terça-feira, 4 de agosto de 2015

VADIAS MEMÓRIAS



BEBEDOURO: MEMÓRIAS DE UM VELHO SUBURBANO
Ronald Mendonça
Médico. Membro da AAL.

A Ladeira do Calmon, onde me encontrava, estava muito diferente daquela que minhas “cansadas retinas” guardaram. Naqueles tempos, um extenso e profundo sulco marcava o barro vermelho da ladeira. Nos períodos de chuva os carros tinham dificuldade de transitar.  Quero crer que poucos moradores hoje conhecem aquele cume como o “Alto do Urubu”. Logo abaixo, à direita de quem desce, havia uma mata rala com escassas jurubebas e algumas plantas enfezadas que serviam de esconderijo para nossas brincadeiras de “mocinho e bandido”. Meu irmão Robson e eu, por conta de um amigo que morava  vizinho a este matagal, de vez em quando íamos lá brincar.
Uma das minhas lembranças da Ladeira do Calmon foi do momento em que eu enfiei o calcanhar na roda traseira da bicicleta do Val (Florival). Havíamos saído em grupo, de bicicleta, para o Catolé. Um tio materno, Manuel Góis, fazia parte. O Robson estava na garupa de sua Monark. Eu era mais leve e fiquei na garupa do  Val. Ele montava uma bicicleta Mercury,  da irmã dele, Yara Barreiros. Alguns anos mais velho, padecia de um membro inferior atrofiado, sequela de paralisia infantil. Brigão, possuía braços fortes e um tronco avantajado e havia algo de radical na sua conduta. Comigo  ele era legal.  Chamava-me até por um apelido, “Nonda”, que eu havia adquirido numa escolinha para crianças. O “Nonda” era uma referência a Epaminondas, goleiro do CSA na década de 50.
Naquela  tarde, o pessoal resolveu voltar pelo Tabuleiro. Era uma aventura.  O arrodeio  era desnecessário, posto que do Catolé alcançava-se Bebedouro facilmente, sem malabarismos geográficos. O fato é que o estouvado do Val, ao chegarmos no topo da descida, gritou que eu devia me segurar e pedalou ladeira abaixo. Apostava velocidade com os outros. Sua deficiência, certamente, o compelia a competir de todas as formas. Desesperado, tentei me segurar como podia. Foi nessa que enfiei o pé na roda. Ferida feíssima que demoraria a cicatrizar...
Mais acima do ponto onde eu estacionara, em direção ao Sanatório, havia  uma casa (“terreiro”) onde se dançava xangô. Muitas noites despertei sob o batuque desses rituais. Já estava taludinho quando fui assistir a uma dessas “sessões”. Os amigos, um pouco mais velhos, experimentaram do xequeté, uma mistura alcoólica, comum nos terreiros de macumba. Com relutância o Pai de Santo permitiu que acompanhássemos o desenrolar da sessão. Nunca me detive muito nessas lembranças. O que restou foram mulheres de saias compridas dançando em roda. De vez em quando uma delas Incorporava  alguma entidade, rodava sobre si mesma e era amparada pelas companheiras. O cabelo era solto e ela desaparecia do salão de danças. Os comentários dos amigos seriam no sentido de uma suposta visita a um altar instalado em um cômodo contíguo, sob a supervisão do Babalorixá.
Mas agora está mudado. Um asfalto substituiu o barro. O sítio do meu amigo transformou-se num conjunto residencial. O que ainda não mudou foi a visão da lagoa e a bonita fachada do “Asylo das Órfãs”.
Enquanto descia vagarosamente a Ladeira do Calmon, busquei mais retalhos da minha longa convivência no bairro. Atravessei a linha férrea e vislumbrei, à esquerda, a Igreja Batista. Não posso passar por essa construção sem me lembrar do pastor Plácido, um carrancudo cidadão, cuja simpática filha Nancy era amiga das minhas irmãs. Mas foi ali, sacrossanto sítio onde pastor Plácido pregava o evangelho, que o Major Bonifácio, anos antes, associar-se-ia a amigos intelectuais e amantes das tragédias gregas (seu Teles, seu Anísio Costa e outros) para fundar um teatro, segundo consta no livro da escritora Ilza Porto sobre o avô Bonifácio.
A Rua José Bruno Ferrari, muito familiar, posto que lá moravam a avó Moreninha e a tia Margarida, na minha infância e adolescência denominava-se 25 de Dezembro. Passagem obrigatória para quem desce a Ladeira do Calmon, é o traço de união entre a Rua Passos de Miranda e a Praça Bonifácio Silveira. Sua continuidade na direção oeste terminava  na casa construída pelo pioneiro Jacintho Nunes Leite,  anterior e lateral à Matriz. Com o redesenho para ampliação da praça, o tráfego  em frente à igreja foi interrompido. A Praça tornou-se um prolongamento externo da igreja. Por isso, os veículos que descem pela Ladeira do Calmon com destino ao Centro não podem seguir em frente até  à R. Cônego Costa, a rua principal do bairro.
Houve um tempo  em que o bonde elétrico era um dos meios de transporte mais ativos do bairro. Sem que atentasse para o fato, testemunhei os estertores desses veículos. Em Bebedouro, o bonde morreu aos poucos. Primeiro, deixou de circular na Praça Bonifácio Silveira. Depois passaria a parar cada vez mais distante da Matriz de Santo Antonio. Seus últimos terminais ocorreriam nas “Mangueiras”, em frente à Vila Lilota, mansão da família Leão, hoje Clínica de Repouso Dr. José Lopes de Mendonça.
Os bondes tiveram sua época áurea. Durante as principais festas do ano, sobretudo no Natal, os “bondes de Bebedouro” tiveram singular importância. Com efeito, durante cerca de duas décadas, as festas promovidas pelo lendário Major Bonifácio Silveira eram o que de melhor havia de festejos na capital e, provavelmente, no interior. Descrevia-se a presença de caravanas até de outros Estados, atraídas pela criatividade e animação nos folguedos.
Quando eu me entendi de gente, havia no ar uma nostalgia, uma orfandade do Major Bonifácio Silveira. Há algum tempo, busquei conhecer melhor o mítico festeiro. Ao debruçar-me na sua história, deparei-me com outra figura que é pouco lembrada: Jacintho Nunes Leite. De fato, Nunes Leite foi um imigrante português que por aqui aportou em 1860. Apaixonar-se-ia pelo arrabalde. Naquela época, havia águas correntes claras e abundantes, como as do Rio Silva. O braço da lagoa era um manancial aparentemente inesgotável de alimentos, sobretudo do sururu. Aliás, ainda alcancei uma pesca abundante, ali mesmo nas margens da lagoa, perto da ponte. Bebedouro era um sítio de muitas fruteiras, de clima agradabilíssimo, refrescado por brisas suaves vindas do sul.
JNL era um empreendedor atento. Graças a isso, o bairro sofreria profundas transformações. A começar pela transferência do cemitério, primitivamente localizado na praça onde se situa a Matriz. Não é fácil mudar esse equipamento. Afinal, restos humanos  não podem ser tratados de qualquer jeito. Mas o fato é que o ousado imigrante promoveria a mudança. Idealizador da primeira fundição do Estado, garantiria os portões de ferro da nova necrópole.
Sob a influência de Nunes Leite, a Matriz de Santo Antonio teria nova roupagem. As paredes internas da igreja foram revestidas de azulejos de Portugal. Os velhos sinos seriam substituídos por novíssimos, confeccionados na fundição do benemérito. Com loja na R. do Comércio, colocou em Bebedouro uma fábrica de vidros e em Fernão Velho instalaria o que viria a ser a Fábrica Carmen, de tecidos. Várias picadas seriam abertas, desde a Cambona, para permitir a circulação de bondes por tração animal, cuja concessão adquirira. Foi de sua iniciativa botar água encanada em Bebedouro e no centro da cidade.
Politicamente, JNL era influenciado pelos ideais abolicionistas. Comprava escravos e os alforriava, iniciativas que causavam incômodo aos industriais da cana de açúcar. O fato de possuir uma fundição à altura das necessidades do mercado, não era admoestado de forma aberta. A casa mais emblemática do bairro foi construída por ele. Ainda está de pé, bem conservada, habitada por um dos descendentes, na Praça Bonifácio Silveira.
Com a morte de JNL, no segundo decênio do século XX, a figura impressionante de outro abolicionista reluziria: Bonifácio Magalhães da Silveira. Pernambucano de nascimento, cedo transferiu-se com a família para Alagoas. Funcionário público, major da Guarda Nacional, político, escritor, memorialista, ator, era, sobretudo, um “agitador cultural”. Tratava-se de um festeiro nato. Na minha infância e adolescência conheci pessoas que conviveram intimamente com o Major, como era chamado. Entre os parentes de Bonifácio da Silveira cabe destacar seus irmãos Luiz, fundador da Gazeta de Alagoas e Faustino, professor de matemática e pai da psiquiatra Nise da Silveira.
 A fama de  Bebedouro como um bairro de elite vem dessa época. Ainda não havia o hábito da beira mar. Com a arrumada na casa promovida pelo industrial Nunes Leite, o arrabalde passaria a chamar a atenção, justamente depois que o Major decidiu retirar o bairro do “marasmo”. Bebedouro sairia da condição de simples “corredor rodoviário” em direção ao interior e passaria a ser visto como um polo de festejos, onde os folguedos eram interpretados e as pessoas podiam divertir-se de forma sadia, com a comodidade de transportes por trilhos (bonde e trem) e rodoviário. Não obstante, a via principal de acesso não ser calçada. Ainda havia a opção fluvial, lacustre, desde o Porto das Balsas, na Levada.
Depoimentos de pessoas que frequentaram as festas de Bebedouro referiram grandes dificuldades para se conseguir alugar uma casa para permanecer no bairro durante esses períodos. Datam do segundo decênio do século XX as construções das mansões no Mutange, quando famílias mais abastadas ou erguiam esses casarões para morar definitivamente ou, simplesmente, para veranear. O carro-chefe dos festejos de Bebedouro era o Natal. O São João também era animadíssimo. Tudo leva a crer que os folguedos carnavalescos eram partilhados com o centro da cidade. Havia os corsos, os clubes sociais, os desfiles de escolas e os banhos de mar à fantasia. Era difícil mesmo competir com tanta pluralidade.
Nasci na Rua Cônego Costa, 3863, tendo o meu pai como parteiro. Aliás, todos os filhos nasceram em casa, sob a assistência paterna. Minha avó materna, Moreninha, assumia o papel de assistente.  Alguns anos depois, fomos morar vizinho ao Asilo Bom Conselho, no número 3703 da mesma rua,  numa casa antiga do começo do século. Ficava numa calçada alta. Três casas ocupavam essa elevação. Era uma espécie de cartão postal do bairro. Havia também uma calçada alta em frente. Com essa disposição topográfica ficava evidente  que o morro havia sido cortado para permitir a continuidade da via. Ao nosso lado morava um casal de idosos, Olímpia e Pedro Fernandes. Na casa seguinte, meus padrinhos Adalberto Cabral e Bilinha. Pedro Fernandes era chefe da estação. Adalberto era um senhor elegante, trajava sempre terno branco. Tinha um alambique de cana. Meu padrinho me brindava com cinquenta notas de um cruzeiro, anualmente, no dia do meu aniversário. Pena ter morrido precocemente. Entre os moradores da calçada alta de frente, recordo do sapateiro Pedro e a esposa, Marinita, professora de um dos grupos escolares. Seu vizinho era uma família enorme, de onze filhos, cujo chefe da casa era marceneiro. Exatamente de frente, ficava a casa de Anísio Costa e dona Áurea, ele funcionário público aposentado, pai de duas jovens muito gentis e alegres Dadá e Dena.
São poucas lembranças da casa onde  nasci. Das raras - é possível estar enganado- quero crer que uma babá, Sra. A., generosa e espontaneamente, oferecia os fartos seios para um trabalho de treinamento muscular oral do futuro neurocirurgião. Esta moça, “negra como as asas da graúna”, muitos anos mais tarde, seria minha cliente no Hospital Universitário. Ela era falante, exibida, e terminava sempre contando para os meus alunos que havia sido minha babá. Aguçava a curiosidade da estudantada ao relatar que eu era muito danado... Covenientemente, A. evitava entrar em  pormenores “sórdidos”.
Na minha visão de criança, a nova casa, vizinha ao Asilo,  era grande. Certamente mais espaçosa que a anterior. Mais iluminada por janelas laterais que davam para o jardim. Tinha quatro quartos e uma varanda/jardim lateral delimitada pelo paredão  do Asilo. Lembro bem do coqueiro central e do pé de jasmim colado ao muro da frente. Eu ficava admirado como de uma árvore tão ressequida poderiam brotar flores tão cheirosas... Minha mãe cultivava roseiras, mas as inclementes saúvas faziam grande estrago. Um pequeno portão lateral mantinha a circulação entre a minha casa e o colégio. O imóvel era alugado ao Asilo e tinha sido moradia do Monsenhor Tobias, um educador muito influente. Capelão do colégio, era gago e um emérito contador de anedotas nem sempre piedosas.
O quintal, que eu também achava grande, terminava em outro muro do Asilo. Não tínhamos, pois, acesso à lagoa, característica da maioria das casas situadas à esquerda da rua. Meu pai criava galinhas e patos, consumidos pela família que aumentava a cada ano. A preocupação de criar galinhas não era à toa. Naqueles dias, as mulheres no puerpério faziam uma quarentena tendo o caldo de galinha como pièce de résistance. Alguns passarinhos gorjeavam  na nossa varanda. Eram poucos, mas exigiam cuidados. Certo dia, a empregada, Maria das Neves, descuidou-se e o sofreu de estimação nunca mais foi visto. Mesmo destino tiveram dois galos de campina. Desta vez, o pai resolveu abrir as gaiolas. Com toda certeza, passarinhos em cativeiro não eram o seu forte. Gatos também não faziam sua cabeça.
 Um vira-lata, Rex, teve seus momentos de glória. Criado entre nós desde a mais tenra idade, era um policial miscigenado, de abundante penugem negra e extremamente desobediente. Latia com estranhos, o que parecia ser uma característica aceitável. Nas inúmeras brigas entre os irmãos, Rex se agitava, latia, rosnava e, finalmente, tentava interferir na contenda. O problema era que Rex só mordia a mim. Um detalhe nos entristecia: Rex não era tão valente nas disputas com outros cães. Certa ocasião, cobrir-nos-ia  de particular vergonha: o cão do jornalista e político JA, com quem meu pai mantinha insalubre distanciamento, deu uma montada por trás no Rex, à moda dos cachorros. Por tudo,  creio que Rex não nos orgulhava. Talvez essa seja uma das razões que me fazem manter prudente distância de todo ser que rosna, late e às vezes morde.
Nossa avó paterna, Docinha, morava conosco. O marido, meu avô, Francisco Cavalcante de Mendonça (“Chico do Brejo”), que não cheguei a conhecer, falecera aos cinquenta anos. O irmão mais novo do meu pai, Breno, era uma espécie de nosso irmão mais velho. Habitávamos o mesmo quarto, nosso tio, o meu irmão Robson, mais velho um ano e meio, e eu. Nessa época, 1953-1954, já éramos sete filhos. Desses, cinco eram meninas. Meu tio estudava no Colégio Guido onde meu pai era professor de Química.
O Asilo Bom Conselho tinha sido fundamental na vida da minha mãe, Rosinha. Nascida em Atalaia, ficou órfã do pai, Francisco Aureliano de Medeiros Cabral (um espirituoso rábula), aos quatro anos. A apertada situação financeira da viúva a impeliria a internar duas filhas no Bom Conselho. D. Rosinha passaria nove anos no Colégio. Foi a oradora da turma. Provavelmente, pela primeira vez, sairia do Asilo Bom Conselho uma turma com o título de “professora rural”. Até então, as meninas estudavam português, matemática, história, geografia, francês... Aprendiam a costurar, a bordar, cozinhar, lavar chão e jardinagem. Ao saírem não tinham onde trabalhar a não ser como domésticas. A opção B seria tornarem-se amantes de algum nababo até que a velhice as transformassem em peças descartáveis. O paraninfo da turma da minha mãe foi o Dr. Ib Gatto Falcão.  Uma maneira que as alunas tiveram para demonstrar a gratidão pelo seu empenho em formalizar o curso do Asilo.
Minha mãe pouco exerceu o magistério. Não obstante sua natureza mansa, os anos de reclusão entre as freiras provocariam algo de inaptidão para lidar com alunos. Faltava-lhe uma certa dose de malícia. Breve, pois, foi sua passagem como professora na Usina Brasileiro. Contou-me que numa ocasião os alunos foram queixar-se que um deles havia lhes “dado dedos”. Eram  gestos desconhecidos, praticados num universo do qual ela não tinha a exata dimensão do funcionamento. A aplicação como aluna do Asilo, contudo, não fora em vão. Aprovada em um concurso para a LBA, livrar-se-ia das pequenas pornografias infantis. Ao casar, a LBA seria página virada.. Voltaria aos estudos vinte anos mais tarde, onde concluiria na UFal, com brilhantismo, um curso de Letras.
O que eu queria dizer é que esse vínculo, essa gratidão em relação às freiras sacramentinas, suas mães, no frigir dos ovos, perduraria intocável na alma da minha mãe. A professora de piano, d. Magdalena Queiroz, por exemplo, foi a mesma que ensinou às minhas irmãs mais velhas. Quando uma freira adoecia, meu pai  era escalado para cuidar com consultas e  com amostras grátis. A influência foi de tal durabilidade que minha filha Lavínea e meu filho Carlos Eduardo terminariam o curso secundário sob a égide das sacramentinas do Colégio Sacramento. É claro que outros fatores pesaram. Na época, o Colégio Sacramento era um dos melhores da cidade.
O que teria levado meu pai a morar em Bebedouro é uma pergunta que amigos me fazem. Certamente não foi atraído pelo dinheiro das “elites”. O bairro estava em decadência. Nascido em Pilar, de tradicional família ligada aos engenhos de açúcar,  o menino José Lopes passaria cinco anos interno num colégio religioso: o Diocesano. Ao vir de Pilar para a capital, morou inicialmente com um tio, dentista e dono de uma chapelaria no centro da cidade. Tinha onze anos. Matriculado no Colégio Diocesano, poucos meses na casa do parente produziram ojeriza de tal intensidade que decidiu pegar a balsa e fugir de voltar ao engenho paterno. Não se afinara com os tios. Eles não menos com o sobrinho. Estava decidido: não queria mais estudar. Diante da irredutibilidade em voltar à casa do tio, o caminho era o internato.
 Concluído o curso secundário, foi para Recife, onde faria dois anos de complementar e o vestibular. O foco era a Medicina. Ao pegar o trem, o pai o advertira: “Cuidado com o chapéu novo. Quando botar a cabeça fora da janela, segure com as mãos!” Após doze horas de viagem, as expectativas de uma nova realidade fariam o adolescente Juquinha, como era chamado, esquecer as recomendações. Aos anúncios da chegada a Recife dentro de poucos minutos, a curiosidade o impeliria a vislumbrar a nova cidade. Adeus, chapéu. Matriculado no Carneiro Leão, morando numa pensão para estudantes, economizar qualquer tostão para voltar para casa com um chapéu, era uma questão de honra. Ao regressar em junho, sequer ousou arriscar colocar o apetrecho na cabeça. O pai, meio desconfiado, enquanto batia suposto pó, comentaria: “Está novinho. Não usou?” Juquinha teria replicado: “É que em Recife o pessoal está abandonando esse costume”.
Foi aprovado no concorrido vestibular para Medicina, de primeira. Sabia que não haveria uma segunda chance. Em Recife, alguns fatos foram marcantes para meu pai: 1) Convocação para servir o Exército em plena guerra, onde chegaria ao posto de cabo “padioleiro”; 2) A venda do engenho, uma ferida narcísica que nunca chegou a cicatrizar completamente; 3) A doença do pai, que ele adorava, culminando com sua morte; 4) O casamento com minha mãe.
 Estava cursando o quarto ano de medicina e gozava férias, aqui em Maceió, quando o pai dele, meu avô, passou mal. Ele diagnosticou que seu pai estava tendo um “Edema Agudo de Pulmão”. Em casa, sem qualquer recurso, tentou uma “medida heroica”: a sangria. Cortou uma das veias do braço do pai e salvou-lhe a vida. Meses depois, novo Edema Agudo se instalaria. Apesar de socorrido, não teve a mesma sorte. A morte do pai ensejaria sua baixa no Exército. O fantasma de ir para o front na Itália estava afugentado.
Finalmente formado, a decisão de morar em Bebedouro teria sido influenciada pelo fato da sogra, minha avó, casada em segundas núpcias com um fiscal de renda, morar no bairro. Além disso, não havia médicos na região. A circunstância do meu pai ter passado boa parte do curso como interno na Maternidade de Olinda foi fundamental. Mesmo levando-se em conta que os médicos eram mais bem preparados, fixar-se numa cidade de interior (Bebedouro era quase isso) sem prática em obstetrícia, aterrorizava o recém-formado.
E foi justamente isso que aconteceu. Clínico Geral, médico da Casa de Saúde Miguel Couto, chefe do Serviço de Verificação de Óbitos, meu pai era convocado com certa frequência para fazer partos em residências. Geralmente para casos mais complicados que as parteiras não conseguiam resolver. Alguns eram remunerados. A maioria, Deus os pagava. De qualquer forma, foi uma vida muito rica do ponto de vista humanitário. De manhã cedo, meu pai tinha o hábito de abrir a janela e dar uma olhada na rua. Aquela salutar mania de deixar o ar da manhã entrar na casa... Não há como afirmar que ele ficava surpreendido com a fila que se formava. Pessoas de todas as idades, sobretudo mães com crianças nos braços. Minha mãe contava que ele a chamava e dizia: ”Rosinha, veja isso! Que quantidade de gente é essa? O que essas pessoas estão fazendo na minha porta a essa hora?”. Todos sabiam o que elas queriam. Aí, o meu pai, mais uma vez, “surpreendia” minha mãe. Depois de tomar um rápido café com dois ovos à la coque e de fumar um Continental sem filtro, sentava no bureau que ficava no corredor da casa, estetoscópio ao pescoço, e ia atendendo. Abria a gaveta de amostras, explicava como fazer e recomendava: “Se não melhorar, volte amanhã”. Ninguém saía de mãos vazias. O melhor da festa: tudo de graça.
Estava, há algumas linhas, em 1953-1954. Chegara, enfim, a idade de aprender a ler. A alguns metros da nossa casa, uma distinta senhora mantinha uma escolinha.  Entramos os três irmãos mais velhos, Rosinete, o Robson e eu. A professora  dava aulas em casa. Havia um oratório bonito na sala onde funcionava o curso. Uma peça de madeira anexa era o genuflexório. Creio que nos momentos de enlevo espiritual nossa mestra ali prosternava-se compungida. Durante as aulas, a temida mestra era partidária de técnicas pedagógicas, digamos, mais ortodoxas, premedievais, se vocês me entendem.  Era criativa. O genuflexório que testemunhava seus emocionados encontros com Nossa Senhora, recebia uma cobertura de feijão ou milho, onde os alunos (crianças de 5-8 anos) iam pagar seus pecados, expiar suas culpas, ajoelhados sobre o milho ou o feijão. Não me lembro se alguma vez fui aquinhoado. Meu irmão Robson, com certeza. Um dos mimos que recebi da minha primeira professora foi ser chamado de “Olho de Pitomba Lambida”. Tenho zero de trauma disso. Quem não gostou de saber dessas coisas foi o nosso pai. Retirou-nos da escolinha. Não fora esse regime de terror, eu até gostava. Jogava bola nos intervalos. Era o goleiro. Com um pouco mais de cinco anos fiz uma defesa tão complicada que fui chamado de “Nonda”, referência ao grande goleiro Epaminondas, conforme aludi anteriormente. “Nonda” duraria mais que o “Olho de Pitomba Lambida”.
Bebedouro da minha infância tinha dois Grupos escolares muito conhecidos, o Rosalvo Ribeiro e o Alberto Torres, mas não os frequentamos. Depois que saímos da escolinha, passaríamos a estudar em casa. Minha mãe e minha avó, Docinha, tiveram a incumbência de nos treinar em leituras, cópias, ditados e nas operações aritméticas. Não demos vexame. Em 1954, aos 6 anos, meu pai nos matriculou no Diocesano. Lembro dele na sala da diretoria conversando com o Irmão Nestor, diretor do colégio. Queria um desconto nas mensalidades. Recordo de  dois argumentos. Num deles, papai dizia que era ex-aluno interno do colégio . O outro argumento referia-se ao fato de estar matriculando dois alunos. Passaria pela minha cabeça, em caso de irredutibilidade do diretor em conceder a bonificação, se meu pai iria desistir de nos matricular. Não me recordo se o desconto foi dado. Provavelmente, sim.
 O orçamento doméstico era apertado. Com o devido respeito, meu pai era um reprodutor incansável. Um dos objetivos da abundante prole (estou presumindo) seria equilibrar a quantidade de filhos homens com as filhas mulheres. Por insondáveis caprichos da natureza, a cada novo parto espirrava uma menina. Teve onze filhos, três do gênero masculino. Não possuíamos automóvel. Somente em finais de 1958, treze anos após a formatura, foi que meu pai adquiriu um Jeep, cuja placa era 53-57. Ainda hoje encontro pessoas que fazem referência a esse veículo. O que chamava a atenção era a quantidade de crianças e adolescentes. Minha irmã mais velha ocupava o banco da frente. Eu e o Robson ficávamos nas “latas” laterais e quatro irmãs mais novas ficavam apertadas no banco traseiro. A coisa ficaria melhor dois anos depois, com a aquisição de uma Rural. O velho estava prosperando.
Em 1958 ocorreria uma grande guinada na vida profissional do meu pai. Surgiu a oportunidade de uma especialização em Psiquiatria. Conforme assinalei, ao morar em Bebedouro, seria contratado para trabalhar na Casa de Saúde Miguel Couto. Era um hospital psiquiátrico que ficava a duzentos metros de nossa casa. O frenocômio pertencera ao Dr. Pedro Bernardes, que se transferira par Minas Gerais. A denominação primitiva era Santa Juliana (suposta padroeira dos loucos). Inicialmente, fora arrendada ao psiquiatra Mário Morceff, um migrante mineiro meio descapitalizado, que terminou adquirindo o imóvel. Consta ter sido o seu sogro, Dr. Chaves, com seus infindáveis coqueirais nos Morros de Camaragibe, o poderoso avalista da negociação.
O fato é que aqueles anos de trabalho e convivência com doentes mentais tinham dado ao meu pai uma respeitável vivência na área da Psiquiatria. O curso patrocinado pelo Serviço Nacional de Doenças Mentais encaixava-se como uma luva nos seus anseios. Havia alguns obstáculos. Naquele 1958 éramos nove filhos. Minha avó Docinha falecera dois anos antes e meu tio Breno assumira um emprego no Banco do Nordeste, em Mata Grande. Uma solução encontrada para ajudar minha mãe a administrar a “rebelde ninhada” foi apelar para Vovó Moreninha, mãe de mamãe, que se transferiu com malas, bagagens e o marido, o “Velho Góis”, a essa altura fiscal de rendas aposentado.
Meu pai colocou todas as despesas no papel. Até a pequena inflação da época entraria nos cálculos. Contava com a pequena reserva em caso de gasto imprevisto.  Os salários de dois empregos foram mantidos. No Rio, ele viveria de uma bolsa patrocinada pelo Ministério da Saúde e moraria no próprio hospital de Engenho de Dentro.  Foram quase seis meses de ausência. Houve um pungente esforço para manter a casa em ordem através de longas cartas. Escrevia individualmente para cada filho e nós escrevíamos pelo menos duas cartas por mês. Para minha mãe, eram longas e apaixonadas que ela as lia solitariamente e não permitia que nenhum filho, mesmo os mais curiosos, as acessassem. Meu pai tinha um bom texto e, a despeito da carranca e de proverbial mau humor, sabia ser romântico. Eles se amavam muito.
Um tio paterno, Ruy Mendonça, que também, quando solteiro e mais jovem, tinha morado  conosco, ligadíssimo ao meu pai, também dava uma cobertura periódica para ver como as coisas estavam. As preocupações maiores eram justamente em relação aos três filhos mais velhos, máxime Robson e eu. Nos finais de semana, nosso tio nos levava para sua casa, no Farol, “para dar uma aliviada em casa”. Ruy Mendonça tinha excentricidades, sobretudo gastronômicas. Depois de almoçarmos uma montanha de comida, ele nos convidada ao pós pasto. Geralmente bananas. Ele próprio um glutão sacramentado, impelia-nos a comer algumas bananas anãs à guisa de sobremesa. Dentre suas preocupações, constava a com nosso pai,  que ao retornar, não nos encontrasse magros, abatidos, sinalizando, talvez, que havíamos passado fome na sua ausência. Decididamente, um excêntrico, aquele nosso tio.
Apesar de toda vigilância, durante os meses de ausência paterna tivemos mais folga para “maloqueirarmos” pelo bairro. Começamos a nos entrosar mais nas peladas, nas andanças ao banho do Né Fragoso, nos jogos de ximbra, piões, e até em alguns jogos de azar apostando castanhas (compradas). Um amigo do meu tio Manuel Góis tinha uma roleta e nos “roubava” os trocados que conseguíamos adquirir, nem sempre por meios lícitos, em casa. Nesse aspecto, nossa mãe não era tão cuidadosa, posto deixar algumas moedas dando sopa sobre os armários. Aos sábados, Bebedouro tinha uma feira muito animada. Com 10-11 anos, tinha o compromisso de comprar farinha e mais algumas pequenas coisas. O macete era ir no final da feira, quando os comerciantes baixavam os preços. O que eu conseguia de abatimento ia para a “caixinha” pessoal.
Na infância e adolescência, nunca tivemos dinheiro fácil. Na época em que íamos para o colégio de ônibus, Robson e eu recebíamos, cada um, cinco cruzeiros. Desses, sobrava apenas um cruzeiro. Não havia dinheiro para o lanche. Levávamos no bolso um pão, cujo recheio variava da manteiga com açúcar ao doce batido de banana. Raramente queijo. Não nego que ficava me lambendo quando via as filas na hora do recreio do Colégio para comprar sanduiche na lanchonete dirigida pelo Irmão Silvino, tendo como balconista um garoto um pouco mais velho, apelidado de “Cabeleira”. (Esse rapaz, era uma “cria” do colégio. Estudava à noite na Escola Padre Champagnat, educandário gratuito que os maristas mantinham. Anos mais tarde, “Cabeleira” seria o dono da cantina no novo Colégio Marista, da Antonio Brandão).
Não raramente, gastávamos o dinheiro do transporte para comprar um daqueles sanduiches de mortadela, regado a uma Crush, que ao paladar dos meninos que éramos, tinham o gosto do néctar e da ambrosia. Estarmos lisos em pleno meio-dia na Praça dos Martírios, esperando uma carona, não era um grande drama. Era difícil não passar alguém com destino a Bebedouro. Aguardávamos no início da General Hermes. Nossas esperanças de não voltar a pé para casa, concentravam-se, sobretudo, nos caminhões  vazios, dirigidos por conhecidos do bairro. Na curva para entrarem na General Hermes, reduziam consideravelmente a velocidade, permitindo que galgássemos a carroceria. Ficamos craques: jogávamos nossas bolsas, segurávamos na grade e apoiávamo-nos nos pneus (em movimento lento). Logo estávamos sorridentes na carroceria gritando: “Chame”. 
Certa feita, coincidiu de minha mãe presenciar essas manobras e ficou estarrecida com o que viu. Talvez Deus naquela época nos protegesse mais.
Havia uma certa decepção materna quando chegávamos com o pão amassado e intacto no bolso, que ela embalara com carinho. Por que não confessar? Pairava algo de constrangimento nas nossas almas suburbanas por não termos dinheiro para comprar na cantina. Mastigar aquele pão maltratado, preenchido por manteiga e açúcar, queria parecer que nos humilhava um pouco. Talvez por isso compensássemos nossa “tragédia” financeira sendo ótimos alunos.
 Com efeito, durante os primeiros anos de colégio não havia colher de chá. Nossa mãe nos conduzia a estudar à tarde. A boa memória sempre foi nossa aliada.  À noite, sabíamos que iríamos enfrentar o doutor Zé Lopes, nem sempre no seu melhor fair play. Com ele não havia mais ou menos. Ou as lições estavam na ponta da língua, ou nada. Dormir (e dormíamos muito cedo) só depois de repetir “timtim por timtim, até o fim”. Ainda havia aquelas poesias quilométricas que nos cabiam decorar para recitá-las nas sessões do grêmio...
Volto agora ao primeiro dia no Colégio Diocesano. Depois da etapa do choro paterno, encaminhamo-nos eu, meu irmão Robson e meu pai até a sala do Irmão Pedro, um “velhinho” que era o mestre de classe do segundo ano primário. Os conhecimentos de casa foram testados e aprovados. O casulo estava se abrindo. Não me lembro se já tinha usado calça comprida. O sapato era especial feito por um sapateiro, sr. ML, um cidadão prenhe de caretas esquisitas,  que frequentava o consultório do velho. No bico e no salto eram colocadas  chapas de metal. Havia a crença de que o sapato duraria mais... Um entrevero marcaria o primeiro dia de aula. Dois matutinhos de Bebedouro num colégio grande causavam um certo impacto. Talvez por isso, o pai resolveu nos apanhar dentro do colégio, na sala de aula. Seguimos então para a porta principal. Meu pai na frente, o Robson atrás. No meio, eu. De repente, ao atravessarmos o campo de futebol (com os tradicionais oitizeiros) um menino me calçou. Um provocador. Acho que foi a última vez que ele cometeu essa gracinha. O Robson agarrou o camarada e em dois segundos ele estava no chão e o Robson, se preparando para aplicar uns corretivos. Toda aquela malandragem precocemente apreendida da molecoragem bebedourense eclodiria. Não fora a interferência de papai, que ao virar-se deparou-se com aquela cena tragicômica, a venta do menino iria sofrer.
Acho que, em 1954, Bebedouro passaria por uma grande transformação com a chegada do Padre Fernando Iório Rodrigues, substituindo o velho pároco, padre Belarmino. Iório daria uma nova vida ao bairro. Sua influência foi além dos umbrais da Matriz de Santo Antonio. As homilias tinham a grife do intelectual diferenciado. Renovaria a participação dos fiéis na Congregação Mariana, nas Filhas de Maria, na  Cruzada Eucarística... Um alto-falante reverberava além da Praça. Procissões ocupavam as ruas do bairro nas comemorações sacras. Nessas alegorias destacava-se a figura  de Domingão, um agigantado negro enfatiotado, fita azul ao pescoço, símbolo da piedosa Congregação Mariana. Padre Fernando não parava de puxar o coro com abaritonada voz. Era também rotina ouvirem-se, a partir da Matriz, hinos de exaltação à pátria e ao Estado nas efemérides oficiais. Deve-se ao Padre Iório, depois consagrado bispo de Palmeira dos Índios, a criação do Ginásio Santo Antonio. Modesto, mas de basilar importância.
Os Natais reviveriam o lendário Bonifácio Silveira. Pastoril animadíssimo marcaria aqueles inesquecíveis dezembros. Despontante adolescente, investiria parte das minhas parcas economias chamando “em cena” uma serelepe primeira pastora do azul, para fixar em suas incipientes protuberâncias mamilares   notas de um cruzeiro, cunhadas com a severa figura  do Marques de Tamandaré. Os hormônios já começavam a impor  transformações no corpo e na alma  do ex-seminarista. Despedia-se o tempo da inocência.
Durante muitos anos o transporte coletivo de Bebedouro era uma tragédia. Enquanto o Farol e a Pajussara eram servidos por uma frota de primeira qualidade, nosso bairro era castigado por refugos. Na época em que não havia calçamento, em diversas ocasiões tivemos que mudar de ônibus porque o que nós viajávamos atolava no lamaçal por prosaica falta de força. Muitos coletivos eram munidos de um fragmento de madeira preso na alavanca da marcha. A função era apoiar no tablado para evitar que “saltasse de marcha”. Um dos proprietários (havia vários), por conta dos sucessivos enguiços no seu veículo, ganhara o sugestivo apelido de “Arroela”.
Aos poucos esse item foi equacionado. Os irmãos Calheiros durante um certo período dominaram esse segmento e ofereciam mais segurança e conforto. Também coincidiu com a conclusão do calçamento, velha aspiração, que teve no lendário coronel Lucena Maranhão, eleito prefeito de Maceió, um grande executor. Tenho a impressão de que Maranhão faleceu antes da conclusão das obras. A comunidade não esqueceu seu nome.
Nas folgas, principalmente nas férias, nossa vida era bater bola. Na época das frutas, em dezembro, eventualmente, aventurávamos saltar muros de sítios para roubar mangas e cajus. Subir em árvores não era nosso pendor. As poucas vezes que tentei subir em coqueiro tive que amargar um belo arranhão na barriga. Vez ou outra chegava algum estranho na nossa casa reclamando que havíamos invadido seus territórios. Disposto a arcar com os prejuízos, embora envergonhado, meu pai perguntava se os filhos dele estavam sozinhos. E se ele (o reclamador) já tinha ido na casa dos outros pais...  O velho não achava graça nessas traquinagens dos filhos.
A partir de um dado momento não podíamos mais jogar num largo atrás do mercado. Havia muita reclamação dos moradores. Vidraças eram quebradas, palavrões impublicáveis eram ditos sem a menor cerimônia. De repente descobrimos uma clareira bem no coração da “Mata dos Leões”.  O “Sete Lobão” era um campinho horrível. Irregular, em forma de bacia, tinha um chão áspero,  que mesmo para os nossos pés acostumados a ficar descalços produziam desagradável queimação noturna, pelo desgaste da planta dos pés. Verdadeira lixa. Mas foram rachas inesquecíveis. Durante muito tempo joguei de goleiro. Posição ingrata, sobretudo porque a bola era de borracha. As mãos saíam ardidas. Pior quando a bola pegava em cheio no corpo...
Crescia a olhos vistos. Já conseguia tocar no travessão. Cheguei a titular do Juventus e até disputei algumas partidas pela segunda divisão, no campo do Mutange. À medida que as responsabilidades aumentavam como goleiro, crescia a angústia dos entardeceres. É que a miopia em um dos olhos criava um grande problema com a queda da luminosidade. Numa das vezes nosso time foi jogar na Usina Uruba.
Estávamos com uma vantagem apertada no placar quando o juiz (local) deu uma “patriotada” marcando uma falta, no mínimo duvidosa, bem perto da grande área, frontal. Já fazia algum tempo que o sol escondera-se. Via sombras. Fechada a barreira, o sujeito resolveu chutar em minha direção. Vislumbrei aquela sombra escura aproximando-se. Só podia ser a bola. Encaixei, mergulhei por sobre a rala grama e demorei-me deitado por sobre a bola ganhando tempo. Enquanto isso, meus companheiros cercaram o árbitro exigindo o final da partida. Saí quase carregado. Seria a última vez que joguei de goleiro. Passei a ser centroavante, posição que já ocupava no time de baixo (“segundo quadro”).
Estudava de manhã e à tarde secretariava meu pai na Clínica. Desde 1962 fomos morar na Lilota. Era uma mansão construída durante a Primeira Guerra Mundial, sobrevivente da “Era de Ouro” do Bebedouro do Major Bonifácio Silveira. Fora habitada por D. Iaiá Leão. Com seu falecimento a casa ficara vazia, não obstante bem cuidada por um prestimoso funcionário, seu Lima. Dois anos antes, houvera uma transformação. Com a confiança e a formalidade de um diploma de especialista, meu pai dedicava-se cada vez mais à Psiquiatria. Já não fazia mais partos. Seu canto de cisne como parteiro foi em casa, partejando a filha caçula, Maria de Fátima. Durante anos a fio, sempre que tinha oportunidade, descreveria as dificuldades desse nascimento. Nomeava a apresentação do concepto e as manobras obstétricas que tivera que realizar para o êxito do procedimento. Mãe e filhas salvas e sadias. Uma coisa que me emociona até hoje.
Como dizia, em 1960, meu pai instalou uma pequena clínica psiquiátrica na Av Major Cícero de G. Monteiro 2079, no Mutange. Sua fama de bom psiquiatra e zeloso dono de hospital cresceu rapidamente. Em pouco tempo a Clínica chegaria ao limite de sua capacidade: quarenta pacientes. Urgia mudar-se. Foi quando surgiu a opção  de compra da  Lilota. A bem da verdade, um sonho quase impossível. Papai prestava serviços a graduados funcionários da Usina Leão, o que facilitaria a negociação.
Aos poucos, Bebedouro ia ficando para trás. Deixaríamos de frequentar o Clube 29 de Junho, com seus animados bailes de Carnaval, com suas quadrilhas puxadas pelo polivalente Né Fragoso, onde as primeiras paqueras desenharam-se. Nem só de 29 de Junho vivia Bebedouro. Incursionávamos pela Chã e o Flechal. Não conseguia me aproximar de nenhuma garota. Com imerecida fama de rico (e de garanhão) era mal visto pelos pais das mocinhas, que recomendavam manter distância desse “perigoso playboy”.
A partir de determinado momento passamos a frequentar as festas de Carnaval da Fênix e do Iate. Era outro departamento. Dos discos de Claudeonor Germano no 29 de junho, passamos a ter o cantor ao vivo, sob a frenética musicalidade da orquestra Marajoara do Recife. No Iate, eram os  famosos Fausto e Passinha. Show de bola. Não obstante, continuava um bicho do mato, arredio, desconfiado. Sem convivência com as meninas, também tive dificuldades na hora das danças e das paqueras. Ficava mais à vontade nos cabarés de Jaraguá. Cheio de moral pelos serviços prestados, o velho, depois de muitas cantadas, deixava que eu dirigisse sua Rural. Havia uma rota: Bar do Chopp, onde encontrava colegas do colégio, regado a Ron Montilla, e lá pras onze horas o puteiro de Jaraguá. Confesso que nem sempre transava. Começava a ter o critério de seleção. Até pelo fato de não exagerar na bebida. Ou seja, as mulheres feias e sem graça continuavam feias e sem graça.
Ao começar a estudar medicina, divorciei-me quase completamente do meu querido bairro. Lá voltei poucas vezes, apenas para matar saudades num racha tradicional de Ano Novo, nas dependências do balneário do seu Né Fragoso. Registro, com tristeza, que seu famoso banho acabou. A límpida água deixou de escorrer. Há quem diga que o desmatamento à montante decretou o fechamento dos delicados mananciais que alimentavam a “piscina do  velho Né”.
A separação não quis significar abandono. Sirvo meu bairro, meus amigos de infância e seus familiares como médico. Carrego nos ombros e na alma responsabilidades intransferíveis. Tento mimetizar (sem as suas competências) os trabalhos comunitários que meu velho pai fazia voluntariamente. Esforço-me retribuir, com os limites dos meus conhecimentos, os inolvidáveis momentos vividos naquele recanto, que me viu nascer e crescer.

Maceió, 25 de abril de 2014








homenagem a JOSÉ MEDEIROS em sessão solene na SOBRAMES



DISCURSO DE HOMENAGEM A JOSÉ MEDEIROS, EX PRESIDENTE DA SOBRAMES ALAGOAS

QUERO CUMPRIMENTAR A NOVA MESA DIRETORA DA SOBRAMES ELEITA NA NOSSA ÚLTIMA SESSÃO NA FIGURA DO DOUTOR GERALDO VERGETTI.
TODOS NÓS SABEMOS COMO É DIFÍCIL OCUPAR O LUGAR DE UM HOMEM TÃO DINÂMICO, COMO O JOSÉ MEDEIROS, QUE ELEVOU A NOSSA SOBRAMES À CONDIÇÃO DA MAIS ATIVA ASSOCIAÇÃO CULTURAL DO ESTADO, QUIÇA DO NORDESTE.
ESTOU MUITO HONRADO, GERALDO VERGETTI, POR TER SIDO O ESCOLHIDO, ENTRE TANTOS MAIS AQUINHODAS INTELECTUALMENTE,  PARA PRESTAR ESSE HOMENAGEM. SINTO NA ALMA E NO CORPO A RESPONSABILIDADE DE HOMENAGEAR UMA PERONALIDADE DE UMA HISTÓRIA TÃO RICA, TÃO MULTIFACETADA.
COM EFEITO, DEVO FALAR DO MÉDICO HUMANITÁRIO QUE DURANTE ANOS PELEJOU NA TISIOLOGIA, DOENÇA CARREGADA DE ESTIGMAS  PROFUNDOS.  A PROPÓSITO, DISSE-ME ELE, ALGUMAS VEZES, QUE AS DIFICULDADES FINANCEIRAS IMPELIRAM-NO, AINDA ESTUDANTE DE MEDICINA, A ACEITAR SER INTERNO DO SANATÓRIO, NOSOCÔMIO QUE AINDA HOJE, ERRONAMENTE, É VISTO COMO HOSPITAL DE TUBERCULOSOSOS.
TODOS VOCÊS LEMBRAM O QUE ERA SER TUBERCULOSO ANTES DA ESTREPTOMICINA E DO P.A.S. ERA UM TRATAMENTO QUE ENVOLVIA TODA A FAMÍLIA. TRATAMENTO LONGO. FAZIA-SE UMA FILA PARA APANHAR OS MEDICAMENTOS, O QUE EXPUNHA AINDA MAIS O INFELIZ PORTADOR.  HAVIA UMA CERTA VERGONHA QUANDO SE QUERIA DIZER QUE UM MEMBRO DA FAMÍLIA ERA TUBERCULOSO “A TÍSICA”, PARECIA AMENIZAR, DAR UM SENTIDO EUFEMÍSTICO À DOENÇA. TUBERCULOSE E LEPRA ERAM DOENÇAS TEMIDAS. NÃO SABERIA COLOCAR NUMA BALANÇA SE A SÍFILIS TAMBÉM CARREGAVA ESTIGMAS TÃO PROFUNDOS.
O FATO É QUE O DESTINO O LEVARIA A INTERESSAR-SE PELA TISIOLOGIA, ENFRENTANDO AS MARCAS FÍSICAS E PSICOLÓGICAS DA DOENÇA. REVELARIA DESDE CEDO UMA INTRÍNSECA CORAGEM  PESSOAL, POSTO QUE VÁRIOS ESTUDANTES DE SUA ÉPOCA TINHAM VERDADEIRA FOBIA DE TUBERCULOSO. GRAÇAS AO BOM DEUS, QUANDO O NOSSO MEDEIROS COMEÇOU NA ESPECIALIDADE A MEDICINA COMEÇAVA A CANTAR VITÓRIAS SOBRE A TUBERCULOSE..
ALUNO DESTACADO, JOSÉ MEDEIROS FOI O ORADOR DE SUA TURMA, A SEGUNDA A SER FORMADA PELA NOVEL FACULDADE DE MEDICINA DE ALAGOAS. ERA O DOM DA ORATÓRIA, NATO, GENÉTICO. COLEGAS  DO SEU TEMPO DIZIAM QUE ELE NÃO PODIA VER UM MICROFONE QUE JÁ COMEÇAVA A FALAR...
TRAGO UM TEXTO ESCRITO PELO MEDEIROS QUE REVELA E SINTETIZA BOA PARTE DO QUE EU NÃO CONSEGUIRIA DIZER:



“Nasci numa fazenda, no município de Traipu, que era um santuário ecológico. Ao amanhecer, acordava ouvindo verdadeira orquestra de pássaros canoros. Mesmo no verão o sol não chegava a cauterizar toda a vegetação, na qual se escondiam teiús, perdizes e codornas.
O que era Traipu? Uma cidade à moda antiga, de ruas estreitas calçadas com pedra rachão, ou mantidas em terra batida e poeirenta; casas de biqueira, janelas de madeira maciça, sem venezianas. Nas ruelas secundárias predominavam residências de taipa, nem sempre rebocadas. Os nomes das ruas de outrora eram bem diferentes das atuais: Rua das Flores, Rua da Igreja, Rua Grande, Rua do Papouco. Os nomes dos amigos de infância guardavam sempre relação de origem com seus pais: Mitinho do Américo, Luizinho da Santinha, Zequito da Luizinha, Aurinha da dona Carminho. São retratos sem retoques e recordações de uma cidade do interior, de vida pacata e mansa, porém imagens bem vivas em minha memória.
Nas noites de lua cheia, coincidência ou não, o motor elétrico sofria defeito. A cidade ficava às escuras, e as famílias sentadas nas calçadas, colocavam em dia as modestas novidades e acontecimentos locais. Dentro da casa, os lampiões de querosene, os candeeiros e velas, garantiam as arrumações na hora de deitar.
A poucos metros dali, o rio São Francisco deslizava mansamente, voluptuosamente, e uns poucos afoitos arriscavam tomar banho à noite. Predominava o medo de piranhas (peixes vorazes) alicerçado nas muitas histórias de pessoas desaparecidas, nunca mais encontradas.
A cidade de Traipu, nos idos de 1940, foi testemunha de minha infância alegre e feliz. Durante o dia, após as obrigações da escola, braçadas no rio, em disputa de distâncias a serem alcançadas. Emolduravam esse cenário canoas com velas infladas, traquetes coloridos, canoas de tolda assim eram conhecidas. Para quem viajava nesses transportes fluviais a alimentação era especial, uma feijoada de tão bom  paladar que celebrizou a expressão ribeirinha: "tão gostosa quanto feijoada de popa de canoa".
Esse quadro não estaria completo se não fosse citado o novenário da festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora do Ó, durante o qual transbordava religiosidade, animado por foguetórios, zabumbas, dobrados musicais e leilões.
Neste verão, lembrei-me de um episódio ocorrido em minha adolescência. Morávamos (eu e meu irmão Rui Medeiros) na fazenda Mata Verde, a margem do Rio São Francisco. Além de futebol, nossos esportes favoritos eram a pesca – como eram fartos os peixes e pitus àquela época! – e a natação à distância, sempre tentando superar limites anteriormente conquistados. Éramos adolescentes, vivíamos uma crise paranóica de auto-suficiência, cada um querendo ser dono do próprio nariz, sem medo de enfrentar riscos e obstáculos. A cidade mais próxima ficava a uma légua de distância (6 km) de onde nos encontrávamos, e o percurso era feito em canoas. Julgávamos conhecer os segredos do rio e tínhamos confiança em sermos exímios canoeiros. Certa tarde, comuniquei à minha mãe que íamos à cidade fazer compras, pilotando uma canoa à vela. Um “Não” foi a resposta; um “Não” redondo e definitivo. Explicou, que em algumas horas cairia uma trovoada; o céu já se tomava de uma coloração azul-chumbo e o rio ficaria perigoso durante a chuvarada. Tentamos convencê-la, em nada resultavam os argumentos.
         Desobedecemos, rumamos à cidade. Na volta – e já estávamos no meio do rio – desabou uma chuva torrencial, seguida de ventos fortes, que mais pareciam um furacão; os raios e trovões se sucediam. A vela foi arrancada violentamente, inteiramente destroçada. Desesperados, remamos com todas as nossas forças para alcançar a margem do rio. Entretanto, isso já parecia impossível. De repente, julguei ouvir a voz de minha mãe que me orientava: “Filho, tenha calma, deixe a canoa ser arrastada pela correnteza; é o melhor que você pode fazer”. Parei o que estava fazendo e segui o conselho recebido. O barco foi levado pela corrente impetuosa e depois jogado em terra firme, em local bem distante.
         O pensamento positivo e a energia da preocupação de minha mãe haviam transmitido uma mensagem à minha mente. Uma mensagem telepática.
         No dia seguinte (ela ainda estava uma “arara”) contou-nos que, no momento da trovoada, ajoelhou-se e pediu a Deus que orientasse seus filhos. Como penitência, acompanharia a “via-sacra”, de joelhos, nas semanas santas dos anos seguintes na cidade de Traipu.
Na minha infância tinha a curio­sidade de conhecer a fazenda de meus avós, chamada de "Saco dos Medeiros", situada à mar­gem do Rio São Francisco, 10 km rio acima do local que nasci. Du­rante um verão inesquecível, a bordo de um barco à vela, viajei até lá. Quedei-me mudo de emo­ção diante de uma casa grande no alto de um penhasco, de onde se divisa as curvas do trajeto do rio. Entro na sala: quanta emo­ção nas lembranças e reminis­cências familiares. Ali, reside um pouco da história de meus antepassados. Minha avó teve 16 filhos; não sei se recla­mava da extensão dessa tarefa. Ela era doce e meiga. O amor era a vitamina para todos os males do corpo e da alma. Renovava energias no contínuo trabalhar.
Brincadeiras infantis na fazenda: “Boca de forno, forno!” “Tirando bolo, bolo!” “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...” “O cravo brincou com a rosa, a rosa...” Eram cantigas entoadas nas brincadeiras infantis preferidas pelas meninas, ao anoitecer. A bola que os garotos jogavam interrompia as brincadeiras femininas, acredito que por ciúme de terem sido isolados dos folguedos. O rio corria lá em baixo, no barranco, uma imensa caudal de águas claras e de fortes correntezas.
Se a tristeza do entardecer emergia mística, de imediato palavras-mágicas eletrizavam a garotada com o anúncio: “Venham, a sopa vai esfriar!” E eles, por graça, repetiam: “Café com pão, bolacha não!”.
São inesquecíveis imagens que povoaram minha infância nos idos da década de 1940. O rio, ainda intocado, guardava as características da época do descobrimento. Não havia hidrelétricas, nem represas. Durante as enchentes anuais, as águas se expandiam por quilômetros e quilômetros além das margens, e, nesses alagadiços, plantava-se o arroz que garantia a subsistência de muitas famílias. E aí, veio a primeira grande agressão. As hidrelétricas de Sobradinho, Xingó e Itaparica absorveram parte das águas do rio. Era o progresso, levando iluminação a cidades e vilas, energia necessária ao consumo e à modernização industrial. Quem arriscaria insurgir-se contra o progresso? Entretanto, a partir daí, o rio minguou em largura e volume de água. Em algumas partes virou riacho. Nessa época, a melhor alternativa de locomoção dos ribeirinhos do baixo São Francisco era o transporte fluvial. O rio era o caminho natural; as poucas estradas existentes eram quase veredas.
Traipu e Penedo marcaram minha formação e delas guardo recordações que me sensibilizam. Repito sempre de memória: O tempo não para, para onde eu vou, ele me segue, traçando meu destino, fascinante, im­previsível.
Nessa época, não havia escola secundária em Traipu, e os adolescentes emigravam para a cidade de Penedo. "Quem desce de barco o rio São Francisco, a poucos quilômetros de sua foz, tem a agradável surpresa de avistar, sobre enorme penhasco, uma fileira de casas coloniais de variadas cores, realçando sobre as águas verdes-amareladas do rio. É a cidade de Penedo, uma das mais antigas do Brasil, fundada por Duarte Coelho Pereira, que lhe deu esse nome, devido à sua situação geográfica. Perto do cais, destaca-se sobre o casario antigo a bonita igreja de Nossa Senhora da Corrente, preciosa jóia da arquitetura setecentista, com suas torres arredondadas e seu frontão barroco".
Faço minhas essas palavras da amiga Nilza Megale, porque assim vi Penedo nos idos da minha infância. Ali, aportei no navio Comendador Peixoto, uma embarcação a motor de médio calado, que realizava semanalmente o trajeto fluvial entre Penedo e Piranhas. Vim para Penedo a fim de fazer o curso ginasial. As estradas para Maceió eram precárias. Assim, o rio era o grande caminho, a via móvel dos ribeirinhos que buscavam complementos de instrução na cidade de Penedo, conhecida como "capital civilizatória do baixo São Francisco".
Já estávamos instalados nessa cidade, quando recebemos a visita de parentes há muito tempo residentes no Rio de Janeiro. Fui incumbido de passear de canoa com um jovenzinho carioca, recém-chegado. Ao voltar todos queriam saber se ele havia gostado da pequena viagem. A resposta foi breve e clara: "gostei, mas estranhei os marinheiros (canoeiros) sem farda, descalços, sem boné...".
Em um lar cris­tão tradicional, na cidade de Pe­nedo, onde fiz os estudos do antigo 1° grau, as quintas e sextas-feiras da Semana Santa eram motivo de respeito conforme os ensinamentos religiosos.
Numa quinta-feira da Sema­na Santa, já não recordo o ano, fui sorteado, entre os ginasianos, para participar da cerimônia ca­tólica do "lava-pés", em que o Bispo lavava os pés de 12 crianças que representavam os após­tolos de Cristo. Esse sorteio pro­vocou estranha agitação em nos­sa casa. Minha mãe, ciosa dos princípios higiênicos, achou que meus pés de jogador de futebol de rua eram sujos, maltratados e não estavam condizentes com esse ato religioso. Coitado de mim. Uma semana de suplício por conta: suspensão dos jogos de rua e, diariamente, obrigado a lavar os pés várias vezes com pedra-sabão; eles quase viraram espelho.
No grande dia, na igreja, ca­lor sufocante, metido em uma veste talar, aguardei o início da cerimônia. O bispo aproximou os lábios de meus pés. Um arrepio percorreu meu corpo; a herança religiosa falava mais alto.
“Quando partimos no vigor dos anos, / Da vida pela estrada florescente,/As esperanças vão conosco à frente, / Vão ficando atrás os desenganos!.../ Eu e o Rui, meu irmão, recitávamos esses versos do Padre Antonio Thomaz, em nossa adolescência e juventude. Esperanças e bom astral eram a tônica de nossos entusiasmos juvenis. Se a juventude não é apenas uma fase de vida, e sim, um estado de espírito tangido pelo sabor da aventura e da vontade de vencer, nós estávamos certos quando cultivávamos expectativas positivas de futuro.
         Minha mãe contava uma história poética que tem sido transmitida de geração a geração, cujo título é “Doação”. Não se conhecem o autor, a origem e o ano em que foi publicada. Faz parte da crônica oral das famílias, contou-me minha mãe. Decorei-a, e anos mais tarde, ensinei-a às minhas filhas, mantendo a tradição É uma historieta cheia de simbolismo, emoção e sentimento. Vamos conhecê-la.
“Amigo, faze o bem, esse prazer compensa a maior recompensa. Aqueles frutos saborosos que o teu vizinho colhe, às vezes, a cantar, custaram, com certeza, o trabalho de alguém que já sabia que nunca em sua vida os colheria, mas nem por isso deixou de plantar”. Minha mãe repetia que essa historieta deveria servir de modelo em nossa vida.
Recentemente, voltei à cidade de Penedo. Cada vez que volto a Penedo repito um roteiro de sentimento e de recordações, ao visitar ruas, praças, igrejas e locais que povoaram minha infância e adolescência. São muitas lembranças guardadas com carinho nas gavetas de minha memória. Na rua do Rosário, continua intocada a residência do Monsenhor José Medeiros, Monsenhor Medeiros como era conhecido, um sacerdote dedicado às letras, ao ensino e à religião. Dele herdei o nome de batismo e o estímulo à leitura dos clássicos da literatura brasileira. Foi exigente comigo e com meu irmão Rui Medeiros: era obrigatória a leitura e compreensão de textos, que posteriormente deveriam ser repetidos para ele. Muito aproveitamos com esse método que ele utilizava.
Meu tio, o Monsenhor Medeiros, que sabia de meu interesse em realizar o curso de Medicina, dizia que medicina é, antes de tudo, a ciência do homem. Para ser um bom médico, seria necessário compreender a natureza humana, abeberando-se na cultura geral e nos conhecimentos humanísticos.
Acrescentava: “Não existe medicina sem cultura e sem filosofia”. De filosofia, nem imaginava o que seria; de cultura, supunha livros e mais livros e a estante da residência do Monsenhor Medeiros (tio do professor Medeiros Neto e meu tio) constituíam um desafio. Aprendi a amar os livros. A biblioteca de Penedo era o refúgio dos fins de tarde. E meu primeiro encontro foi com Monteiro Lobato: “Narizinho arrebitado”, “O Saci Pererê”, “Caçada de Pedrinho” e Emília, Dona Benta e Tia Anastácia, entes que povoaram minha imaginação.
Mas, devorador de livros, percorri – na biblioteca – obras valiosas: de Érico Veríssimo a Jorge Amado, de Machado de Assis a Eça de Queiroz, e tantos, tantos outros, desfilaram nos anos de minha permanência em Penedo.
Hoje, minha maior lembrança é o Rio São Francisco: canoas que dependiam do vento; minha linha e meu anzol que fisgavam peixes pequenos e grandes; o plantio do milho em 19 de março, dia de São José (chovia nesse dia); as festas coloridas de Bom Jesus dos Navegantes.
Se recordar é reviver, eu vivo as alegrias dessas lembranças.
“Cultura é a representação de todas as vertentes humanas; ou cultura erudita ou cultura popular deve sempre ser levada ao povo como uma forma de compreensão, de educação. Eu costumo sempre dizer: “educação é um dote que não se gasta, um direito que não se perde e uma liberdade que não se limita”. [...]

ELE GOSTAVA MUITO DESSES VERSOS DO PADRE ANTONIO TOMAZ:

CONTRASTE
Pe. Antonio Tomaz
Quando partimos, no vigor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando, descuidosamente...
Eis que chega a velhice de repente,
Desfazendo as ilusões, matando enganos.

Então, nos enxergamos claramente
Quanto a existência é rápida e fugaz,
E vemos que sucede exatamente

O contrário dos tempos de rapaz:
— Os desenganos vão conosco a frente,
E as esperanças vão ficando atrás!


AÍ ELE CONTINUAVA NESSAS NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS:

“Então eu luto para que esses desenganos não tomem conta de mim de maneira nenhuma. Eu mantenho a esperança como a chama que eu cultivo diariamente, com fé inabalável em Deus e a certeza de que a gente vive tanto quanto é possível, mas o problema não é viver muito, é viver bem; é ter qualidade de vida/ é saber se cuidar adequadamente; é fazer com que o nosso corpo e a nossa mente permaneçam o número de anos que for possível ao serviço da humanidade, das pessoas, porque sendo médico foi isso que eu fiz, é isso que eu faço e é isso que eu espero... farei sempre, se não mais na clínica, que foi de 40 anos, mas através da crônica. Durante 16 anos eu mantenho a crônica na Gazeta de Alagoas e aí eu prego tudo isso que eu aprendi. Eu conto tudo isso que vivi ao longo do tempo, porque diz-se que médico para escrever não precisa de mais nada, digamos assim, basta contar os “causos” que ele viu durante a vida, e são tantos “causos”, que ,usando a palavra popular que aconteceram, que a gente vai gradualmente fazendo, digamos assim, a continuidade disso. Muita gente pergunta: “Zé Medeiros, porque é que você não escreve suas memórias?” Eu digo: “porque quem escreveu 16 anos, toda semana, já contou boa parte de sua vida. Então, tenho pouco a contar.” Principalmente, porque quando deputado estadual, é onde eu vi coisas mais curiosas [...] eu vi casos que eu não posso contar porque as pessoas ainda vivem. Então é melhor não contar para evitar aborrecimentos.
Como eu nasci na beira do São Francisco, desse rio da unidade nacional, nesse rio que foi sem dúvida nenhuma um elo desde a sua descoberta em 1503 até hoje, ele continua e eu sou da época em era possível vir de Traipu, onde eu morava, para Penedo, onde eu estudava, de navio [...]
Eu quero então em homenagem a minha terra dizer uma poesia, que não sei de cor, mas vou ler aqui.

SAUDADE [Da Costa e Silva]

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra... O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho... o caboré com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento...
As mortalhas da névoa sobre a serra...

Saudade! O Parnaíba — velho monge
As barbas brancas alongando... E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra...

 “Essa poesia representa aquilo que vivi na beira do rio, pescando piaba, correndo e pegando passarinho para colocar em gaiola. Naquele tempo, a gente não tinha ideia ainda, digamos assim, de quanto é preciso fazer para manter o meio ambiente. Eu nunca tinha ouvido falar, até chegar em Penedo, em meio ambiente, até então, nunca se tinha ouvido falar nisso. Bom, mas os passarinhos pelo menos eram bem tratados. E vivi ali durante toda a minha infância, toda a minha adolescência. Como diz o poeta, pés descalços e braços nus correndo pelas campinas, chupando caju nos cajueiros e manga nas mangueiras. Atravessando o rio, aprendi a remar com meu irmão, à vela, e ali vivi boa parte da minha existência, existência que é rápida e falaz, mas que eu considero que foram anos tão bem vividos, que se eu algum dia voltar, voltarei para a fazenda Mata Verde, lá em Traipu, vivendo esses 16 anos que lá vivi.

A jornalista Alessandra Brandão, assim escreveu com muita propriedade:
José Medeiros é um alagoano de Traipu, que nos brinda, há longos anos, com seus envolventes escritos e reflexões sobre temas do cotidiano. Com uma formação humanista referenciada no Monsenhor Medeiros, seu tio e principal orientador, nosso cronista logo cedo conheceu os grandes clássicos da história, não demorando a se encantar pela área dos cuidados com o ser humano, formando-se mais tarde em Medicina e Odontologia.
A inquietude pelo conhecimento o levou a uma formação acadêmica privilegiada, compondo um currículo repleto de cursos e estágios nacionais e internacionais. Homem de visão privilegiada atuou fortemente na política alagoana, exercendo cargos de Secretário Estadual de Saúde, de Educação e Deputado Estadual.
Na condição de Deputado Constituinte, deu uma de suas principais colaborações ao Estado ao defender a criação da Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas (FAPEAL), responsável por fomentar a pesquisa científica em solo alagoano. José Medeiros foi seu primeiro presidente e responde atualmente pela vice-presidência do Conselho Superior. Foi Secretário de Educação e de Saúde e Presidente da Fundação Governador Lamenha Filho.
Atualmente, José Medeiros é também presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Seção Regional de Alagoas –SOBRAMES/AL – e vice-presidente da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa – FUNDEPES, da Academia Alagoana de Cultura e da Academia Alagoana de Medicina, além de membro da Academia Maceioense de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste. Há, dois anos, foi eleito para a Academia Alagoana de Letras. Recentemente, foi agraciado com as comendas do Quadro do Mérito dos Palmares, do Governo de Alagoas, e Senador Arnon de Melo, do Instituto que leva este nome.

JOSÉ MEDEIROS TEVE UMA VIDA TÃO RICA QUE A GENTE FICA SE PERGUNTANDO COMO ELE ENCONTROU TEMPO NESSES OITENTA E POUCOS ANOS, PARA SE DEDICAR A TANTA COISA.
CASOU COM A PROFESSORA ROSA E COM ELA TIVERAM TRÊS FILHAS. TAMBÉM ADOTARAM UM RAPAZ.  ATÉ SER CONVIDADO PARA ENTRAR NA SOBRAMES, NO ANO 2000,  TINHA NOTÍCIAS DE UM ZÉ MEDEIROS DEPUTADO, SECRETÁRIO DA SAÚDE, SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO, VICE-REITOR... ABRO UM PARÊNTESE PARA DIZER QUE A SOBRAMES FOI MUITO IMPORTANTE PARA MIM. FOI AQUI QUE EU ENTREI EM CONTACTO COM OS MAIS DESTACADOS INTELECTUAIS, MÉDICOS E NÃO MÉDICOS. TRATAVA-SE DE UM FATO ABSOLUTAMENTE NOVO EM MINHA VIDA DE ESCRITOR. ANTES EU ERA UMA ESPÉCIE DE LOBO SOLITÁRIO, ESPÉCIE DE GERAÇÃO ESPONTÂNEA, POSTO NUNCA PARTICIPARA DE QUALQUER AGREMIAÇÃO LITERÁRIA. ESSA CONVIVÊNCIA ME FEZ PERSISTIR E TENTAR APRIMORAR. FOI DAQUI QUE OUSEI PENSAR NA ACADEMIA ALAGOANA DE MEDICINA E NA ACADEMIA ALAGOANA DE LETRAS.
COMO DIZIA, QUANDO O CONHECI PESSOALMENTE E FUI CONVIDADO A PARTICIPAR DE FESTEJOS FAMILIARES, TESTEMUNHEI O CARINHO COM QUE ERA TRATADO PELAS FILHAS E PELOS NETOS, ESTES JÁ ADULTOS E CURSANDO A FACULDADE DE  MEDICINA. FOI UM HOMEM RESPEITADO E AMADO PELA FAMÍLIA. NOS SEUS DIFÍCEIS ÚLTIMOS DIAS, VOLTEI A TESTEMUNHAR TUDO ISSO E MAIS O ZELO DA ESPOSA, FILHAS, FILHO E NETOS. DIGO A VOCÊS: INVEJEI O MEDEIROS, CERCADO POR PESSOAS QUE O AMAVAM PROFUNDAMENTE. QUANDO ELE DORMIU SEU ÚLTIMO SONO VELADO PELA FAMÍLIA AO SEU REDOR, DEVE TER-SE RIDO INTIMAMENTE E TER PENSADO DE SI PARA CONSIGO: “COMO FOI BOM VIVER E CRIAR TANTAS COISAS BOAS”.





Muito Obrigado!