O ENVELHECER DA CRÔNICA
Ilustres intelectuais, permitam-me dizer, alguns colegas de Academias Literárias e outros que não a buscam por a considerarem um ranço “de gosto pequeno-burguês”, ali e acolá, repito, há os que definam a crônica como um estilo híbrido, não vindo a ser um “puro-sangue” literário. Seguindo a cartilha, a crônica será “híbrida”(como o burro), ou seja, uma mistura de jornalismo com pitadas de literatura. Por esse viés, um tisna o outro. Dessa forma, nem é jornalismo, muito menos literatura.
Alguém já me disse, não sem acrimônia, que eu não seria, conceitualmente, um intelectual. Imaginem a minha decepção, pois até aquele exato instante, considerava-me, pretensiosamente, é claro, um “intelectual”. A Ficha caiu-me. Embora, como consolo, desde que colei grau em Medicina, em 1971, nunca tenha sido-me negada a condição de “médico”.
Conquanto aniódonos comentários, por mera teimosia, continuei a escrever textos para jornais, até o dia em que o próprio jornal, para o qual enviava, há duas décadas, semanalmente, minhas alinhavadas crônicas, cassou-me a palavra. Meus textos teriam sido considerados “malditos” pela mais importante mídia de Alagoas. Fazer o quê? A coluna vertebral anquilosou e impede-me de salamaleques.
Ainda assim, não obstante a negação frontal do talento de “intelectual de verdade” e de ter minhas palavras silenciadas pela mídia alagoana, continuei a produzir. Passei a publicar unicamente pela mídia social, denominada “Facebook”. Ignoro se sou bem ou mal lido. Acho que a segunda hipótese é a mais viável.
Nas horas em que me proponho a colecionar os tricentenários textos e publicá-los em forma de livros, deparo-me com uma irrefutável verdade: a crônica adquire tinturas senis. Ainda assim, mais uma vez, audaciosamente, sigo em frente. O máximo que me ocorre é datá-las. Talvez, para algum leitor mais curioso dar-se ao trabalho de confrontá-las com o momento histórico em que foram escritas.
Admito, e por isso peço desculpas, dar publicidade a textos sem a devida datação. É que, o que me sobra em ousadia, careço daquela diligente persistência dos colecionadores. Condescendentes leitores haverão de perdoar-me a indigência intelectual.
Maceió (Alagoas), maio de 2019
Ronald Cabral de Mendonça
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Cartas aos garotos: A Ditadura Militar 64-85
CARTA AOS GAROTOS
VCS QUE SÃO MENINOS DE ONTEM MERECEM INFORMAÇÕES. INFELIZMENTE, NÃO SABEM DA MISSA UM TERÇO. O QUE FAZIA PAULO COELHO NOS TEMPOS DA DITADURA MILITAR? VIVI ESSA ÉPOCA, TIVE CARRO, UM FUSCA 65, ESTUDAVA, NAMORAVA, FAZIA FARRAS ATÉ TARDE DA NOITE, FREQUENTAVA BORDEIS, IA AO BAR DO CHOPP COMEMORAR COM MEUS AMIGOS DE COLÉGIO... BRINCAVA CARNAVAL, COMEMORAVA O SÃO JOÃO E O NATAL, MAS LIA E ESTUDAVA MUITO. PASSEI NUM VESTIBULAR DE UMA FACULDADE FEDERAL, PARTICIPEI DO DIRETÓRIO SEBATIÃO DA HORA. MARQUEI PRESENÇA EM REUNIÕES DE PROTESTO, NA ESCOLA DE ENGENHARIA (UMA ESTUDANTE DE MEDICINA, QUE NÃO LEMBRO O NOME, TINHA SIDO PRESA EM IBIÚNA, SP, DURANTE UM CONGRESSO DE ESTUDANTES). COMO DIZIA, NOS INTERVALOS DOS COMÍCIOS, LIA-SE E "INTERPRETAVA-SE" MARX. ERA EVIDENTE QUE MUITOS DALI NÃO QUERIAM UM REGIME DEMOCRÁTICO. HAVIA UM, OU MAIS ESTUDANTES DE ENGENHARIA QUE PARECIAM TENTAR EXPLICAR OS DEVANEIOS MARXISTAS.
NAQUELA ÉPOCA JÁ EXISTIAM OS "ESQUERDISTAS REVOLUCIONÁRIOS" DE BARES TEMÁTICOS, QUE DISCUTIAM O COMUNISMO COMO ALGO IMINENTE, CABEÇAS CAMBALEANTES DO MALTE ESCOCÊS.
EU TINHA DEZESSEIS ANOS QUANDO JANGO BATEU O PÉ NA BUNDA E ESCAFEDEU-SE NAS SUAS TERRAS URUGUAIAS. O PAÍS FICOU ACÉFALO.
POR QUEM OS SINOS DOBRAM? POR "GUERRILHEIROS" QUE AQUI PRETENDIAM INSTALAR UMA NOVA CUBA? COELHO FAZIA PARTE DESSES GUEVARAS TUPINIQUINS, ELE, RAUL SEIXAS E TANTOS OUTROS. ERAM JOVENS DA CLASSE MÉDIA QUE CAIRAM NO CONTO DE VIGÁRIO QUE VISLUMBRAVA COMO FACTÍVEL UMA REVOLUÇÃO COMUNISTA. TINHAM COMO MODELO CHE GUEVARA.
VCS ESTAVAM NA BARRIGA DAS SUAS MÃES QUANDO COMEÇOU A LUTA ARMADA. NÃO FOI EM 1964. "GUERRILHEIROS" DERAM O PRIMEIRO PASSO. SEGUIAM UM DEMOLIDOR CATECISMO, DE UM BAIANO TINHOSO, EX-DEPUTADO, O CARLOS MARIGHELA, DE GUERRILHA URBANA, EMBORA HOUVESSE DISSIDENTES QUE PRECONIZAVAM A GUERRILHA NO INTERIOR, NO CAMPO). O FATO É QUE, SE NA CIDADE OU NO CAMPO, COMEÇARAM A ATERRORIZAR, ORGANIZARAM-SE EM "PONTOS", CRIARAM-SE SIGLAS, "PALMARES" E OUTRAS.
VALOROSOS E ATÉ DOCES CAMARADAS SABIAM QUE A LUTA ERA DESIGUAL, AINDA ASSIM PEGARAM EM ARMAS, HAVIA LISTAS DE CANDIDATOS AO PAREDÓN (EM CASO DE VITÓRIA DO COMUNISMO), NOS MOLDES GUEVARISTAS, EXECUÇÃO SUMÁRIA.
NA PEQUENA ILHA DO CARIBE, MILHARES FUGIRAM PARA MIAMI. AINDA ASSIM, FORAM ENTRE 15 E 20 MIL ASSASSINATOS SUMÁRIOS EM CORTE PRESIDIDA PELO PRÓPRIO CHE, AQUELE DO BONEZINHO, QUE DIZIA: " HAY QUE ENDURECER, MAS SIN PERDER LA TERNURA".
VIERAM OS SEQUESTROS DE EMBAIXADORES (SEQUESTRAR ALGUÉM, É OU NÃO É UMA FORMA DE TORTURA?), OS ASSALTOS A BANCOS EM PLENA LUZ DO DIA COM ARMAS SOFISTICADAS É OU NÃO É TORTURAR? ATÉ RESIDÊNCIAS PARTICULARES SERIAM ALVOS DE ROUBOS. SE VC IMAGINA O TAMANHO DO BRASIL, HÁ DE PENSAR-SE QUE EM CADA CANTO, EM CADA ESQUINA, EM CADA ÁRVORE EXISTIA UM PELOTÃO DE MILITARES. CRUEL ENGANO. A VIDA TRANSCORRIA DENTRO DE UMA NORMALIDADE ABSOLUTA. MAS, PARA AQUELES QUE SE ARMARAM, AOS QUE PRETENDIAM TRANSFORMAR O PAÍS NUM SATÉLITE SOVIETO-CUBANISTA, A VIDA DEVE TER SIDO BEM DIFÍCIL. ESSE PESSOAL ERA COOPTADO EM COLÉGIOS E UNIVERSIDADES PARA FAZER PEQUENOS TRABALHOS, COMO LEVAR RECADOS, ABRIGAR ALGUM FORAGIDO NA CASA DOS PAIS, DIRIGIR CARRO ROUBADO, NUM CRESCENDO DE ENVOLVIMENTO. DAÍ, AS PARTICIPAÇÕES AUMENTAVAM E SE TORNAVAM FORAGIDOS, ABANDONANDO A FACULDADE, A CONVIVÊNCIA FAMILIAR... OS ANTIGOS AMIGOS DE INFÂNCIA FICARIAM PARA TRÁS. VIRAVAM FANÁTICOS!
CONVENTOS SE TORNARIAM APRISCOS DE TERRORISTAS E RELIGIOSOS ERAM USADOS COMO POMBOS-CORREIO. FOI ATRAVÉS DESSES CARAS QUE A POLÍCIA CHEGOU AO MARIGHELA.
O LAMARCA E SUA NAMORADA SERIAM LOCALIZADOS POR MEIO DE UMA CARTA DE AMOR DE LAMARCA ENDEREÇADA A IARA IAVELBERG. PARA VC TER UMA IDEIA, NEM CARLOS PRESTES (O MENTOR DA INTENTONA COMUNISTA EM 1935) CONCORDAVA COM A LUTA ARMADA.
ONDE ESTARÍAMOS NÓS, EU, VOCÊ, SEUS PAIS, SEUS AVÓS, SEUS AMIGOS SE POR ACASO OS TERRORISTAS TIPO MARIGHELA, DILMA, ZÉDIRCEU, GENOÍNO, LAMARCA E OUTROS CHEGASSEM AO PODER ATRAVÉS DAS ARMAS?
O GABEIRA E TANTOS QUANTOS ESTÃO AÍ CONTANDO O QUE VIRAM, COMO ATIVISTAS, NOS BASTIDORES DOS SEQUESTROS. VÁRIOS EX-COMUNISTAS JÁ DERAM SEUS DEPOIMENTOS.
O EX-CAPITÃO, DESERTOR DO EXÉRCITO, CARLOS LAMARCA FAZIA JULGAMENTOS SUMÁRIOS, MATAVA A CORONHADAS. "GUERRILHEIROS ARREPENDIDOS" ERAM MORTOS PELOS PRÓPRIOS CAMARADAS.
NO RECIFE QUE AMAMOS TANTO, TERRORISTAS SOLTARAM UMA BOMBA DENTRO DO AEROPORTO. MAS ISSO PARECE QUE NÃO EXISTIU. A GENTE LÊ UM TEXTO COMO AQUELE ATRIBUÍDO AO PAULO COELHO E DAÍ CRIA-SE UM CLIMA DE QUE A POLÍCIA PEGAVA ALGUÉM ALEATORIAMENTE, DO NADA, DO NADA, LEVAVA PARA UM LUGAR DESERTO E LÁ DELICIAVA-SE COM TORTURAS GRATUITAS, UMA ESPÉCIE DE SADISMO.
DIA DESSES, PUBLIQUEI AQUI NO FACE ALGO QUE FEZ REFERÊNCIA A ELEIÇÕES. IMAGINEM O NÍVEL DE DESCONHECIMENTO, A JOVEM INDAGOU ESTUPEFATA: "ELEIÇÕES?! DURANTE O REGIME MILITAR!? ELA IGNORAVA QUE HAVIA ELEIÇÕES, CAMPANHAS, DESCONHECIA QUE HAVIA BIPARTIDARISMO, IGNORAVA QUE ERAM OS SULISTAS QUEM OFERECIAM A MAIOR RESISTÊNCIA AO REGIME, ELEGENDO PESSOAS DA OPOSIÇÃO.
NAQUELES TEMPOS, O NORDESTE ERA QUEM DAVA SUSTENTAÇÃO AOS MILICOS. SEMPRE POBRE E NECESSITADO, O NOSSO NORDESTE AJOELHAVA-SE DIANTE DO PODER DA ARENA, DO MESMO MODO QUE FAZ HOJE MOTIVADO PELO BOLSA FAMÍLIA. VEJAM FILHOS COMO AS COISAS SÃO. O NORDESTE NÃO MUDOU. CONTINUA A ACOCORAR-SE PARA ESMOLAR CARROS PIPAS, SACOLÕES E A ESMOLA DO BOLSA-FAMÍLIA.
OLHEM PARA AS FOTOS DAS SUAS INFÂNCIAS. VCS FORAM ADOLESCENTES NA DITADURA. VIRAM ALGO PARECIDO COM O QUE OCORREU COM A CABEÇA CHEIA DE ERVAS DO PAULO COELHO? UM ABRAÇO CARINHOSO DO VELHO TIO
VCS QUE SÃO MENINOS DE ONTEM MERECEM INFORMAÇÕES. INFELIZMENTE, NÃO SABEM DA MISSA UM TERÇO. O QUE FAZIA PAULO COELHO NOS TEMPOS DA DITADURA MILITAR? VIVI ESSA ÉPOCA, TIVE CARRO, UM FUSCA 65, ESTUDAVA, NAMORAVA, FAZIA FARRAS ATÉ TARDE DA NOITE, FREQUENTAVA BORDEIS, IA AO BAR DO CHOPP COMEMORAR COM MEUS AMIGOS DE COLÉGIO... BRINCAVA CARNAVAL, COMEMORAVA O SÃO JOÃO E O NATAL, MAS LIA E ESTUDAVA MUITO. PASSEI NUM VESTIBULAR DE UMA FACULDADE FEDERAL, PARTICIPEI DO DIRETÓRIO SEBATIÃO DA HORA. MARQUEI PRESENÇA EM REUNIÕES DE PROTESTO, NA ESCOLA DE ENGENHARIA (UMA ESTUDANTE DE MEDICINA, QUE NÃO LEMBRO O NOME, TINHA SIDO PRESA EM IBIÚNA, SP, DURANTE UM CONGRESSO DE ESTUDANTES). COMO DIZIA, NOS INTERVALOS DOS COMÍCIOS, LIA-SE E "INTERPRETAVA-SE" MARX. ERA EVIDENTE QUE MUITOS DALI NÃO QUERIAM UM REGIME DEMOCRÁTICO. HAVIA UM, OU MAIS ESTUDANTES DE ENGENHARIA QUE PARECIAM TENTAR EXPLICAR OS DEVANEIOS MARXISTAS.
NAQUELA ÉPOCA JÁ EXISTIAM OS "ESQUERDISTAS REVOLUCIONÁRIOS" DE BARES TEMÁTICOS, QUE DISCUTIAM O COMUNISMO COMO ALGO IMINENTE, CABEÇAS CAMBALEANTES DO MALTE ESCOCÊS.
EU TINHA DEZESSEIS ANOS QUANDO JANGO BATEU O PÉ NA BUNDA E ESCAFEDEU-SE NAS SUAS TERRAS URUGUAIAS. O PAÍS FICOU ACÉFALO.
POR QUEM OS SINOS DOBRAM? POR "GUERRILHEIROS" QUE AQUI PRETENDIAM INSTALAR UMA NOVA CUBA? COELHO FAZIA PARTE DESSES GUEVARAS TUPINIQUINS, ELE, RAUL SEIXAS E TANTOS OUTROS. ERAM JOVENS DA CLASSE MÉDIA QUE CAIRAM NO CONTO DE VIGÁRIO QUE VISLUMBRAVA COMO FACTÍVEL UMA REVOLUÇÃO COMUNISTA. TINHAM COMO MODELO CHE GUEVARA.
VCS ESTAVAM NA BARRIGA DAS SUAS MÃES QUANDO COMEÇOU A LUTA ARMADA. NÃO FOI EM 1964. "GUERRILHEIROS" DERAM O PRIMEIRO PASSO. SEGUIAM UM DEMOLIDOR CATECISMO, DE UM BAIANO TINHOSO, EX-DEPUTADO, O CARLOS MARIGHELA, DE GUERRILHA URBANA, EMBORA HOUVESSE DISSIDENTES QUE PRECONIZAVAM A GUERRILHA NO INTERIOR, NO CAMPO). O FATO É QUE, SE NA CIDADE OU NO CAMPO, COMEÇARAM A ATERRORIZAR, ORGANIZARAM-SE EM "PONTOS", CRIARAM-SE SIGLAS, "PALMARES" E OUTRAS.
VALOROSOS E ATÉ DOCES CAMARADAS SABIAM QUE A LUTA ERA DESIGUAL, AINDA ASSIM PEGARAM EM ARMAS, HAVIA LISTAS DE CANDIDATOS AO PAREDÓN (EM CASO DE VITÓRIA DO COMUNISMO), NOS MOLDES GUEVARISTAS, EXECUÇÃO SUMÁRIA.
NA PEQUENA ILHA DO CARIBE, MILHARES FUGIRAM PARA MIAMI. AINDA ASSIM, FORAM ENTRE 15 E 20 MIL ASSASSINATOS SUMÁRIOS EM CORTE PRESIDIDA PELO PRÓPRIO CHE, AQUELE DO BONEZINHO, QUE DIZIA: " HAY QUE ENDURECER, MAS SIN PERDER LA TERNURA".
VIERAM OS SEQUESTROS DE EMBAIXADORES (SEQUESTRAR ALGUÉM, É OU NÃO É UMA FORMA DE TORTURA?), OS ASSALTOS A BANCOS EM PLENA LUZ DO DIA COM ARMAS SOFISTICADAS É OU NÃO É TORTURAR? ATÉ RESIDÊNCIAS PARTICULARES SERIAM ALVOS DE ROUBOS. SE VC IMAGINA O TAMANHO DO BRASIL, HÁ DE PENSAR-SE QUE EM CADA CANTO, EM CADA ESQUINA, EM CADA ÁRVORE EXISTIA UM PELOTÃO DE MILITARES. CRUEL ENGANO. A VIDA TRANSCORRIA DENTRO DE UMA NORMALIDADE ABSOLUTA. MAS, PARA AQUELES QUE SE ARMARAM, AOS QUE PRETENDIAM TRANSFORMAR O PAÍS NUM SATÉLITE SOVIETO-CUBANISTA, A VIDA DEVE TER SIDO BEM DIFÍCIL. ESSE PESSOAL ERA COOPTADO EM COLÉGIOS E UNIVERSIDADES PARA FAZER PEQUENOS TRABALHOS, COMO LEVAR RECADOS, ABRIGAR ALGUM FORAGIDO NA CASA DOS PAIS, DIRIGIR CARRO ROUBADO, NUM CRESCENDO DE ENVOLVIMENTO. DAÍ, AS PARTICIPAÇÕES AUMENTAVAM E SE TORNAVAM FORAGIDOS, ABANDONANDO A FACULDADE, A CONVIVÊNCIA FAMILIAR... OS ANTIGOS AMIGOS DE INFÂNCIA FICARIAM PARA TRÁS. VIRAVAM FANÁTICOS!
CONVENTOS SE TORNARIAM APRISCOS DE TERRORISTAS E RELIGIOSOS ERAM USADOS COMO POMBOS-CORREIO. FOI ATRAVÉS DESSES CARAS QUE A POLÍCIA CHEGOU AO MARIGHELA.
O LAMARCA E SUA NAMORADA SERIAM LOCALIZADOS POR MEIO DE UMA CARTA DE AMOR DE LAMARCA ENDEREÇADA A IARA IAVELBERG. PARA VC TER UMA IDEIA, NEM CARLOS PRESTES (O MENTOR DA INTENTONA COMUNISTA EM 1935) CONCORDAVA COM A LUTA ARMADA.
ONDE ESTARÍAMOS NÓS, EU, VOCÊ, SEUS PAIS, SEUS AVÓS, SEUS AMIGOS SE POR ACASO OS TERRORISTAS TIPO MARIGHELA, DILMA, ZÉDIRCEU, GENOÍNO, LAMARCA E OUTROS CHEGASSEM AO PODER ATRAVÉS DAS ARMAS?
O GABEIRA E TANTOS QUANTOS ESTÃO AÍ CONTANDO O QUE VIRAM, COMO ATIVISTAS, NOS BASTIDORES DOS SEQUESTROS. VÁRIOS EX-COMUNISTAS JÁ DERAM SEUS DEPOIMENTOS.
O EX-CAPITÃO, DESERTOR DO EXÉRCITO, CARLOS LAMARCA FAZIA JULGAMENTOS SUMÁRIOS, MATAVA A CORONHADAS. "GUERRILHEIROS ARREPENDIDOS" ERAM MORTOS PELOS PRÓPRIOS CAMARADAS.
NO RECIFE QUE AMAMOS TANTO, TERRORISTAS SOLTARAM UMA BOMBA DENTRO DO AEROPORTO. MAS ISSO PARECE QUE NÃO EXISTIU. A GENTE LÊ UM TEXTO COMO AQUELE ATRIBUÍDO AO PAULO COELHO E DAÍ CRIA-SE UM CLIMA DE QUE A POLÍCIA PEGAVA ALGUÉM ALEATORIAMENTE, DO NADA, DO NADA, LEVAVA PARA UM LUGAR DESERTO E LÁ DELICIAVA-SE COM TORTURAS GRATUITAS, UMA ESPÉCIE DE SADISMO.
DIA DESSES, PUBLIQUEI AQUI NO FACE ALGO QUE FEZ REFERÊNCIA A ELEIÇÕES. IMAGINEM O NÍVEL DE DESCONHECIMENTO, A JOVEM INDAGOU ESTUPEFATA: "ELEIÇÕES?! DURANTE O REGIME MILITAR!? ELA IGNORAVA QUE HAVIA ELEIÇÕES, CAMPANHAS, DESCONHECIA QUE HAVIA BIPARTIDARISMO, IGNORAVA QUE ERAM OS SULISTAS QUEM OFERECIAM A MAIOR RESISTÊNCIA AO REGIME, ELEGENDO PESSOAS DA OPOSIÇÃO.
NAQUELES TEMPOS, O NORDESTE ERA QUEM DAVA SUSTENTAÇÃO AOS MILICOS. SEMPRE POBRE E NECESSITADO, O NOSSO NORDESTE AJOELHAVA-SE DIANTE DO PODER DA ARENA, DO MESMO MODO QUE FAZ HOJE MOTIVADO PELO BOLSA FAMÍLIA. VEJAM FILHOS COMO AS COISAS SÃO. O NORDESTE NÃO MUDOU. CONTINUA A ACOCORAR-SE PARA ESMOLAR CARROS PIPAS, SACOLÕES E A ESMOLA DO BOLSA-FAMÍLIA.
OLHEM PARA AS FOTOS DAS SUAS INFÂNCIAS. VCS FORAM ADOLESCENTES NA DITADURA. VIRAM ALGO PARECIDO COM O QUE OCORREU COM A CABEÇA CHEIA DE ERVAS DO PAULO COELHO? UM ABRAÇO CARINHOSO DO VELHO TIO
TEXTO MEMORIAL DE MEU PAI, JOSÉ LOPES DE MENDONÇA, DE 1991
TEXTO MEMORIALISTA DE JOSÉ LOPES DE MENDONÇA.
SERÁ ESCRITO EM 1991, LOGO APÓS O CONFISCO PROMOVIDO PELO ENTÃO PRESIDENTE, FERNANDO COLLOR DE MELLO.
TRANSCREVO:
“No limiar dos meus 70 (setenta) anos de idade e aos 45 anos de profissão médica, tive meus bens em espécie monetária congelados, por isso convém esclarecer as suas origens. As minhas economias, que foram congeladas de acordo com o plano econômico do modelo “Brasil Novo”, não representam um montante de especulação, mas um pequeno patrimônio construído através de lutas e trabalho incessantes iniciados no ano de 1946.
Formado em Medicina pela Universidade de Medicina do Recife (porque no estado de Alagoas, na época, não havia nem o curso complementar pré-médico, que equivale ao 2º grau atual, calculem pensar em curso universitário!). Assim, fiquei no Recife, de 1938 a 1945, primeiro cursando o pré-médico (1938-1939 e o curso médico de 1940-1945). Nesse período, tornei-me reservista de 2ª categoria, servindo no Tiro de Guerra, 333, sediado em Olinda.
Durante o curso médico, fui convocado para serviço ativo e com vistas a ser enviado à FEB, para os campos de batalha na Itália. Nesse ano, sofri a maior perda da minha vida, a morte de meu pai, aos 50 anos de idade que, profundamente emocionado com a minha convocação para o serviço ativo do Exército e prevendo a interrupção dos meus estudos médicos, foi acometido de crise hipertensiva com edema agudo do pulmão, falecendo em poucos instantes, na presença de equipe médica do Pronto Socorro de Maceió. Ainda permaneci na 7ª Formação Sanitária Nacional, acantonada em Monteiro, bairro do Recife, durante 07 (sete) meses, quando fui desincorporado por requerimento de minha mãe, justificando a qualidade do filho mais velho e, consequentemente, arrimo de família.
Muita luta, muito sacrifício para concluir os três últimos anos do curso médico - 4°,5º e 6° anos. Só a determinação de obter a formação de médico fez superar a indiscutível crise. Amigos e parentes aconselhavam-me a suspender o curso e candidatar-me em concursos de bancos. Evidentemente fui obrigado a trabalhar concomitantemente com os estudos de medicina. Trabalhei em laboratórios farmacêuticos, como propagandista e vendedor, para obter o necessário à subsistência e ajuda à minha mãe e os três irmãos menores. Fiz cursos e estágios que me garantiram a formação de generalista: fui acadêmico-interno de hospitais e por fim, realizei cursos de especialização em Psiquiatria e Medicina e também, em época distinta, em Higiene do Trabalho.
Ainda com 12 (doze) anos de formado não possuía casa própria nem carro. Mas, acima de tudo, estava na minha determinação a lembrança da figura do meu pai, que perdeu todos os bens, na crise do açúcar bruto, de 1930 em diante. Portanto, não gastava tudo o que ganhava e sempre fazia pequenas economias do que restava dos empregos e do exercício liberal da profissão.
Dessa forma, pude, em 1960, alugar uma casa nova de dois pavimentos e instalar uma pequena cínica psiquiátrica, com consultório. Dois anos depois, em 1962, com o mesmo sistema de economias, adquiri uma casa maior que me foi oferecida pelos tradicionais industriais do
Estado, Leão Irmãos, que me cederam um belo imóvel provido de um pomar, com prestações mensais, em 5 (cinco) anos. Assim, ampliei a minha Clínica. O processo inflacionário, já em curso, favoreceu, ilusoriamente, o pagamento da minha dívida, conseguindo saldá-la no tempo acertado.
Passei a ampliar a Clínica, atendendo os pacientes da Capital e do Interior, e a minha família constituída de 10 (dez) filhos, com a minha esposa, compunham a equipe que proporcionou o nosso crescimento. As nossas economias foram utilizadas na ampliação da Clínica, na compra de materiais, eletrodomésticos, técnicos etc. Também permitiram que se fizesse aplicação em Over e em Poupança, sistemas financeiros criados pelo governo e estimulados pelo próprio governo. Mas, apesar das aplicações, nunca ficamos em berço esplêndido, aguardando somente o recebimento dos enganosos lucros do sistema financeiro da época.
Continuamos trabalhando na Medicina e proporcionando o bem-estar de inúmeros alagoanos e de outros pacientes de longínquas plagas; porque a nossa Clínica, ao visar o bem-estar dos pacientes, tem obtido a preferência da clientela e o nosso nome tem se projetado em todo o País.”
SERÁ ESCRITO EM 1991, LOGO APÓS O CONFISCO PROMOVIDO PELO ENTÃO PRESIDENTE, FERNANDO COLLOR DE MELLO.
TRANSCREVO:
“No limiar dos meus 70 (setenta) anos de idade e aos 45 anos de profissão médica, tive meus bens em espécie monetária congelados, por isso convém esclarecer as suas origens. As minhas economias, que foram congeladas de acordo com o plano econômico do modelo “Brasil Novo”, não representam um montante de especulação, mas um pequeno patrimônio construído através de lutas e trabalho incessantes iniciados no ano de 1946.
Formado em Medicina pela Universidade de Medicina do Recife (porque no estado de Alagoas, na época, não havia nem o curso complementar pré-médico, que equivale ao 2º grau atual, calculem pensar em curso universitário!). Assim, fiquei no Recife, de 1938 a 1945, primeiro cursando o pré-médico (1938-1939 e o curso médico de 1940-1945). Nesse período, tornei-me reservista de 2ª categoria, servindo no Tiro de Guerra, 333, sediado em Olinda.
Durante o curso médico, fui convocado para serviço ativo e com vistas a ser enviado à FEB, para os campos de batalha na Itália. Nesse ano, sofri a maior perda da minha vida, a morte de meu pai, aos 50 anos de idade que, profundamente emocionado com a minha convocação para o serviço ativo do Exército e prevendo a interrupção dos meus estudos médicos, foi acometido de crise hipertensiva com edema agudo do pulmão, falecendo em poucos instantes, na presença de equipe médica do Pronto Socorro de Maceió. Ainda permaneci na 7ª Formação Sanitária Nacional, acantonada em Monteiro, bairro do Recife, durante 07 (sete) meses, quando fui desincorporado por requerimento de minha mãe, justificando a qualidade do filho mais velho e, consequentemente, arrimo de família.
Muita luta, muito sacrifício para concluir os três últimos anos do curso médico - 4°,5º e 6° anos. Só a determinação de obter a formação de médico fez superar a indiscutível crise. Amigos e parentes aconselhavam-me a suspender o curso e candidatar-me em concursos de bancos. Evidentemente fui obrigado a trabalhar concomitantemente com os estudos de medicina. Trabalhei em laboratórios farmacêuticos, como propagandista e vendedor, para obter o necessário à subsistência e ajuda à minha mãe e os três irmãos menores. Fiz cursos e estágios que me garantiram a formação de generalista: fui acadêmico-interno de hospitais e por fim, realizei cursos de especialização em Psiquiatria e Medicina e também, em época distinta, em Higiene do Trabalho.
Ainda com 12 (doze) anos de formado não possuía casa própria nem carro. Mas, acima de tudo, estava na minha determinação a lembrança da figura do meu pai, que perdeu todos os bens, na crise do açúcar bruto, de 1930 em diante. Portanto, não gastava tudo o que ganhava e sempre fazia pequenas economias do que restava dos empregos e do exercício liberal da profissão.
Dessa forma, pude, em 1960, alugar uma casa nova de dois pavimentos e instalar uma pequena cínica psiquiátrica, com consultório. Dois anos depois, em 1962, com o mesmo sistema de economias, adquiri uma casa maior que me foi oferecida pelos tradicionais industriais do
Estado, Leão Irmãos, que me cederam um belo imóvel provido de um pomar, com prestações mensais, em 5 (cinco) anos. Assim, ampliei a minha Clínica. O processo inflacionário, já em curso, favoreceu, ilusoriamente, o pagamento da minha dívida, conseguindo saldá-la no tempo acertado.
Passei a ampliar a Clínica, atendendo os pacientes da Capital e do Interior, e a minha família constituída de 10 (dez) filhos, com a minha esposa, compunham a equipe que proporcionou o nosso crescimento. As nossas economias foram utilizadas na ampliação da Clínica, na compra de materiais, eletrodomésticos, técnicos etc. Também permitiram que se fizesse aplicação em Over e em Poupança, sistemas financeiros criados pelo governo e estimulados pelo próprio governo. Mas, apesar das aplicações, nunca ficamos em berço esplêndido, aguardando somente o recebimento dos enganosos lucros do sistema financeiro da época.
Continuamos trabalhando na Medicina e proporcionando o bem-estar de inúmeros alagoanos e de outros pacientes de longínquas plagas; porque a nossa Clínica, ao visar o bem-estar dos pacientes, tem obtido a preferência da clientela e o nosso nome tem se projetado em todo o País.”
domingo, 10 de março de 2019
um conto de férias
UM CONTO DE FÉRIAS
Ronald Mendonça
A carona de um colega de faculdade fez
André antecipar em algumas horas seu retorno, a contrariar a ideia inicial de
voltar de avião. O velho casarão estava quase às escuras, o silêncio apenas
rompido pelo som da televisão, cuja luminosidade o atraiu até
o quarto do seu pai, que cochilava numa preguiçosa. Aproximou-se com cuidado e
alisou sua cabeleira branca e farta fazendo-o despertar meio assustado. O
abraço comovido selou aquele reencontro, depois de quase um ano em que não se
viam. O velho pai estava saudoso do filho único. Mal começaram a
conversar e a voz da mãe se fez ouvir, determinando ao motorista onde deveria
guardar as compras.
Foi uma surpresa muito agradável.
Gentil e bonita, elegante, mais magra, a mãe pareceu-lhe muito
jovem, sobretudo quando comparada ao pai que, a seus olhos, muito
envelhecera. A postura materna contrastava com o despojamento
do velho pai que, além de tudo, tinha um ar melancólico.
Achou legal rever o seu amigo de
infância, Zé Luiz, hoje motorista da família. Filho da falecida lavadeira da
casa, praticamente cresceram juntos. André, três anos mais moço, filho
único, nutria fraterna afeição e lamentava sinceramente o fato de o
amigo haver desprezado as oportunidades em relação aos estudos. Chegaram
a frequentar o mesmo colégio particular, mas Zé Luiz gostava mesmo era de jogar
bola e pegar passarinho na pequena mata próxima à casa.
Logo cedo do dia seguinte, André acordou
com disposição de dar uma volta no sítio. Queria rever tudo. Eram saudades
imensas. Tudo o emocionava. Os exatos cem coqueiros que cinco anos antes o pai
havia plantado, ali estavam. Os patos, as galinhas, os porcos... Até festa
fizeram ao vê-lo. O cheiro da marisia da lagoa penetrava nas suas narinas e o
inebriavam de satisfação. Enquanto se detinha em cada pezinho de mato,
lembrou-se do pai. Que estaria acontecendo para ele andar tão triste? Iria
tentar descobrir...
A lâmpada da suspeita acendeu ao voltar
do sítio. Presenciou, de longe, sem ser notado, o seu amigo de infância
Zé Luiz dirigir-se a sua mãe sem o respeito esperado. Parecia que o motorista
falava com inusual insolência. Que diabo estava acontecendo? As pessoas daquela
casa enlouqueceram? Para completar, o cara entrou no carro e sair arrastando
os pneus.
André não ficou feliz com o que viu. Sob
tensão, voltou aos aposentos dos pais para sondar alguma coisa. Remexendo o
guarda-roupa encontrou, surpreso, o velho punhal enferrujado de
cabo de madre pérola que pertencera ao avô. Supunha-o perdido. Instintivamente
o escondeu dentro da camisa e o guardou no seu quarto, sob o travesseiro.
O ambiente da casa não era o mesmo. Sim, com a sua chegada, a inteligência, o raciocínio rápido de Anízio aparentemente voltavam ao seu estado de normalidade. Trabalhava menos, construíra um verdadeiro império do Direito e comandava com mãos firmes um poderoso escritório com capilaridade que captava os casos complicados de bancas menores. Era um timoneiro experiente, culto, dava aulas na Universidade, era convidado para fazer palestras, conferências em vários pontos do continente. Grandes bancas jurídicas o consultavam sub-rosa e ele cobrava caro pela consultoria. Tinha uma belíssima biblioteca, tudo catalogado por profissionais da área. Era, de fato, um advogado brilhante e muito influente. Sabia a hora de atuar. Como todo advogado, tinha clientes de todas as matizes morais. Mas, nos últimos anos dava-se ao desfrute de recusar até causas milionárias. Não se permitia defender assassinos de aluguel, gente do sindicato do crime, pedófilos e outros patifes. Ladrões que saqueavam os cofres públicos não encontravam guarida no Dr. Anízio. Acumulara uma boa reserva financeira decorrente de causas de funcionários públicos sufocados por planos cafajestes. Poder-se-ia dizer que Dr. Anízio conhecia as vísceras mais recônditas, mais infectadas da Sociedade. Estava naquela situação em que não se confia mais nos homens e não acreditava em milagres.
Por outro lado, para André, os
empregados mais antigos davam a impressão de estarem a evitá-lo. Decidido a
tirar tudo a limpo, passaria a desconfiar de todos. Na adolescência adorava
contos policiais e era leitor recorrente de X-9 e Sherlock Holmes. Sim, era
verdade: às vezes sentia-se perseguido, observado... Dizia que convivia bem com
a sua paranoia. Procurava livrar-se desses excessos, mas agora as impressões
eram mais fortes que ele. Imaginou até seus pais sendo chantageados pelo
motorista, por algum motivo que precisava descobrir. Para aumentar o clima de
suspense, o velho punhal de madre pérola sumira de sua cama.
Não se consentia pensar em qualquer
atitude que denegrisse a imagem da mãe. Era uma santa. Além da sólida formação
moral, era de uma religiosidade a toda prova. Faziam refeições nos horários habituais. Era interrogado pelos pais sobre sua vida distante do lar. Eles testavam a resiliência do filho, a capacidade de resolver suas coisas de forma independente, sem as peias e o abrigo dos genitores. O pai interessava-se particularmente sobre os conhecimentos adquiridos depois do ingresso na faculdade. Eram conversas amenas, mas pressentia-se, para André, que algo não ia bem no relacionamento dos pais.
A despeito de, rigorosamente, nada ter
visto de concreto, a última semana das férias foi de expectativas e de
puro sofrimento. O pai registrou essa ansiedade. Estaria apaixonado? Ou continuava com a sua política de não envolvimento mais profundo?
André planejou uma estratégia. Faltando apenas um dia para voltar
para a faculdade, fanático pelo CSA, no domingo, fez chegar a todos
da casa que iria ao Trapichão, assistir ao jogo final do campeonato. Na
última hora, conseguiu o carro de um colega emprestado e fingiu dirigir-se
ao estádio. Ficou na espreita, perto de casa. Intuía que alguma coisa
importante iria acontecer.
Às cinco da tarde, cautelosamente,
acompanhou o automóvel da família que ganhara a rua, Zé Luiz no volante. Foi
com extremo alívio que, de longe, avistou a mãe descer na porta da
Igreja. André não arredaria de onde estava. Quinze minutos se passaram
até ver o carro do pai novamente em movimento. Com o coração aos
pulos, segui-o em direção à periferia da cidade.
Não havia certeza de que a mãe entrara
naquele carro. Indeciso, esperou intermináveis minutos próximo à entrada de um
motel, onde o automóvel da mãe se escafedera. Deus! o que era isso... Pensou em
desistir. Decididamente, não tinha condições emocionais de presenciar o que
estava a antever. O que imaginava estava muito além do que poderia
suportar.
Como se assistisse a um velho filme
congelado na sua mente, cenas de sua vida foram exibidas numa tela imaginária.
Era como se o velho Clóvis, centroavante do CSA e funcionário do SESI, as
comandasse. Estaria alucinando? Chegou a voltar a cabeça para, na escuridão do
seu cérebro conturbado, tentar enxergar o velho atleta, ídolo da sua infância.
Cenas indeléveis da sua casa na Chã de Bebedouro, na Osvaldo Cruz Nº 500. O
pai, jovem advogado impetuoso, antevia uma grande causa que o livrasse da
mediocridade e das dificuldades financeiras. No início, suas atividades
resumiam-se a pequenas causas, brigas de vizinhos, entreveros de parentes,
quase biscates. Decerta forma assimilara a arrogância de certos advogados,
famosos pela perspicácia, mas sobretudo pelas vultosos honorários. Reatou
amizades com notários, antigos colegas de colégio que o recomendavam. Sempre
foi sério, estudioso, avesso a farras. Mal e porcamente frequentava o Bar
Colombo, aos sábados, apenas para marcar presença, mas lá não se demorava.
Formara-se em Olinda em difíceis tempos.
Esteva com um pé na Segunda Guerra quando ela acabou. Para concluir o curso de
Direito humilhara-se em sub-empregos. De certa forma, o pequeno soldo do
Exército reanimara-lhe os brios. Iria vencer, sim. Sua “grande causa” chegaria
aos quarenta anos. Outas causas foram se sucedendo. Não queria tanto. Tinha
apenas um filho, o André.
Educou-o com moderada disciplina,
seguindo os costumes da época. Nunca admitiu que seu filho único chegasse em
casa com nota que não beirasse o dez. Erguia as temidas sobrancelhas e dizia:
”eu não avisei que você estava inseguro naquelas datas? A sua nota baixa (9,7)
deve ter sido por isso”. E completava: “vamos fazer um serão e repassar essas
lições”. Aos sábados à tarde André faxinava os sapatos próprios e os dos pais.
Deixava de molho e no domingo engraxava e dava o polimento. Como prêmio,
recebia autorização para ir ao cinema, com direito a verba extra para adquirir
alguns gibis em barganhas na porta do cinema.
O imaginário filme da sua vida não poupou
as pequenas alegrias domésticas, as comemorações dos aniversários, o de Anísio,
o pai, coincidia com a véspera de São João e o de Guiomar a antevéspera do
Natal. Havia sempre uma buchada, no São João, e um peru, no Natal. Naquela
casa, comemorava-se o Natal no dia 23 de dezembro. Foi nessas brincadeiras que
André, ainda adolescente, arriscava-se na sangria do vinho. Para horror de
Guiomar, Anísio fazia vistas grossas à traquinagem do unigênito filho. Passados
os festejos a ordem voltava a imperar na casa de André. O pai, ao silêncio das
noites tentava justificar: “mulher, nós temos um menino exemplar, que nos dá
imensas alegrias. Nesse ano foram seis medalhas de ouro, no
Colégio; bem, teve uma de prata, é verdade...”
O filme revia cenas que André já não mais
se lembrava: as mornas tardes, na pequena varanda, com a cara enfiada nos
livros e também a observar a mãe catita cuidando das roseiras, maldizendo as
temíveis saúvas. De vez em quando, o olhar materno em sua direção a lembra-lo
que iria tomar as lições. Mas era à noite a prova final, quando Dr. Anízio, ar
carrancudo, iria dar o veredictum sobre a qualidade do aprendizado do garoto.
Não admitia gaguejos ou vacilações. Quase um acidente de percurso, chegou a passar
um mês num seminário. Ouvia-se dizer, entre risos, que Deus (na sua infinita
misericórdia) lhe aparecera em sonho a perguntar-lhe o que ele, André, estaria
fazendo naquele local, a ocupar lugar de outros, certamente, mais vocacionados
ao celibato e às adorações.
Dona Guiomar, a mãe, que não fizera
festas quando o filho comunicara suas pias intenções, também tivera seus
maus bocados. Passara a infância e adolescência entre freiras. Menina pobre do
interior, perdera o pai aos quatro anos. Daí em diante seus pais foram as irmãs
claretianas. Esteve à beira de confirmar os votos, até que, numa missa
dominical, avistou aquele seria seu príncipe encantado, alto, vasta cabeleira,
rosto bem conformado, enfeitado com charmosos bigodes, não obstante quase imberbe.
Durante a celebração, foi fulminada pelos olhos negros do futuro e promissor
causídico. Um discreto e acanhado sorriso era a confirmação do flerte.
Assim, nasceria uma linda história de
amor entre a tímida órfã e o destemido soldado do Exército brasileiro,
estudante da tradicional Faculdade de Direito de Olinda. Romântica, a bela
Guiomar predestinou o futuro marido ao encalço do Hitler, como o lendário
sãomiguelense Zé da Júlia, nas distantes montanhas do conflagrado Velho Mundo.
André reviu seus desencantamentos por ser
filho único. Aparecia a cobrar da mãe essa condição, para ele, de
inferioridade, posto que seus amigos de colégio surgiam na fita a falar
dos irmãos, narrando incidentes, convivências, brigas e outros que tais das
grandes famílias Somente ele e mais um ou dois colegas não tinham irmãos. Nessa
fita retrospectiva, a mãe aparecia a dizer-lhe, melancolicamente, furtivas
lágrimas a perolar a face, que durante o parto de André tivera um forte
sangramento. Estivera às portas da morte, fora operada na “bacia das almas”,
contudo a sobrevivência teve um preço: a “condenação” a não ter outros filhos.
Talvez por isso, essa necessidade em André de superar essa espécie de “peça”
preparada pelo destino. Um misto de decepção e até de culpa por ter sido,
involuntariamente, é claro, causador da infertilidade materna.
Num relance de flash back surgiram
o velocípede e a bicicleta. O futebol, as peladas no bairro e na praia, os
bailinhos, as festas carnavalescas, os porres de lança-perfurme em plena Rua do
Comércio, os corsos, os grandes passistas, os festejos natalinos, os amassos
nas festas de rua em Fernão Velho e Rio Largo, os entreveros físicos, trocas de
socos e pontapés em ônibus, a ida à Delegacia de Polícia onde foi, por conta
disso, certa feita, parar...
Passagens de sua presença no colégio dos
beneditinos foram recorrentes. Numa delas estava a fazer prova de Português,
matéria em que se destacava. Por sinal, cada novo professor, ao iniciar o ano
letivo, pedia para os alunos fazerem uma dissertação, “tema livre”. Já no curso
primário suas “composições” destacavam-se e eram expostas no quadro de avisos
da sala de aula. As dissertações de André, segundo o filme de sua vida, eram
lidas em voz alta pelos professores, comentadas, elogiadas pela boa qualidade
dos textos. Mas um certo professor resolveu encrencar com o adolescente André.
Uma cena, até certo ponto, revoltante. O aluno, sentado na fila da frente,
concentrado na prova, escrevia com a mão direita e, sem perceber, mantinha a
mão esquerda fechada. O tal professor cismado que havia uma “cola” no punho
cerrado, exigiu a abertura da mão. André, de forma desafiadora, só concordou em
estender os dedos em respeito aos apelos dos colegas. A mágoa ficou. Ao ter sua
aprovação no vestibular confirmada, o professor teria comentado: “o André foi
um dos meus melhores alunos nos beneditinos”. Era tarde o pedido de desculpas.
André não estranhou uma cena
particularmente marcante. Ganhara uma couraça, presente do pai. Tinha um ciúme
doentio desse brinquedo. Porém, cometeu uma imprudência ao bater um “picadinho”
na praça em frente ao Palácio dos Martírios. A bola seria capturada por um
guarda-civil. O sujeito, de nome Vítor, torturou a criança com frases em que
dizia claramente que a couraça de estimação estava no lixo, rasgada com fúria
por malvados policiais, “seguindo orientações advindas do Palácio”. “Do
Palácio!?” exclamou o garoto, e completaria, “moço, esse governo não tem o que
fazer de mais importante?” Por fim, já anoitecendo, depois de lamuriosos
apelos, o tal de Victor devolveu o brinquedo. O problema agora seria explicar
ao pai o atraso do regresso ao lar...
Nunca foi um namorador contumaz. Na
realidade, sempre foi muito tímido e algo desajeitado. Seu rosto era pequeno em
relação aos largos ombros, o que lhe conferia uma certa desproporção corporal.
Vestia-se com simplicidade roupas alinhavadas pela mãe, numa velha Singer. Seus
sapatos eram reforçados por biqueiras e saltos em metal para durarem mais.
Várias vezes, aparecia jogando, usando aqueles instrumentos belicosos, de
reforçados bicos, temidos pelos estragos potenciais que poderiam produzir, à
sombra dos oitizeiros do colégio dos beneditinos. Pelo conjunto da obra, até
aquele momento, não se auto-classificava como um “macho alfa”, posto não
provocar, aparentemente, nenhum frisson no público feminino.
Intrigado, descobriu-se a perguntar-se o
que namorados faziam ou falavam-se de tão interessante, em prolongados
encontros quase diários. Na verdade, sempre preferira prostitutas a namoros
mais sérios, daí as visualizações femininas sem nitidez, como a denunciar os
passageiros “casos”. André era mesmo focado em leituras. Queria passar
num vestibular de uma grande instituição de ensino, como o seu pai, e, seguindo
o raciocínio, ser um profissional respeitado.
De súbito, o filme do seu passado deu um
branco e retornou a sua dramática encruzilhada. Procurava uma justificativa
razoável que pudesse explicar o comportamento de Guiomar. Transtornado, incapaz
de raciocinar com clareza, nada lhe ocorria a não ser a crueldade do destino,
que, tragicamente, o marcou desde a concepção.
Veio-lhe então à mente a grave fisionomia
paterna séria e tristonha. Vacilou. Mas alguma coisa haveria de fazer. Cresceu
em ódios contra o seu amigo de infância. Não tinha dúvidas, fora ele quem
botara sua mãe no caminho do mal. Sim, fora aquele canalha que de forma
sub-reptícia fez sua mãe, uma santa mulher, corromper a sua alma bondosa,
renunciando aos seus princípios morais e religiosos. Pensou em estrangular o
amigo. “Um filho-da-puta!” Era terrível e desconcertante. André deixara de
acreditar em alma, em outras vidas, em “planos superiores”, em “outra
dimensão”... Por fim, encheu-se de coragem. Daí em diante, André
não saberia mais narrar o ocorrido, se assim possível fosse. Suas últimas
impressões, após arrombar a porta do quarto do rendez-vous, teriam sido a
dolorosa visão da sua mãe assustada, supostamente em felações, tentando
esconder a nudez. Ele ainda ensaiaria dizer-lhe que a perdoava, mas
apenas gemeu alto pela lancinante dor de um punhal a rasgar-lhe o peito
e faze-lo suspirar, penosamente, pela última vez.
Maceió, 1997.
Enviado do Email para Windows 10
quarta-feira, 6 de março de 2019
De fato, há um ambiente propício, facilitador no que tange ao encontro de duas pessoas do mesmo sexo. Há um clima nesse sentido, parece que Apolo cavalo perdeu as rédeas da censura e que seu pai Zeus decidiu ocupar-se de coisas mais importantes. O fato é que o Carnaval terminou de acabar. E o país passa por hábitos tão estranhos que certamente não são as coisas mais apresentáveis para a população. Sim o país é de velhos (e daí)?, mas ainda temos muitos crianças. E Creiam, inocentes!
Quantos aos septuagenários, classe etária a qual pertenço, pessoalmente, pouco coisa me choca, mas eu penso nos circunstantes e me reporto ao que o advogado José Alexandrino me disse:"não há balança para medir uma ofensa moral, assim como não há fita métrica para saber a extensão da ofensa.
Vivemos o tempo da mais alta divulgação. Ninguém faz nada sem testemunhas, Até o cara malandro que maliciosamente quer ter filmar, na sua própria casa, de forma marota, que está cometendo um crime de invasão de sua vida íntima, praticando o que se denomina conspurcação, está sendo marcado num vídeo de outrem. Essa coisa assume contornos jurídicos quando se sabe que o cara que lhe gravou é um dos seus advogados, e que não foi autorizado para tal.
Quantos aos septuagenários, classe etária a qual pertenço, pessoalmente, pouco coisa me choca, mas eu penso nos circunstantes e me reporto ao que o advogado José Alexandrino me disse:"não há balança para medir uma ofensa moral, assim como não há fita métrica para saber a extensão da ofensa.
Vivemos o tempo da mais alta divulgação. Ninguém faz nada sem testemunhas, Até o cara malandro que maliciosamente quer ter filmar, na sua própria casa, de forma marota, que está cometendo um crime de invasão de sua vida íntima, praticando o que se denomina conspurcação, está sendo marcado num vídeo de outrem. Essa coisa assume contornos jurídicos quando se sabe que o cara que lhe gravou é um dos seus advogados, e que não foi autorizado para tal.
domingo, 9 de dezembro de 2018
TARRAFA E A COOPERATIVA BOA PESCA
TARRAFA
E A COOPERATIVA BOA PESCA
RONALD MENDONÇA
No Bebedouro da minha infância,
situado na Rua Cônego Costa, perto da emblemática ponte e da estação
ferroviária, havia um terreno baldio com cerca de vinte metros de frente e não
sei quantos de profundidade. Os fundos desse terreno davam para o mangue e
consequentemente para o braço da lagoa Mundaú, cuja aparente mansidão lambe o
lado austral do bairro. Aquele pedaço de terra que nos meus tempos de menino
frondeava uma formidável castanheira, fora sede de dois empreendimentos que
movimentavam a saúde financeira do arrabalde. Durante algum tempo um posto de
gasolina ali pontificava, tendo como proprietário o dinâmico Genésio Carnaúba,
sisudão, no seu medonho bigode, não obstante um grande empreendedor. Algum tempo depois, uma outra atividade ali florescera: um entreposto de caranguejos e
sururus.
O entreposto de crustáceos,
segundo relatos orais e apócrifos de antigos bebedourenses, tentava modelar-se
nas cooperativas. Havia um líder quase lendário, um velho pescador mal-criado
que tivera um dos membros inferiores amputados. Cordial, quase humilde, de
quando em vez agitava-se, sobretudo depois que ingeria algumas lapadas da
“aguardente de cabeça” do alambique de seu Cabral, meu padrinho de vela. Cabral
era um senhor de uma distinção de lorde. Morava na mesma calçada alta onde
habitávamos. Até hoje, tento encontrar uma justificativa plausível, patrocinada
pela direção do Colégio Bom Conselho, para a demolição desse acidente
geográfico (a calçada alta), um dos cartões postais do bairro.
Como estava a relatar, o pescador
“Tarrafa”, cujo nome era Antonio, ao embriagar-se causava vexames na família e
nos moradores. Vernizes de política faziam-no um caricatural Lênin de bengala e
muletas. Era nessas horas que a molecoreba o provocava:”Tarrafa, eu vou?” O
deficiente altercava – “Pra minha muleta pequena, venha!” As provocações
continuavam: “Tarrafa, eu vou?” O pobre homem apelava –“Para o C de sua mãe,
pelanco de corno, vá!” E a procissão seguia, o velho à frente bêbedo, como um
Cristo desfigurado carregando e sendo carregado pelas suas toscas órteses de
madeira lavrada, seguido por impiedosos garotos, tais quais as turbas
enfurecidas que xingavam o crucificado do Monte Calvário.
Poucos sabiam que aquele velho
cambaleante e decadente, desmoralizado na sua embriaguez, um dia já havia
liderado um movimento societário, cooperativista que durara cerca de sessenta
anos. Nos seus eitos solitários, montando uma canoa à vela, singrando com ímpar
elegância e lepidez a lagoa Mundaú (muitas vezes, adentrando-se em mar aberto),
ao ver o desperdício dos frutos enterrados nas lamas da laguna, idealizou e fez
nascer um dos maiores e mais duradouros empreendimentos do bairro de Bebedouro.
Fácil não teria sido. Pescadores,
sururuzeiras e outros que tais escutavam suas preleções com desconfiança. Como
humildes pescadores enfrentariam os grandes conglomerados pesqueiros, que àquela
altura já abarrotavam mercados e feiras com seus produtos congelados, vindos
dos mares de Santa Catarina e até das frias águas do Mar do Norte e dos mares
Barent. O audacioso e sonhador Tarrafa, ainda com o cabedal físico intacto,
mostrava-lhes mapas. Certo dia chegou a levar um globo geográfico iluminado por
dentro. Os candeeiros teriam se apagado e a voz tonitroante cuja imagem
iluminada pelo globo metamorfoseara o agigantado pescador, assemelhando-o a um
Moisés planificando a fuga do Egito.
O terreno existia. Genésio abrira
mão, depois de desistir do posto de combustível. Como paga, semanalmente, algum
fruto da lagoa era entregue em sua residência, à leste da Matriz de Santo
Antonio.
O velho Tarrafa era um intuitivo.
Pouca leitura, muitas vezes lia só os comentários iniciais e já desvendava
mistérios que grandes inteligências levavam décadas para compreender. Num passe
de mágica, a fome acabara entre os pobres da orla lacunar. Na época do defeso,
o respeito pelo ambiente, que lhes dava sustento e educação aos filhos, era
minuciosamente respeitado. Frigoríficos acumulavam víveres para os tempos de
recesso na pesca. Como chefe desse clã, Tarrafa também prosperava. Família de muitos
filhos, aos poucos, o velho líder foi cedendo às demandas familiares. Chegaria
a dar o seu próprio posto de comando a uma das filhas, acreditando num
potencial que se derretia em contato com ar.
A irresponsabilidade da filha iniciou o
processo de autodestruição. Os cooperados já não recebiam pelo que produziam.
Os contratos de abastecimento das redes hoteleiras e hospitalares foram
suspensos pela falta de compromisso da irresponsável e incompetente dirigente.
O velho Antonio Tarrafa mantinha contratos pétreos com os barzinhos da orla, em
franca expansão turística. Até Marechal Deodoro, nossa antiga Madalena do Sul,
desistiu de participar da Cooperativa Boa Pesca, denominação aprovada pelo
Conselho Diretor da empresa. Os gordos goiamuns e as patas de uçá perderam a
qualidade, exalavam odor amoniacal, muitas vezes eram entregues congelados, mas
deteriorados. Os pescados passariam a ser devolvidos com admoestações. Magros e
desenxabidos, os comerciantes buscaram os velhos fornecedores da Bahia e de
Sergipe. Outros empreendedores, de olho no sucesso da Boa Pesca, invejavam e
torciam pelo fracasso.
Tarrafa, ainda com as duas pernas
voltaria ao mar aberto. Resolvera salvar a empresa com algo espetacular. Já
havia decidido: a filha irresponsável e truculenta, que havia posto no seu
lugar, seria defenestrada. Munido de uma dúzia de garrafas da Azuladinha de
Coruripe atravessou cautelosamente a Barra Nova.
Já saíra de casa meio chapado.
Era uma noite tenebrosa que meteria medo em qualquer um, menos no velho
Tarrafa. Uma meiota da Azuladinha já havia sido devorada quando algo
monstruosamente grande e escuro, celeremente, aproximou-se de sua frágil
embarcação. Num último lampejo, pensou estar diante daqueles monstros marinhos
cujas histórias ouvira na infância mas que nunca dera fé.
Tarrafa daria por sí muitos dias
depois. Estava no Pronto Socorro Municipal, na Rua Dias Cabral. Ninguém, nem o
próprio, sabia dizer como chegara vivo e sangrando na Praia do Sobral. Uma das
pernas estava esfacelada, faltavam-lhe partes, talvez mordidas de peixes. A
lenda quis dizer que Tarrafa fora salvo montando algum velho peixe marinho
amigo e solidário, que o pusera no dorso e o jogara no Sobral. O poderoso peixe
teria afastado os predadores do mar.
Endividada, desmoralizada, o epílogo
da Cooperativa Boa Pesca era inescapável. Tarrafa arrastou a sua dor enquanto
pôde. Num dia de maré alta, humilhado, desprender-se-ia das muletas e saltou
para a morte nas turvas e turbulentas águas sob a sua querida ponte, onde
milhares de vezes ali quedava-se para assistir a morte temporária e crepuscular
do avermelhado sol poente.
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