sábado, 11 de novembro de 2017

A DÚVIDA
Ronald Mendonça
Evandro e Vanessa conheceram-se ainda crianças. Chegaram a estudar juntos no Grupo Monsenhor Valente. No ginásio e no colegial estiveram distantes. O pai de Vanessa foi para o Piauí assumir uma gerência bancária. Quando se reencontraram estavam na fila de matrícula para o curso de odontologia. A flecha de Cupido foi certeira. Toda aquela saudade reprimida, todo aquele afeto não realizado, toda aquela paixão de anos de espera explodiram como o Vesúvio nos seus melhores dias. Não se desgrudaram mais. Era uma sede biológica de carinho e amor. Subiam a Ladeira da Catedral beijando-se escandalosamente. Olhavam-se, tocavam-se, esfregavam-se sofregamente como se não houvesse o dia seguinte.
Petistas de carteirinha, dois anos depois de formados casaram-se. Fizeram questão de pagar as despesas. Ainda lembro a festa. Nunca vi coisa igual. Durante a cerimônia religiosa, o velho pároco, confessor dos pecadilhos da infância, teve que interromper várias vezes a emocionada homilia. Beijos e olhares desconcentravam o orador. Falou da Sagrada Família, da resignação de José, ao aceitar uma noiva grávida sem que ele tivesse sequer triscado na bela Maria. Mas também falou de Vinicius, de Paulo (o apóstolo), de Agostinho... Nesse dia, D. Vladimir superou-se, certamente contaminado pelo fogo da paixão que emanava do casal. Convidado de honra, nessa noite, o eminente cônego precisou ser carregado. Fazia tempo que ele não bebia tanto.
Dez, quinze anos depois, os filhos não chegavam. Enquanto esperava, o casal participava de ações voluntárias na Igreja para tentar tirar viciados da lama. Alguns se apegavam ao casal, um deles costumava almoçar e lhes fazia companhia nos finais de semana. Era um carente, abandonado pela família. Deixara as drogas mas as tatuagens esquisitas ficaram como a marcar de forma indelével a vida devoluta. Financeiramente estáveis, os olhares foram perdendo o brilho, os sorrisos descaiam, as frontes enrugavam-se. Impacientavam-se um com o outro. Telefonemas estranhos calavam quando ele atendia. Não suportou a angústia. Contratou o melhor detetive particular. Importou do Rio de Janeiro.
Usando tecnologia de ponta, garantiu que em duas semanas colocaria tudo em pratos limpos. Na sua experiência, quando um dos cônjuges desconfia há setenta por cento de chance de ele estar certo.
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Bastou uma semana para apresentar o relatório. O detetive avaliou o estado emocional do marido. Não era raro um traído virar-se contra ele. Leu em voz alta, no gabinete dentário do contratante: "No dia tal, o alvo saiu de casa em torno de nove horas da manhã. Parou numa loja de bebidas, onde adquiriu duas garrafas de vinho tinto. Comprou queijo e torradas. Incluiu dois potinhos de patê. O alvo estava com uma blusa esverdeada presa na cintura. Estava sem sutiã. Usava calça jeans apertada e sapatos de saltos altos. Havia um ar "chique desprovido". Permita-me dizer, o alvo é uma mulher muito atraente."
O dentista acharia aquele comentário inadequado, mas engoliu em seco. O detetive prosseguiu com a leitura: "O alvo deixou a loja de bebidas, entrou na BMW e foi em direção norte, seguindo a beira da praia." “E aí, que aconteceu”, perguntou o ansioso marido.
O Sherlock Holmes do pecado não se deixou impressionar. Cobrara caro e queria demonstrar a sua competência com uma descrição minuciosa. "O alvo estacionou num Shopping e não saiu do automóvel. Alguns minutos depois, um cidadão cabeludo e tatuado adentrou-se de súbito no automóvel. O alvo não havia desligado o motor do carro. Tão logo a repelente figura tomou assento, o alvo manobrou e afastou-se da cidade tomando a direção norte. Cerca de cinco minutos depois, o alvo guiou o seu carro para uma mansão..."
”E aí, meu amigo, deixe de frescura e vá direto ao assunto”. E, por favor, minha esposa não se chama alvo. Exijo respeito, Doutora Vanessa! "Bem, era uma residência particular e não pude entrar..." “Olha companheiro, estou lhe pagando os olhos da cara, e o senhor me traz um relato pífio, cheio de reticências... O senhor me decepciona. Não faz jus à sua fama e ao seu preço, detetive”, rosnou o contratante.
O relator fuzilou o marido com um olhar meio zombeteiro. "Ainda não terminei. Fiquei montando guarda nas imediações da casa. Meu faro me dizia que eu iria observar algo definitivo. Tenho pressa para concluir esse caso. Valeu a pena persistir no meu posto de observação".
”Cerca de cinco minutos após ingressar nessa pretensiosa mansão, o alvo, digo, a doutora, apareceria abraçada com o cabeludo numa varanda do primeiro andar. Desculpe mais uma vez o comentário, mas como uma mulher tão bela, de tanta classe abraça e beija um tipo desses... Mas o fato é que tirei várias fotos do alvo, sem blusa e sem mais nada (meu Deus, que seios lindos), trocando carícias com o parceiro tatuado. O senhor poderá ver algumas fotos que mostram o indivíduo mamando nos seios virginais do alvo."
O dentista estava indócil. Mordia os lábios até sangrar. Não podia acreditar que a sua doce Vanessa pudesse estar agarrada com quem quer que fosse, a não ser com ele. A incredulidade tomou conta do seu pensar. "Meu Deus, onde eu estava com a cabeça quando contratei alguém para seguir a minha mulher? Eu estava louco. Terminou, detetive?"
O detetive estava desconsertado. Nunca vira semelhante reação. Ainda assim, dissertou: "Depois da mamação e das felações, o cabeludo pegou o alvo nos braços, revelando a linda nudez. (Realmente, uma preciosidade). Adentrou-se no aposento e fechou a janela." E depois?, indagou o infeliz.
"Bem, confesso que não vi mais nada de comprometedor". E arrematou: "O alvo deixou a casa cerca de duas horas depois. Seus olhos esverdeados brilhavam no meu poderoso binóculo. O cabeludo abriu os portões e ainda houve um “selinho” de despedida”.
"Essa é a minha dúvida, detetive”, O senhor fala, fala e não mostra eles trepando. Continuo com os mesmos questionamentos. É mais ou menos o que se diz do Lula e da Dilma. As pessoas só acusam. Ninguém prova nada.”
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Carlito Lima
Carlito Lima Não existe sutileza com Ronald Mendonça, o maior cronista das Alagoas.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

blablabla

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

HOMENAGEM AO CADÁVER DESCONHECIDO DEZ, DE 1971

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Ronald Mendonça compartilhou a própria foto.
Homenagem (E Gratidão) ao Cadáver Desconhecido. Anfiteatro de Anatomia, 1971. Univ. Fed. de Alagoas. Doutorandos de 1971.
Ronald Mendonça está com Nadja Mendonca e outras 7 pessoas em Praça Afranio Jorge.
8 de dezembro de 1971Maceió

e do tempo. Tenho a impressão de se fosse para ter um curso de cidadania os estudantes não precisam queimar as pestanas para conseguir uma vaga no curso de medicina. Dou uma sugestão : a Ufal cria uma faculdade de cidadania e deixa o curso de medicina ensinar medicina

AS MIL FACES, OU FARSAS, DO TRABALHO ESCRAVO

AS MIL FACES, OU FARSAS, DO TRABALHO ESCRAVO
A OIT (Organização Internacional do Trabalho) define como Trabalho Escravo "aquele (trabalho) ou serviço executado por alguém sob ameaça de sanção ou para o qual a pessoa não se ofereceu espontaneamente", segundo L. Narloch, nessa definição seriam incluídas as pessoas que trabalham para pagar uma dívida com o patrão ou para resgatar documentos, impedidos por um segurança de sair da empresa ou trabalha num lugar remoto demais, como uma refinaria de petróleo e o patrão se recusa a fornecer o transporte para elas partirem. Em 2003, segundo Narloch, uma lei mudou o Código Penal para adicionar dois critérios à definição da OIT: a jornada exaustiva e as condições degradantes. Ou seja, se antes o TE era restrito ao trabalho contra a vontade, passou a incluir empregos para os quais a pessoa se ofereceu voluntariamente e que poderia abandonar quando deixasse de considera-lo vantajoso. Para Narloch, das denúncias de trabalho análogo à escravidão quE viram notícias, quase todos são desse tipo: serviços precários e exaustivos, aos quais as pessoas se submetem por falta de alternativa. Em 2011, o Ministério do Trabalho publicou uma instrução normativa com recomendações para caracterizar o delito: "toda jornada de trabalho de natureza física ou mental que, por sua extensão ou intensidade, cause esgotamento das capacidades corpóreas da pessoa do trabalhador, ainda que transitória e temporalmente, acarretando, em consequência, riscos à sua segurança e/ou à sua Saúde". O autor argumenta. Esgotamento temporário causado por uma jornada de trabalho de natureza mental? Todos os mestrandos, doutorandos, jornalistas, médicos, enfermeiros passam por por isso, muitos deles durante 40-50 anos. Todos os pais de recem-nascidos sabem muito bem o que é esgotamento das capacidades corpóreas, ainda que temporariamente. "Os protagonistas do combate ao "trabalho escravo", dizem em coro que a escravidão moderna não se define por restrição à liberdade e pouco tem a ver com a escravidão tradicional. Trocando em miúdos, devemos parar de acreditar que um crime é o que ele sempre foi. Aplicando essa regra a outras situações, um homem que inveja o vizinho pelo seu carro importado poderia ser condenado por furto, posto que "não se pode continuar adotando uma concepção caricatural do furto, como se todas as vítimas do crime tivessem um bem subtraído".
Pessoalmente, dei plantões praticamente em 3/4 da minha vida profissional. Se contabilizar os tempos de estudante de medicina, lá se vão quase 50 anos de jornadas cavalares de trabalho.
 Digo mais, há colegas sessentões que beijam a mulher e os filhos na segunda-feira para trabalhar em cidades do interior e até em estados diferentes (Pernambuco, Sergipe, Bahia...), e só voltam para casa cinco dias depois. São seguidas jornadas de plantões em unidades de emergência, trabalhos em ambulatórios atendendo 40-50 pacientes, de olho no relógio para não chegar atrasado no outro emprego,  distante cinquenta quilômetros.
 Nunca soube que auditores do trabalho, jornalistas, petistas, socialistas, comunistas, anarquistas, sacerdotes, pastores, ONGs, procuradores et alii, interessaram-se em denunciar casos escandalosos de escravidão no trabalho médico. Nunca soube de um médico ou enfermeiro ter sido "resgatado" por conta de submissão a jornadas exaustivas ou por trabalharem em ambientes insalubres, nojentos, sórdidos, degradantes. 
A propósito, muitas vezes dormi sobre colchões sem lençóis e até sem travesseiros. Vezes outras, pacientes alojados nos corredores urinavam no chão e o dejeto ia acumular-se no nosso alojamento, entrando pela brecha de uma porta. Digo a vocês, parei com esses plantões no interior e em Maceió quando deixaram de ser atraentes do ponto de vista de segurança, de limite de chateações e até pelo jaez financeiro.
 "A maioria das pessoas que são "resgatadas" por autoridades e quejandos ficam desempregadas, após gastarem  por dois ou três meses as indenizações, e quando o dinheiro acaba procuram postos de trabalho semelhantes. Existem casos de "escravos" ganhando até cinco mil reais por mês. A solução que alguns encontram é desapropriar as fazendas, fechar empresas (geralmente pequenas) enclausurar o desumano patrão..." Ou seja, colocar sujeira no ventilador, enquanto morrem de rir tomando uísque escocês e delirando sobre o dia em que o país será socializado (desde que não mexam em suas mordomias!).

REPUGNANTE VILIPÊNDIO


REPUGNANTE  VILIPÊNDIO
Dias atrás, em sessão na Câmara dos deputados, assisti a transmissão de um feroz bate- boca entre  o Carimbão, deputado alagoano e o ministro da Cultura. Injuriado com os nus obscenos retratados em tela em exposições patrocinadas pelo grupo financeiro Santander, expondo a judia Maria, mãe de Jesus, retratada no chamado “nu ginecológico”, e também amamentando um chipanzé, além de, em outra tela, ser apresentada na companhia de alguém  a urinar em sua cabeça. O fato é que, movido pela Fé, Carimbão ficou próximo de uma apoplexia. Em dado momento, ânimos acirrados, o deputado perguntou ao ministro se este gostaria de ter sua mãe, sua mulher, sua irmã ou sua filha,  retratadas arreganhadas e urinadas por outrem.
A adorável  jornalistada assanhou-se, naturalmente apoiando os artistas, já descobrindo brechas para enquadrar o deputado em alguma falta de decoro!
Todos sabem que a iconoclastia é política, esquerdista, comunistóide. Qual a real intenção em expor-se duas pessoas (Maria e Jesus) em cujas vidas não foram registradas condutas exibicionistas? Notoriedade? Que se retrate uma Bórgia, uma Afrodite, uma Diana, um concupiscente Apolo, um Nero sendo penetrado posteriormente, um Sócrates a bolinar o falus de algum mancebo,,,
Fico a imaginar qual seria a reação desses vanguardistas se desse na telha de algum pintor representar o Che Guevara (o imortal ídolo!) no exato momento em que ele rendeu-se aos soldados colombianos. A cena seria fantástica e até verossímil. Guevara acocorado, calças arreadas, magricelas nádegas à mostra, delas escorrendo aquele material fétido a ensopar-lhe calças e botas. Para completar uma legenda: "não me mate, moço, vivo valho mais que morto; sou apenas um médico sem fronteiras que aqui veio para salvar a vida de pessoas. Juro que tudo é mentira, nunca! Nunca! em toda a minha vida matei qualquer ser vivo, nem caranguejera".
Penso como seria recebida pelos jornalistas, anarquistas,vanguardistas, intelectuais avançadinhos, sociólogos e outros que tais se alguém reproduzisse em uma tela Hitler, Stalin, Lenin e Mao abraçadinhos  mijando debochadamente sobre milhões de cadáveres, assim tornados por suas iniciativas. Para relembrar, Picasso pintou Guernica, tela mais que famosa, retratando os horrores da Guerra Civil Espanhola...
No fim de tudo, o apelo descabido e desonesto dessa falsa arte, quando nada, vilipendia a memória de pessoas sabidamente mansas, já falecidas, que não têm condições de se defender, nem de esfregar um processo nas fuças dessas simulacros de artistas. Será que D. Hélder Câmara pagaria ingresso para deleitar seu bondoso olhar nessas exposições?
 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O AMOR EM TEMPOS DE GUERRA FRIA


O amor em tempos de guerra fria
O AMOR EM TEMPOS DE GUERRA FRIA
Não sei exatamente quando conheci o sr. Milton Dario. Ele era do ramo de medicamentos e amigo do meu tio Ruy Mendonça. Logo soube que ele tinha umas filhas bonitas. Uma delas, particularmente, mexeu sem cerimônia, com os meus objetos internos mais profundos. Era uma morena muito inteligente, bonita, de corpo, a meu ver, que deveria ser a cópia de sua conterrânea Iracema, “a virgem de lábios de mel” de Alencar.

Gostava de conversar com seu Milton. Ele era um teórico marxista muito informado. Amigo dos Moreira, convivia com a nata do socialismo tupiniquim. Ainda hoje, Jailson Boia me diz que seu Milton teria sido o seu grande mentor. O lendário Jaime Miranda era seu interlocutor habitual. Há relatos asseverando e testemunhando ambos sentados no meio-fio, em frente à casa do meu futuro sogro, adentrando-se pelas noites. Não alcancei essa época.

Quando arrastei asas para Nadja, filha mais velha do casal Inês- Milton, esforcei-me para fazer uma espécie de média ao fingir interesse pela Intentona de 1935. Na verdade, estava de olho na bela morena de lábios de fogo. O sogro discutia alguma coisa de política. Se ele tentava me seduzir, me politizar, perdia o verbo e o tempo, já fazia tempo que conhecia o genocídio lenin-stalinista. Estava pouco me lixando se o acordo entre Hitler e Stalin era uma farsa, posto que ninguém confiava em ninguém. A exploração capitalista e a escravidão comunista se equivaliam. O paredón guevarista-fidelista ainda ressoava nos nossos tímpanos. Mas era o tipo de papo que eu não queria levar com o pai da minha paixão.

Não estava a fim de criar área de atrito. Fazia caras e bocas de indignação pelo que os sórdidos imperialistas americanos estavam tramando para o Brasil.

Mas meu negócio era outro. Dois objetivos guiavam meus instintos burgueses. Terminar o meu curso de Medicina e conquistar de uma vez por todas o coração daquela Iracema da Praça Sinimbu. Imaginem se eu queria saber se tinha sido Béria, o valet de chambre de Stalin, o grande homicida soviético. O que eu queria mesmo era manter uma atmosfera de simpatia e ter a confiança do sogrão de poder sair com aquela menina moça que definitivamente trucidara a minha adolescente e apaixonada mente. Os primeiros e os últimos pensamentos do dia eram para Nadja.

O velho Milton, matreiro de tantas guerras, driblava com maestria os patrulheiros que queriam dar palpites no namoro de sua filha mais velha, uma menina de ouro que passou a vida escolar tirando notas que o enchiam de orgulho. O novo (e único) namorado da Nadja tinha um senão que desagradava profundamente a militância. Ronald era filho do Zé Lopes, recatado médico de Bebedouro que tinha um defeito imperdoável: votava nos candidatos da antiga UDN.

Quando interrogado pelos camaradas sobre minhas posições políticas, seu Milton não se prolongava em detalhes. Simplesmente respondia que o candidato a genro era um “um liberal-democrata” e mudava de conversa. Quase cinquenta anos se foram desde aqueles interrogatórios que as esquerdas adoram fazer. Digo a vocês: em lugar nenhum do mundo eu ia conseguir namorar com uma comunistinha mais linda que Nadja. Doutra parte, ela jamais teria a seus pés um burguês que a amasse mais e melhor do que eu.