rápido de Anízio aparentemente voltavam ao seu estado de normalidade. Trabalhava menos, construíra um verdadeiro império do Direito e comandava com mãos firmes um poderoso escritório com capilaridade que captava os casos complicados de bancas menores. Era um timoneiro experiente, culto, dava aulas na Universidade, era convidado para fazer palestras, conferências em vários pontos do continente. Grandes bancas jurídicas o consultavam sub-rosa e ele cobrava caro pela consultoria. Tinha uma belíssima biblioteca, tudo catalogado por profissionais da área. Era, de fato, um advogado brilhante e muito influente. Sabia a hora de atuar. Como todo advogado, tinha clientes de todas as matizes morais. Mas, nos últimos anos dava-se ao desfrute de recusar até causas milionárias. Não se permitia defender assassinos de aluguel, gente do sindicato do crime, pedófilos e outros patifes. Ladrões que saqueavam os cofres públicos não encontravam guarida no Dr. Anízio. Acumulara uma boa reserva financeira decorrente de causas de funcionários públicos sufocados por planos cafajestes. Poder-se-ia dizer que Dr. Anízio conhecia as vísceras mais recônditas, mais infectadas da Sociedade. Estava naquela situação em que não se confia mais nos homens e não acreditava em milagres.
Por outro lado, para André,  os empregados mais antigos davam a impressão de estarem a evitá-lo. Decidido a tirar tudo a limpo, passaria a desconfiar de todos. Na adolescência adorava contos policiais e era leitor recorrente de X-9 e Sherlock Holmes. Sim, era verdade: às vezes sentia-se perseguido, observado... Dizia que convivia bem com a sua paranoia. Procurava livrar-se desses excessos, mas agora as impressões eram mais fortes que ele. Imaginou até seus pais sendo chantageados pelo motorista, por algum motivo que precisava descobrir. Para aumentar o clima de suspense, o velho punhal de madre pérola sumira de sua cama.
Não se consentia pensar  em qualquer atitude que denegrisse a imagem da mãe. Era uma santa. Além da sólida formação moral, era de uma religiosidade a toda prova. Faziam refeições nos horários habituais. Era interrogado pelos pais sobre sua vida distante do lar. Eles testavam a resiliência do filho, a capacidade de resolver suas coisas de forma independente, sem as peias e o abrigo dos genitores. O pai interessava-se particularmente sobre os conhecimentos adquiridos depois do ingresso na faculdade. Eram conversas amenas, mas pressentia-se, para André, que algo não ia bem no relacionamento dos pais.
A despeito de, rigorosamente, nada ter visto de concreto, a última semana das férias foi  de expectativas e de puro sofrimento. O pai registrou essa ansiedade. Estaria apaixonado? Ou continuava com a sua política de não envolvimento mais profundo?
André planejou  uma estratégia. Faltando apenas um dia para voltar para a faculdade, fanático  pelo CSA,   no domingo, fez chegar a todos da casa  que iria ao Trapichão, assistir ao jogo final do campeonato. Na última hora, conseguiu o carro de um colega emprestado e fingiu dirigir-se  ao estádio. Ficou na espreita, perto de casa. Intuía que alguma coisa importante iria acontecer.
Às cinco da tarde, cautelosamente, acompanhou o automóvel da família que ganhara a rua, Zé Luiz no volante. Foi com extremo alívio que, de longe,  avistou a mãe descer na porta da Igreja. André não arredaria  de onde estava. Quinze minutos se passaram até ver  o carro do pai novamente em movimento. Com o coração aos pulos,   segui-o em direção à periferia da cidade.
Não havia certeza de que a mãe entrara naquele carro. Indeciso, esperou intermináveis minutos próximo à entrada de um motel, onde o automóvel da mãe se escafedera. Deus! o que era isso... Pensou em desistir. Decididamente, não tinha condições emocionais de presenciar o que estava a antever. O que  imaginava estava muito além do que poderia suportar.
Como se assistisse a um velho filme congelado na sua mente, cenas de sua vida foram exibidas numa tela imaginária. Era como se o velho Clóvis, centroavante do CSA e funcionário do SESI, as comandasse. Estaria alucinando? Chegou a voltar a cabeça para, na escuridão do seu cérebro conturbado, tentar enxergar o velho atleta, ídolo da sua infância. Cenas indeléveis da sua casa na Chã de Bebedouro, na Osvaldo Cruz Nº 500. O pai, jovem advogado impetuoso, antevia uma grande causa que o livrasse da mediocridade e das dificuldades financeiras. No início, suas atividades resumiam-se a pequenas causas, brigas de vizinhos, entreveros de parentes, quase biscates. Decerta forma assimilara a arrogância de certos advogados, famosos pela perspicácia, mas sobretudo pelas vultosos honorários. Reatou amizades com notários, antigos colegas de colégio que o recomendavam. Sempre foi sério, estudioso, avesso a farras. Mal e porcamente frequentava o Bar Colombo, aos sábados, apenas para marcar presença, mas lá não se demorava.
Formara-se em Olinda em difíceis tempos. Esteva com um pé na Segunda Guerra quando ela acabou. Para concluir o curso de Direito humilhara-se em sub-empregos. De certa forma, o pequeno soldo do Exército reanimara-lhe os brios. Iria vencer, sim. Sua “grande causa” chegaria aos quarenta anos. Outas causas foram se sucedendo. Não queria tanto. Tinha apenas um filho, o André.
Educou-o com moderada disciplina, seguindo os costumes da época. Nunca admitiu que seu filho único chegasse em casa com nota que não beirasse o dez. Erguia as temidas sobrancelhas e dizia: ”eu não avisei que você estava inseguro naquelas datas? A sua nota baixa (9,7) deve ter sido por isso”. E completava: “vamos fazer um serão e repassar essas lições”. Aos sábados à tarde André faxinava os sapatos próprios e os dos pais. Deixava de molho e no domingo engraxava e dava o polimento. Como prêmio, recebia autorização para ir ao cinema, com direito a verba extra para adquirir alguns gibis em barganhas na porta do cinema.
O imaginário filme da sua vida não poupou as pequenas alegrias domésticas, as comemorações dos aniversários, o de Anísio, o pai, coincidia com a véspera de São João e o de Guiomar a antevéspera do Natal. Havia sempre uma buchada, no São João, e um peru, no Natal. Naquela casa, comemorava-se o Natal no dia 23 de dezembro. Foi nessas brincadeiras que André, ainda adolescente, arriscava-se na sangria do vinho. Para horror de Guiomar, Anísio fazia vistas grossas à traquinagem do unigênito filho. Passados os festejos a ordem voltava a imperar na casa de André. O pai, ao silêncio das noites tentava justificar: “mulher, nós temos um menino exemplar, que nos dá imensas  alegrias. Nesse ano foram  seis medalhas de ouro, no Colégio; bem, teve uma de prata, é verdade...”
O filme revia cenas que André já não mais se lembrava: as mornas tardes, na pequena varanda, com a cara enfiada nos livros e também a observar a mãe catita cuidando das roseiras, maldizendo as temíveis saúvas. De vez em quando, o olhar materno em sua direção a lembra-lo que iria tomar as lições. Mas era à noite a prova final, quando Dr. Anízio, ar carrancudo, iria dar o veredictum sobre a qualidade do aprendizado do garoto. Não admitia gaguejos ou vacilações. Quase um acidente de percurso, chegou a passar um mês num seminário. Ouvia-se dizer, entre risos, que Deus (na sua infinita misericórdia) lhe aparecera em sonho a perguntar-lhe o que ele, André, estaria fazendo naquele local, a ocupar lugar de outros, certamente, mais vocacionados ao celibato e às adorações.
Dona Guiomar, a mãe, que não fizera festas quando o filho comunicara suas  pias intenções, também tivera seus maus bocados. Passara a infância e adolescência entre freiras. Menina pobre do interior, perdera o pai aos quatro anos. Daí em diante seus pais foram as irmãs claretianas. Esteve à beira de confirmar os votos, até que, numa missa dominical, avistou aquele seria seu príncipe encantado, alto, vasta cabeleira, rosto bem conformado, enfeitado com charmosos bigodes, não obstante quase imberbe. Durante a celebração, foi fulminada pelos olhos negros do futuro e promissor causídico. Um discreto e acanhado sorriso era a confirmação do flerte.
Assim, nasceria uma linda história de amor entre a tímida órfã e o destemido soldado do Exército brasileiro, estudante da tradicional Faculdade de Direito de Olinda. Romântica, a bela Guiomar predestinou o futuro marido ao encalço do Hitler, como o lendário sãomiguelense Zé da Júlia, nas distantes montanhas do conflagrado Velho Mundo.
André reviu seus desencantamentos por ser filho único. Aparecia a cobrar  da mãe essa condição, para ele, de inferioridade, posto que seus amigos de colégio surgiam na fita a falar  dos irmãos, narrando incidentes, convivências, brigas e outros que tais das grandes famílias Somente ele e mais um ou dois colegas não tinham irmãos. Nessa fita retrospectiva, a mãe aparecia a dizer-lhe, melancolicamente, furtivas lágrimas a perolar a face, que durante o parto de André tivera um forte sangramento. Estivera às portas da morte, fora operada na “bacia das almas”, contudo a sobrevivência teve um preço: a “condenação” a não ter outros filhos. Talvez por isso, essa necessidade em André de superar essa espécie de “peça” preparada pelo destino. Um misto de decepção e até de culpa por ter sido, involuntariamente, é claro, causador da infertilidade materna.
Num relance de flash back  surgiram o velocípede e a bicicleta. O futebol, as peladas no bairro e na praia, os bailinhos, as festas carnavalescas, os porres de lança-perfurme em plena Rua do Comércio, os corsos, os grandes passistas, os festejos natalinos, os amassos nas festas de rua em Fernão Velho e Rio Largo, os entreveros físicos, trocas de socos e pontapés em ônibus, a ida à Delegacia de Polícia onde foi, por conta disso, certa feita, parar...
Passagens de sua presença no colégio dos beneditinos foram recorrentes. Numa delas estava a fazer prova de Português, matéria em que se destacava. Por sinal, cada novo professor, ao iniciar o ano letivo, pedia para os alunos fazerem uma dissertação, “tema livre”. Já no curso primário suas “composições” destacavam-se e eram expostas no quadro de avisos da sala de aula. As dissertações de André, segundo o filme de sua vida, eram lidas em voz alta pelos professores, comentadas, elogiadas pela boa qualidade dos textos. Mas um certo professor resolveu encrencar com o adolescente André. Uma cena, até certo ponto, revoltante. O aluno, sentado na fila da frente, concentrado na prova, escrevia com a mão direita e, sem perceber, mantinha a mão esquerda fechada. O tal professor cismado que havia uma “cola” no punho cerrado, exigiu a abertura da mão. André, de forma desafiadora, só concordou em estender os dedos em respeito aos apelos dos colegas. A mágoa ficou. Ao ter sua aprovação no vestibular confirmada, o professor teria comentado: “o André foi um dos meus melhores alunos nos beneditinos”. Era tarde o pedido de desculpas.
André não estranhou  uma cena particularmente marcante. Ganhara uma couraça, presente do pai. Tinha um ciúme doentio desse brinquedo. Porém, cometeu uma imprudência ao bater um “picadinho” na praça em frente ao Palácio dos Martírios. A bola seria capturada por um guarda-civil. O sujeito, de nome Vítor, torturou a criança com frases em que dizia claramente que a couraça de estimação estava no lixo, rasgada com fúria por malvados policiais, “seguindo orientações advindas do Palácio”. “Do Palácio!?” exclamou o garoto, e completaria, “moço, esse governo não tem o que fazer de mais importante?” Por fim, já anoitecendo, depois de lamuriosos apelos, o tal de Victor devolveu o brinquedo. O problema agora seria explicar ao pai o atraso do regresso ao lar...
Nunca foi um namorador contumaz. Na realidade, sempre foi muito tímido e algo desajeitado. Seu rosto era pequeno em relação aos largos ombros, o que lhe conferia uma certa desproporção corporal. Vestia-se com simplicidade roupas alinhavadas pela mãe, numa velha Singer. Seus sapatos eram reforçados por biqueiras e saltos em metal para durarem mais. Várias vezes, aparecia jogando, usando aqueles instrumentos belicosos, de reforçados bicos, temidos pelos estragos potenciais que poderiam produzir, à sombra dos oitizeiros do colégio dos beneditinos. Pelo conjunto da obra, até aquele momento, não se auto-classificava como um “macho alfa”, posto não provocar, aparentemente, nenhum frisson no público feminino.
Intrigado, descobriu-se a perguntar-se o que  namorados faziam ou falavam-se de tão interessante, em prolongados encontros quase diários. Na verdade, sempre preferira prostitutas a namoros mais sérios, daí as visualizações femininas sem nitidez, como a denunciar os passageiros “casos”.  André era mesmo focado em leituras. Queria passar num vestibular de uma grande instituição de ensino, como o seu pai, e, seguindo o raciocínio, ser um profissional respeitado.
De súbito, o filme do seu passado deu um branco e retornou a sua dramática encruzilhada. Procurava uma justificativa razoável que pudesse explicar o comportamento de Guiomar. Transtornado, incapaz de raciocinar com clareza, nada lhe ocorria a não ser a crueldade do destino, que, tragicamente, o marcou desde a concepção.
Veio-lhe então à mente a grave fisionomia paterna séria e tristonha. Vacilou. Mas alguma coisa haveria de fazer. Cresceu em ódios contra o seu amigo de infância. Não tinha dúvidas, fora ele quem botara sua mãe no caminho do mal. Sim, fora aquele canalha que de forma sub-reptícia fez sua mãe, uma santa mulher, corromper a sua alma bondosa, renunciando aos seus princípios morais e religiosos. Pensou em estrangular o amigo. “Um filho-da-puta!” Era terrível e desconcertante. André deixara de acreditar em alma, em outras vidas, em “planos superiores”, em “outra dimensão”...  Por fim, encheu-se de coragem. Daí em diante,  André não saberia mais narrar o ocorrido, se assim possível fosse. Suas últimas impressões, após arrombar a porta do quarto do rendez-vous,  teriam sido a dolorosa visão da sua mãe assustada, supostamente em felações, tentando esconder a nudez. Ele ainda ensaiaria  dizer-lhe que a perdoava,  mas apenas gemeu alto pela lancinante dor de um punhal a rasgar-lhe  o peito e  faze-lo suspirar, penosamente, pela última vez.
Maceió, 1997.
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quarta-feira, 6 de março de 2019

De fato, há um ambiente propício, facilitador no que tange ao encontro de duas pessoas do mesmo sexo. Há um clima nesse sentido, parece que Apolo cavalo perdeu as rédeas da censura e que seu pai Zeus decidiu ocupar-se de coisas mais importantes. O fato é que o Carnaval terminou de acabar. E o país passa por hábitos tão estranhos que certamente não são as coisas mais apresentáveis para a população. Sim o país é de velhos (e daí)?, mas ainda temos muitos crianças. E Creiam, inocentes!
Quantos aos septuagenários, classe etária a qual pertenço, pessoalmente, pouco coisa me choca, mas eu penso nos circunstantes e me reporto ao que o advogado José Alexandrino me disse:"não há balança para medir uma ofensa moral, assim como não há fita métrica para saber a extensão da ofensa.
Vivemos o tempo da mais alta divulgação. Ninguém faz nada sem testemunhas, Até o cara malandro que maliciosamente quer ter filmar, na sua própria casa, de forma marota, que está cometendo um crime de invasão de sua vida íntima, praticando o que se denomina conspurcação, está sendo marcado num vídeo de outrem. Essa coisa assume contornos jurídicos quando se sabe que o cara que lhe gravou é um dos seus advogados, e que não foi autorizado para tal.